É hora de criticar a esquerda anticiência (Robin Andrews)


Traduzido do I Fucking Love Science


É justo dizer que muitos políticos e organizações da direita ou extrema-direita são considerados quase inerentemente anticientíficos. Os fatos não valem mais que os sentimentos para pessoas como Trump ou grandes corporações como ExxonMobil, que veem o aquecimento global e o ambientalismo na melhor das hipóteses como inconveniências e, na pior, como conspirações globais. Isso é conhecido, e eles evitarem os fatos e evidências científicas geralmente é denunciado pela mídia.

Entretanto, grupos e indivíduos que geralmente representam “a esquerda” podem ser tão anticiência quanto. Os seus pontos de vista não só são tão errados como os das suas contrapartes do outro lado da cerca, como ele também podem ser tão perigosos quanto, se muitas pessoas os ouvirem sem parar para questioná-los.


Vox Populi

O Greenpeace é um exemplo perfeito disso. Reverenciado por um monte de pessoas de esquerda – 2,8 milhões, de acordo com o seu site – a missão global da organização certamente é nobre, porque ela deseja impedir a degradação ambiental e diminuir a mudança climática, da forma que for necessária. Muitos concordam e, para os seus apoiadores, esse grupo representa a “voz do povo”.

Mesmo assim, os aderentes do Greenpeace desprezam a energia nuclear, que é uma arma poderosa na luta contra o aquecimento global. Eles (corretamente) apontam para o fato de que os resíduos nucleares são um problema, mas a sua objetividade, e senso de perspectiva, acaba aí.

“Mesmo que a energia nuclear seja consideravelmente mais arriscada do que a indústria vai admitir, a nossa oposição a novas usinas nucleares é baseada nos custos de oportunidade envolvidos, e não no medo”, Dr. Paul Johnston, o principal cientista da Greenpeace's Science Unit na Universidade de Exeter, disse a IFLScience.

Uma rápida olhada no site do Greenpeace nos leva a um banner gigante que diz: “é hora de acabar com o pesadelo nuclear”, com uma referência direta a Fukushima. Isso certamente parece amedrontador, mas a energia nuclear merece isso?

Antes de tudo, já se passaram cinco anos do acontecimento em Fukushima, e não houve um aumento estatisticamente significativo dos casos de câncer na região. Significativamente, esse é somente o terceiro acidente nuclear da história, com apenas Chernobyl – um resultado de supervisão ruim e construção preguiçosa e não-regulamentada – sendo um desastre que realmente chocou o mundo.

Em mais de 16 mil anos acumulados de energia nuclear comercial, no máximo cem pessoas morreram de doenças relacionadas à radicação. Compare com as dezenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos por causa da poluição dos combustíveis fósseis, e some também os outros milhões que morrem como resultado indireto do aquecimento global causado pelos combustíveis fósseis, e fica claro que a ameaça da energia nuclear é exagerada pesadamente.


Um Desafio Custoso

Johnston também apontou que a energia nuclear geralmente é mais cara comparada com as usinas de combustíveis fósseis. Isso é verdade, mas a energia nuclear pode ficar mais competitiva com um imposto nacional sobre o carbono. Além disso, só porque uma coisa é cara, não quer dizer que seja ruim – um sentimento com que qualquer agência espacial concordaria.

Johnston também disse que “nem todos esses bilhões de dólares são gastos em fontes que vão fornecer energia no prazo curtíssimo necessário para parar as mudanças climáticas catastróficas.” A palavra “fontes”, nesse caso, se refere às energias renováveis.

A energia solar e a eólica são as únicas grandes fontes de energia renovável que praticamente qualquer país pode adotar, e elas nunca fornecem uma fonte constante de energia. A energia hidráulica e a geotérmica só são disponíveis em alguns países. Mesmo assim, essa energia não pode ser armazenada por longo prazo, diferente da energia nuclear, cujo combustível pode esperar até o momento em que for necessário ser usado.

Importante, as energias renováveis sozinhas não podem sustentar o planeta todo. Na teoria, elas podem, é claro – um deserto do Saara até parcialmente coberto por paineis solares seria tecnicamente o suficiente – mas isso é idealismo sem pragmatismo.

A energia nuclear tem uma pegada de carbono muito baixa. Um estudo amplo de 2008 descobriu que as usinas nucleares modernas têm uma pegada 14,5 vezes menos do que a das termoelétricas e 6,7 vezes menos que as usinas de gás natural. Um mundo funcionando à base de energia nuclear e renováveis produziria carbono em magnitudes menores que o em que vivemos hoje.

Johnston disse que não sabe de nenhum estudo que sugira que a energia nuclear deva ser combinada com os renováveis, mas existe um monte de evidências por para serem encontradas. Muitos especialistas que comentaram sobre o inovador acordo de Paris também concluíram que, para alcançar os modestos alvos, a energia nuclear é essencial.


Tons de verde

Os partidos verdes não são muito melhores nesse aspecto.

Os EUA, por exemplo, têm o seu próprio Partido Verde. Ele é presidido pela Dra. Jill Stein, que é candidata à presidência dos EUA. Embora os seus pontos de vista possam parecer sedutores para a sua base de apoiadores de esquerda, um olha mais atento revela que ela é, na verdade, extremamente anticientífica em sua abordagem.

O seu partido quer transformar os EUA num país com 100% de energias renováveis em 2030, algo que, do ponto de vista prático, é altamente improvável. O partido de Stein também tem um posicionamento claramente antinuclear – uma posição compartilhada pelo Partido Verde do Reino Unido, pelos Verdes australianos e por muitos grupos semelhantes em muitos outros países. Sem energia nuclear, o aquecimento global vai prosseguir.

