O niilismo (Ernst Fischer)

Ludwig Meidner, Paisagem Apocalíptica, 1913

Nietzsche, que compreendeu a decadência mais agudamente do que qualquer outro, reconheceu no niilismo um de seus traços essenciais. Anunciou a "preamar do niilismo": "Toda a nossa cultura europeia tem evoluído, desde algum tempo passado, sob o peso de uma tensão torturada, que aumenta de década para década, caminhando em direção de qualquer coisa como uma catástrofe: incansável, violenta, precipitadamente..." E eis como ele descreve o tempo em que fomos "jogados" (esta ideia de sermos "jogados" no nosso tempo viria a se tornar um dos temas do existencialismo):

...uma época de decadência interior e grande desintegração. (...) O niilismo radical traduz a convicção de que a existência é absolutamente insuportável. (...) O niilismo é um estado patológico intermediário (o colossal exagero, a conclusão de que não há sentido algum nas coisas é puramente patológica): quer no caso das forças não se acharem ainda suficientemente poderosas, quer no caso da decadência ainda se manifestar hesitante e ainda não ter encontrado seus meios auxiliares. (...) O niilismo não é a causa, é somente a lógica, da decadência.

 Aqui, o niilismo é claramente identificado como um resultado, uma expressão da decadência. Cego, porém, à dialética do desenvolvimento social, Nietzsche falhou no reconhecimento da conexão com o desgaste do capitalismo. O niilismo, já visualizado por Flaubert, é uma atitude válida para muitos artistas e escritores no mundo burguês da decadência avançada. Mas é preciso não esquecer o fato de que o niilismo ajuda muitos intelectuais rebeldes desorientados a reconciliarem-se com condições iníquas; é preciso não perder de vista o fato de que a natureza radical é frequentemente apenas uma forma dramatizada de oportunismo. O escritor niilista nos diz: "O mundo burguês capitalista está perdido. Digo-o sem piedade e sustento minha opinião, levando-a às suas mais extremas consequências. Não há limites para essa barbaridade. Quem quer que ainda acredite que haja neste mundo algo que valha a pena ou algo por que valha a pena a humanidade viver é louco ou velhaco. Todos os seres humanos são estúpidos e malvados, os oprimidos tanto quanto os opressores, os que lutam pela liberdade tanto como os tiranos. Pra dizer isso é preciso ter coragem". Permitam-me continuar com as próprias palavras recentemente escritas por Gottfried Benn:

Ocorre-me o pensamento de que talvez seja muito mais radical, muito mais revolucionário, muito mais corajoso para um homem que seja de fato forte e duro o dizer à humanidade: Vocês são assim mesmo e jamais serão diferentes; vocês vivem assim, sempre viveram assim e assim sempre viverão. Quando vocês têm dinheiro, têm saúde; quando têm força, não precisam desdizer-se; quando têm poder, estão com o direito. Essa é a história. Ecce historia! (...) Quem não suportar essa ideia será um mentiroso entre vermes, mentirá aos que a terra úmida já cobriu. Quem se jacta, fitando os olhos das crianças e dizendo-lhes que ainda possui esperança, está querendo prender a luz com as mãos, mas não conseguirá salvar-se da noite que já lhe vai arrebatando seu país, sua cidade. (...) Todas as catástrofes nascem do destino e da liberdade: flores inúteis, fogos impotentes e, por trás deles, o impenetrável, com seu ilimitado Não.

Tudo isso soa muito mais radical do que qualquer Manifesto Comunista e, no entanto, só ocasionalmente a classe dominante formula alguma objeção contra semelhante "radicalismo". E mais: em tempos de fermentação revolucionária, um niilismo como esse se torna virtualmente indispensável à classe dominante, assumindo uma utilidade muito maior do que a dos autoelogios que o mundo burguês possa fazer a si mesmo. A autoapologia direta provoca suspeitas. Mas o tom radical das acusações niilistas pode encontrar ecos "revolucionários" e canalizar as revoltas para um desespero absurdo e passivo. Só quando a classe dominante se sente incomumente segura e, em particular, quando está preparando uma guerra, é que a sua boa vontade para com o niilismo anticapitalista se dissipa: em tais épocas, requer apologias diretas e referências a "valores eternos". O niilismo radical, então, corre o risco de ser queimado como "arte degenerada".

O artista niilista em geral não está prevenido do fato de estar-se rendendo, na realidade, ao mundo capitalista burguês, isto é, não está prevenido do fato de, ao negar tudo, estar sancionando este mundo como adequado ao naufrágio universal. Para muitos desses artistas niilistas, que são subjetivamente sinceros, não é nada fácil entender coisas que ainda não chegaram a ser inteiramente e traduzi-las na arte. Há duas poderosas razões pelas quais isso não é fácil: primeiro, a classe operária não tem permanecido imune à influência imperialista do mundo capitalista; segundo, a superação do capitalismo não só como sistema econômico e social, mas também como atitude espiritual, é um processo longo e doloroso, e o novo mundo não nasce desde logo gloriosamente perfeito, mas marcado e desfigurado pelo passado. Um elevado grau de consciência social é requerido para se distinguir entre as dores da morte e as dores do parto na transformação social. Um elevado grau de consciência social é requerido para se diferenciar o prédio em ruínas do prédio inacabado que está sendo construído. Um elevado grau de consciência social é igualmente indispensável para que o novo seja enxergado na sua totalidade sem que sejam ignorados (ou pior, idealizados) os seus traços imundos. É bem mais fácil notar apenas o horrível, o desumano, as marcas do envelhecimento do que penetrar na própria essência do que está nascendo. A decadência, de resto, é mais colorida, mais fulminante, e possui um fascínio mais imediato que a laboriosa construção de um mundo novo. E, além disso, o niilismo - afinal - não implica obrigações de qualquer espécie.


(A Necessidade da Arte, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976, 5ª edição, pag. 101-104)

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