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Sobre a questão da transição para o socialismo (5)

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O funcionamento do modo de produção comunista (1): o GIK

Queria agora passar da discussão sobre a transição para a definição do que seria a sociedade socialista. Para isso, vou pegar duas formulações, feitas em períodos históricos diferentes, as duas de marxistas antistalinistas, e depois eu vou tentar fazer uma síntese dessa série e dizer que eu vejo como necessário reformular na concepção de socialismo à luz do balanço das lutas do século XX e do estado atual do desenvolvimento das forças produtivas.

Antes, só um esclarecimento.

Para Marx, socialismo e comunismo, usados como modo de produção, eram sinônimos. Na distinção que é feita, na Crítica do Programa de Gotha, entre a fase inferior e a superior do comunismo, que para muitos é a distinção entre socialismo e comunismo, nas duas fases não existe trabalho assalariado, dinheiro, mercado, classes sociais e, portanto, Estado. A fase de transição até o socialismo é que Marx chama de ditadura do proletariado e, nessa fase, sim, a econ…

Sobre a questão da transição para o socialismo (4)

Michael Lebowitz e David Schweickart e o papel do mercado na transição ao socialismo

Eu coloquei os dois juntos nessa postagem por dois motivos: primeiro que os dois trabalham com a ideia de que a transição vai exigir várias formas diferentes de propriedade, e que os mecanismos de mercado têm ser usados para garantir mais eficiência nessa transição. O segundo motivo, talvez o mais importante é que eles tentam tirar lições de experiências atuais, como o cooperativismo e, principalmente, o processo de lutas de classes na Venezuela. Esse embasamento em experiências concretas eu acho muito positivo.

O Lebowitz é professor universitário no Canadá, mas entre 2004 e 2010 morou na Venezuela, onde trabalhou no governo, dando assessoria a instituições de economia social. A partir dessa experiência, ele escreveu vários livros, como Construyámoslo Ahora: El Socialismo para el Siglo XXI, El Camino al Desarrollo Humano: ¿Capitalismo o Socialismo? eThe Socialist Alternative: Real Human Development.…

Sobre a questão da transição para o socialismo (3)

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Parecon

O Michael Albert e o Robin Hahnel são militantes anarquistas desde a década de 1970 nos EUA (exceções, num país em que a Nova Esquerda foi marcada principalmente por grupos maoístas), e editam desde 1987 a Z Magazine. Em 1991, no contexto do colapso da URSS, eles publicaram o livro Looking Forward - Participatory Economics for the Twenty First Century, onde formularam o sistema da economia participativa ou, como eles chamam, Parecon.

A Parecon é uma forma de resolver o que eles identificam como os principais problemas da produção capitalista: a hierarquia, a competição e a diferença salarial (repare que é uma crítica anarquista, e não marxista, eles não falam das leis econômicas do capitalismo, inclusive rejeitam a teoria marxista da exploração). Então, todas as características da Parecon são pensadas para impedir o surgimento desses problemas.

Em primeiro lugar, todas as empresas são autogeridas. Só que, além disso, eles propõem o que chamam de complexo de trabalho balancead…

Sobre a questão da transição para o socialismo (2)

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Bernard Friot e a generalização da forma salarial


O Bernard Friot é um sociólogo francês ligado ao PCF, que criou a Réseau Salariat em 2012.

O ponto de partida da teoria dele é uma análise alternativa sobre as instituições de seguridade social. Para os marxistas, os serviços públicos, incluindo a seguridade social são custos necessários e improdutivos da produção capitalista que o Estado se encarrega de administrar, como representante da burguesia como um todo, o que pode criar um conflito contra determinados capitais (por exemplo, os fundos de pensão). Mas, segundo o Friot, pelo contrário, devemos ver que a seguridade é uma instituição anticapitalista dentro da economia capitalista. Como? A forma de cotização da seguridade social não passa pela valorização do capital, e pode ser vista como uma redistribuição imediata das contribuições entre os beneficiários, orientada pelas necessidades de cada um, e não pelo valor contribuído.

A proposta do Friot para acabar com o capitalismo é gen…

Sobre a questão da transição para o socialismo (1)

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Por que discutir isso?

Pode parecer fora de propósito, num momento de recuo sem precedentes de qualquer perspectiva de transição ao socialismo. Mas justamente um dos fatores que levam ao recuo é a não existência de nenhuma proposta concreta de como fazer essa transição, depois do colapso das formações sociais com suspensão parcial da lei do valor, que levou ao discurso de "fim do socialismo" (para uma análise da desintegração do bloco stalinista, que foge do assunto dessa série, recomendo ler as obras da economista francesa Catherine Samary, por exemplo essa).

O fim do bloco soviético levou até mesmo a esquerda radical a defender, no máximo, a luta contra o neoliberalismo, resumida à rejeição (anticapitalismo). Mas existe uma descontinuidade radical entre as lutas imediatas contra medidas dos governos burgueses e a formulação de uma política alternativa, que é a precondição para disputar a hegemonia na sociedade. Sem uma alternativa, inclusive as lutas defensivas são mais d…

Julius Martov e a crítica menchevique internacionalista ao poder soviético

No centenário da revolução russa, existe toda uma pressão da mídia burguesa para transformar a data em uma marco do fracasso do socialismo. Por outro lado, nas comemorações que estão sendo feitas na esquerda, a versão absolutamente dominante é a celebração quase acrítica da política bolchevique.
Entre as várias correntes que disputaram o processo da revolução russa, uma das menos conhecidas é a dos mencheviques internacionalistas. Confundidos com os mencheviques defensistas que apoiaram a “sua” burguesia na Primeira Guerra, muitas de suas críticas entretanto foram prescientes sobre a burocratização nascente e os ritmos da transição para o socialismo. Aqui, será feito uma pequena apresentação dessa corrente, e a tradução de trechos de obras mencheviques, sobre as principais divergências com os bolcheviques.

O menchevismo
No Congresso de 1903 do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR), existe uma divisão na discussão sobre os estatutos. Os majoritários (“bolcheviques”, em russo) de…

Debate: que tipo de sociedade era a URSS?

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Gente, junto com o Gabriel Bragança, o Daniel Delfino e o Márcio Monteiro, estou ajudando a organizar esse debate sobre qual era a natureza de classe da União Soviética.

Vai ser na UERJ na segunda dia 23, às 18h30.
O Gabriel vai defender que a URSS era capitalismo de Estado, o Daniel que era uma forma pós-capitalista de capital (a teoria do István Meszáros), o Márcio vai defender que era um Estado operário degenerado (a teoria do Trotsky), e eu que era uma formação social com suspensão parcial da lei do valor (a teoria do Hillel Ticktin).
Ainda não encontramos ninguém pra defender que a URSS era socialista, nem também ninguém pra defender que era uma nova forma de sociedade de classes. Alguém se habilita?
O link do evento no Facebook tá aqui