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Dolor (Theodore Roethke)

Eu conheci a inexorável tristeza dos lápis,
Perfeitos nas caixas, dolor de carimbeira e peso de papel,
Toda a miséria das pastas de arquivo e goma arábica,
Desolação em locais públicos imaculados,
Sala de visitas solitária, lavabo, trocador,
O pathos inalterável da bacia e do caneco,
Ritual de etiquetadora, clipe, vírgula,
Duplicação infinita de vidas e objetos.

E vi o pó das paredes das instituições,
Mais fino que farinha, vivo, mais perigoso que sílica,
Filtrado, quase invisível, por longas tardes de tédio,
Colando um fino filme nas unhas e sobrancelhas delicadas,
Esmaltando o cabelo branco, as usuais faces cinzas duplicadas.

"Criminologia crítica e crítica do direito penal", do Alessandro Baratta

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O Patrick e o Guilherme me recomendaram esse livro. Eu achei um barato (hahahahahahahah). Na internet, como sempre, tem gente passando vergonha de todas as formas, uma delas é defendendo versões absurdas de teorias críticas sobre o direito. Esse livro tirou as minhas dúvidas. Eu vou tentar explicar aqui como ele é. Eu li na versão em castelhano aqui.


Definição
O livro começa com uma tentativa de definir a relação entre a criminologia e a sociologia jurídica. Ele vai dizer que o que delimita a especificidade e a autonomia da sociologia jurídico-penal é o seu objeto, que são os comportamentos e efeitos do sistema jurídico-penal e as reações não-institucionais a ele, assim como as interrelações entre esses elementos. Além disso, mesmo com uma convergência cada vez maior de métodos, a sociologia jurídico-penal e a criminologia (especialmente a sociologia criminal) têm uma diferença de objeto, porque a primeira trata do sistema jurídico-penal e a segunda, do comportamento desviado e de c…

Primeiro a luta de classes? (Kátia Cajá)

Você realmente acha que, resolvendo a questão econômica, acaba o patriarcalismo, o racismo e a homofobia?

Os homens de esquerda mentem. Dizem que sem focar nela, as opressões não são superadas. Mentira. O capitalismo tá aí firme e forte e já conquistamos nele mesmo direito a divórcio, participação política, em muitos países ao aborto e casar a com outra mulher, e a violência doméstica foi criminalizada. O que não mudou foi a exploração da burguesia sobre as mulheres trabalhadoras.

Sendo eu mesma uma trabalhadora, sou anticapitalista. Mas o feminismo liberal tá aí avançando a passos largos. Os marxistas precisam incorporar os avanços que as feministas materialistas trouxeram urgentemente, ou as mulheres operárias e camponesas vão ficar eternamente abandonadas. Ou então, como eu estou agora, lutando irmanadas em organizações feministas, mas sem a potência que poderíamos ter se fossemos admitidas nas organizações mistas.

Infelizmente as organizações marxistas incorporaram um discurso fe…

John Berger sobre o nu na arte europeia

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John Berger (1926-2017) foi um crítico de arte marxista inglês. Essa tradução é do terceiro capítulo do seu livro mais conhecido, Modos de Ver, e é uma síntese entre o marxismo e a teoria feminista, aplicada na análise da arte. Eu traduzi a partir da versão em castelhano. Infelizmente, não consegui encontrar todas as imagens do original, mas tentei selecionar as imagens de forma a manter os exemplos do que ele argumenta.


De acordo com os costumes e convenções, que finalmente estão sendo questionados, mas que não estão em nada superados, a presença social de uma mulher é de um gênero diferente da do homem. A presença de um homem depende da promessa de poder que ele encarna. Se a promessa for grande e crível, a sua presença será chamativa. Se for pequena ou sem credibilidade, o homem verá que a sua presença é insignificante. O poder prometido pode ser moral, físico, temperamental, econômico, social, sexual... mas o seu objeto é sempre exterior ao homem. A presença de um homem sugere o q…

Orientalismo e orientalismo invertido (Sadiq Al-Azm)

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Sadiq Al-Azm (1934-2016) foi o maior teórico marxista sírio. Essa obra é fundamental para a crítica ao conceito culturalista de orientalismo, que tem sido uma barreira para a compreensão da história e da sociedade dos países orientais. Para conhecer melhor o pensamento dele, recomendo essa entrevista aqui. Eu traduzi a partir do texto em inglês aqui


Orientalismo e orientalismo invertido