Incidentalmente, Stein também acredita que wi-fi faz mal à saúde, sendo que toda a evidência diz o contrário. Sobre essa questão, ela na verdade discorda do próprio manifesto, que defende o acesso universal à internet. Um AMA recente no reddit revelou que ela ainda é, no mínimo, ambivalente sobre o wi-fi.

Stein também usou de linguagem preocupante sobre as vacinas no passado, e o seu partido só esse ano abandonou o seu apoio ao ensino e financiamento da homeopatia no seu manifesto. Sinais bem preocupantes.

Em geral, Stein deseja influenciar a pesquisa científica continuamente reconhecendo as opiniões do público, o que facilmente poderia deixar pontos de vista anticientíficos entrarem no debate público. Os americanos têm mais medo de palhaços do que do aquecimento global, então se Stein fizer uma revolução em 2016, espere pra ver a pesquisa antipalhaços ganhar um grande aporte de dinheiro.

O comediante John Oliver recentemente falou, entre outras coisas, sobre os pontos de vista cientificamente duvidosos de Stein na televisão em rede nacional. Dando o perigoso passo do cinismo à aberta loucura da teoria da conspiração, ele declarou que Oliver era membro de uma conspiração ligada a ninguém menos que Hillary Clinton.


Transgênicos

E, então, tem os transgênicos.

As culturas transgênicas são criadas primariamente para serem resistentes a doenças, ambientes hostis e para não dependerem de pesticidas potencialmente tóxicos. Como você deve saber, têm sido encaradas com uma oposição implacável de muitos grupos e partidos verdes, incluindo o de Stein.

A posição oficial do Partido Verde é estabelecer uma moratória sobre os transgênicos. Se isso acontecesse, o suprimento de insulina, que salva vidas – e que é fabricada principalmente usando transgenia – entraria em colapso.

“O Greenpeace não é contra a biotecnologia – nem o uso de transgênicos – em ambientes controlados”, Johnston disse a IFLScience. “Nós continuamos contra a liberação de culturas transgênicas em ambiente aberto” Isso implica, estranhamente, que eles nunca deveriam sair dos laboratórios, que é o objetivo das pesquisas.

Sejamos claros: existem evidências científicas esmagadoras de que as culturas transgênicas, que na sua maioria consistem em milho e soja, são seguras para o consumo humano. Um grande relatório da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA, lançado esse ano mesmo, foi citado por Johnston para concluir que não existe consenso sobre a segurança e efetividade das culturas transgênicas, mas uma leitura do estudo mostra que a verdade é quase o oposto.

Ela mostra que, com algumas pequenas exceções, as culturas transgênicas “têm tido, em geral, resultados econômicos favoráveis para os produtores”, notando que as plantações com genes resistentes aos insetos “diminuíram a perda de colheitas e o uso de inseticidas em fazendas pequenas e grandes”, em relação a variedades não-transgênicas.

Depois de examinar uma pletora de estudos experimentais e dados de longo prazo sobre os rebanhos e a saúde humana, o comitê não encontrou “nenhuma evidência substancial de que a comida que vêm de culturas transgênicas é menos segura que a comida de culturas não-transgênicas”.

Quando se trata dos transgênicos, muitos políticos verdes ficam preocupados com grandes conglomerados opacos como a Monsanto serem donos de uma parte grande demais do suprimento de comida do mundo. Embora esse tipo de monopólio seja uma preocupação legítima – assim como o usoexcessivo de pesticidas potencialmente prejudiciais – ele não torna os transgênicos em si perigosos.

Ainda assim, grupos como o de Stein e o Greenpeace acreditam fortemente que eles são. Eles não estão ensinando as pessoas a serem céticas em relação aos transgênicos, e sim defendendo uma oposição frontal à tecnologia, apesar das evidências disponíveis.


Pontos de vista que ameaçam a vida

Algumas culturas transgênicas são fabricadas especificamente para salvar vidas. Golden Rice – um projeto financiado e apoiado pela Fundação Bill and Melinda Gates – é um exemplo excelente disso. É uma variedade da plantação comum que tem mais vitamina A que o normal.

Ela é feita para ser cultivada em partes do mundo em que as populações sofrem mais com deficiência dela. Na melhor das hipóteses, ficam cegos; na pior, morrem – 2 milhões por ano.

Mesmo que mais testes sejam necessários, o Golden Rice é uma promessa para resolver esse problema efetiva e rapidamente. Mesmo assim, o Greenpeace protesta contra ele sem nenhum motivo científico, potencialmente colocando em perigo milhões de vidas por ano. Mais de 100 ganhadores do Prêmio Nobel pediram que ele parasse de difundir o que eles consideram como desinformação sobre o assunto, mas sem resultado.

Numa entrevista exclusiva para IFLScience, Bill Gates notou que esse tipo de protesto vai prejudicar mais os países menos desenvolvidos.

“O fato de que alguns países ricos não vão aproveitar comidas mais produtivas e nutritivas não é problema”, disse. “O que eu vejo como problemático é impor esse ponto de vista a países em que os benefícios são tão dramáticos – em termos de evitar pragas que levam à fome, ou cultivar plantações que melhoram a nutrição e fornecem vitamina A para o povo.”

Lembre: não tem nada de errado em ser cético, e o ambientalismo é uma causa digna da nossa luta, mas você precisa se armar com informações corretas para ir à batalha. Senão, você pode fazer um grande dano. Faça a sua pesquisa e cheque as suas fontes.

Você não precisa sempre estar à direita do espectro político para estar errado em ciência. 

Comentários