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Mostrando postagens de 2016

O niilismo (Ernst Fischer)

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Nietzsche, que compreendeu a decadência mais agudamente do que qualquer outro, reconheceu no niilismo um de seus traços essenciais. Anunciou a "preamar do niilismo": "Toda a nossa cultura europeia tem evoluído, desde algum tempo passado, sob o peso de uma tensão torturada, que aumenta de década para década, caminhando em direção de qualquer coisa como uma catástrofe: incansável, violenta, precipitadamente..." E eis como ele descreve o tempo em que fomos "jogados" (esta ideia de sermos "jogados" no nosso tempo viria a se tornar um dos temas do existencialismo):

...uma época de decadência interior e grande desintegração. (...) O niilismo radical traduz a convicção de que a existência é absolutamente insuportável. (...) O niilismo é um estado patológico intermediário (o colossal exagero, a conclusão de que não há sentido algum nas coisas é puramente patológica): quer no caso das forças não se acharem ainda suficientemente poderosas, quer no caso d…

Galvano Della Volpe e o dellavolpismo

Eu tô lendo a coletânea Sociologia, do Della Volpe, e vou falar de umas impressões que eu tive.
Eu vou falar mais sobre estética, mas a estética materialista que ele tentou formular sistematicamente é parte de uma interpretação global do marxismo, que tem paralelos interessantes com o althusserianismo.
E qual é essa interpretação? Ele tenta formular uma leitura rigorosamente materialista do marxismo, projeto que envolve uma crítica à influência do Hegel, que é anterior à feita pelo Althusser. Para o Della Volpe, a “linha evolutiva” não é Hegel-Feuerbach-Marx, como no “materialismo dialético” “oficial” dos partidos comunistas ou, como o Althusser defenderia depois, Demócrito-Spinoza-Marx, e sim Aristóteles-Galileu-Marx. A crítica ao idealismo não passa pela ideia de “inversão” da dialética, conservando o seu método mas sobre bases materialistas, e sim por uma crítica à “tautologia real”, que cria conceitos que são hipóstases de objetos reais, crítica que ele viu pela primeira vez na h…

É hora de criticar a esquerda anticiência (Robin Andrews)

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Traduzido do I Fucking Love Science


É justo dizer que muitos políticos e organizações da direita ou extrema-direita são considerados quase inerentemente anticientíficos. Os fatos não valem mais que os sentimentos para pessoas como Trump ou grandes corporações como ExxonMobil, que veem o aquecimento global e o ambientalismo na melhor das hipóteses como inconveniências e, na pior, como conspirações globais. Isso é conhecido, e eles evitarem os fatos e evidências científicas geralmente é denunciado pela mídia.
Entretanto, grupos e indivíduos que geralmente representam “a esquerda” podem ser tão anticiência quanto. Os seus pontos de vista não só são tão errados como os das suas contrapartes do outro lado da cerca, como ele também podem ser tão perigosos quanto, se muitas pessoas os ouvirem sem parar para questioná-los.

Vox Populi
O Greenpeace é um exemplo perfeito disso. Reverenciado por um monte de pessoas de esquerda – 2,8 milhões, de acordo com o seu site – a missão global da organiza…

O capitalismo real: turbulento e antagônico, mas não imperfeito (Michael Roberts)

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Uma crítica de Capitalism: Competition, Conflict, Crises (Oxford University Press, 2016), de Anwar Shaik

Traduzido a partir daqui. O blog do Michael Roberts é esse.

Anwar Shaikh é um dos economistas mais importantes do mundo inspirados em Karl Marx e nos economistas clássicos (“economia política”, se você preferir). Ele lecionou na New School for Social Research de Nova Iorque por mais de 30 anos, e escreveu três livros e sessenta artigos1. Essa é a sua obra mais ambiciosa. Como Shaik diz, é uma tentativa de derivar a teoria econômica do mundo realm e então aplicá-la aos problemas reais. Ele aplica as categorias e a teoria dos economistas clássicos a todas as grandes questões econômicas, incluindo as que supostamente fazem parte da economia mainstream, como oferta e procura, preços relativos de bens e serviços, taxas de juros, preços de ativos financeiros e mudança tecnológica.

Uma abordagem clássica
Shaikh diz que a sua abordagem “é muito diferente tanto da economia ortodoxa quanto da tr…