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Pequena História da Pintura Abstrata (5) - América Latina, pós-guerra

Lidy Prati, Concreto , 1945 América Latina Na parte anterior da série, eu tinha prometido falar sobre a expansão do abstracionismo na América Latina, e imaginava que depois disso eu ia falar sobre o início processo de decomposição do gênero. Na verdade, como a pintura abstrata na América hispânica é relativamente tardia (e no Brasil mais ainda), os dois processos são, em grande parte, inseparáveis. Então, vou falar sobre América Latina e, ao mesmo tempo, falar do contexto histórico da virada para a Segunda Guerra Mundial. A minha maior referência sobre a pintura abstrata no nosso continente eu encontrei aqui . Numa região principalmente rural, ainda com poucas grandes cidades, a arte moderna chegou, no começo nos países mais industrializados (Argentina, Uruguai, Brasil e Venezuela), com um atraso considerável em relação às metrópoles europeias. Um exemplo marcante é a Semana da Arte Moderna aqui no Brasil, em 1922 – ano do auge da literatura modernista ( Ulisses , do ...

Pequena História da Pintura Abstrata (4) - diáspora

Na parte anterior dessa série, a gente parou nas vanguardas russas, e no processo de autodissolução delas, debaixo das suas contradições, mas também no contexto da contrarrevolução stalinista. Enquanto o stalinismo chegava ao poder na URSS, a ameaça do fascismo era cada vez mais forte na Europa Ocidental. O nazismo condenava em bloco todo o século XX, da física quântica e a teoria da relatividade, à psicanálise, à música atonal e à "arte degenerada", nome que foi usado na exposição de 1937, onde foram expostas obras de pintores como Picasso, Van Gogh e Matisse. A insistência nazista nos modelos da arte renascentista só pode ser entendida dialeticamente. Se a revolução da perspectiva e do claro-escuro foi o resultado do desenvolvimento técnico e do impulso da burguesia ascendente para se apoderar do mundo inteiro, no período de decadência imperialista os mesmos recursos significavam uma fuga, um regresso pra formas de arte superadas. O tipo de falsa objetividade era ...

Isaac Rubin sobre o trabalho qualificado

Essa tradução é de um capítulo da obra de Isaac Rubin, A Teoria do Valor de Marx (1924), eu traduzi da versão em inglês que está no MIA . É um debate fundamental, porque, como ele explica no livro, a existência do trabalho qualificado é usada pelos economistas não-marxistas como argumento contra a teoria do valor-trabalho. O Isaac Rubin (1886-1937) foi um economista judeu e militante, primeiro do Bund, depois menchevique, morto durante os expurgos stalinistas. A sua contribuição sobre a teoria do valor é uma das mais importantes no marxismo. Trabalho Qualificado No processo de troca, os produtos de diferentes formas de trabalho concreto são equalizados e, assim, o trabalho também é equalizado. Se outras condições permanecem inalteradas, as diferenças nas formas de trabalho concreto não desempenham qualquer papel na economia mercantil, e o produto de uma hora de trabalho do sapateiro é equalizado com o produto de uma hora de trabalho do alfaiate. No entanto, as diferentes formas ...

Andrea Dworkin sobre o linchamento de negros no Sul dos EUA

Num momento em que estão em evidência as denúncias de mulheres sobre estupros e abuso sexual, e em que grupos racistas lincham negros, algumas vezes com acusações verdadeiras ou falsas de estupros, nada como traduzir esta análise da Andrea Dworkin sobre o linchamento de negros no Sul dos EUA, feita a partir do feminismo radical, mostrando a ligação entre racismo e masculinidade. O trecho é do livraço Right-Wing Women , páginas 123-125. Nos Estados Unidos, o homem negro foi caracterizado como estuprador depois do fim da escravidão. Durante a escravidão, a sua condição como propriedade parecia emasculá-lo inteiramente. A sua degradação era como a de um homem simbolicamente castrado, uma mula, um burro de carga (seu uso como reprodutor para engravidar mulheres escravizadas com o fim de aumentar a riqueza do senhor de engenho branco não contradiz isso) Vis-à-vis o homem branco, ele era emasculado; e vis-à-vis a mulher branca ele era emasculado.* No começo da Reconstrução, em maio de ...

"Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio", do Fredric Jameson (1)

  Eu não gostei desse livro. Já vou avisando isso pra ninguém perder tempo lendo. E pra não ter que ouvir críticas acadêmicas todo tipo "você não entendeu". Outra coisa, isso não é exatamente uma resenha, porque tem partes do livro que eu simplesmente não entendi nada, principalmente quando ele fala de arquitetura, novo romance, espacialidade e cinema. Mas, mesmo assim... Eu vou escrever três ou quatro partes dessa série, e a primeira é sobre o fundamento material do pós-modernismo na dinâmica do capitalismo. O que distingue o Jameson de todos os marxistas que estudaram o pós-modernismo é que ele não acha que se trate simplesmente de uma ideologia. Isso é uma posição muito interessante porque, sem pensar, eu sempre achei isso: que o pós-modernismo fosse a ideologia burguesa irracionalista na sua fase de decomposição final (bem lukacsiano, isso). O Jameson parte das "condições de produção" do pós-modernismo. Para ele, o pós-modernismo é be...

Pequena História da Pintura Abstrata (3) - a experiência das vanguardas (segunda parte)

Hilma af Klint Antes de prosseguir com a experiência das vanguardas, eu vou falar de uma coisa que eu só descobri depois de escrever a parte anterior dessa série. A primeira pessoa que pintou quadros abstratos foi uma mulher, a sueca Hilma af Klint (1862-1944). Mais uma vez, o apagamento das mulheres na história, que eu já mencionei no caso da Sonia Delaunay e da Sophie Tauber-Arp, fez com que a primeira exposição dela fosse somente em 1984 (ela mesma exigiu que as obras dela não fossem exibidas antes de vinte anos depois da sua morte, mas mesmo assim passaram mais vinte anos desse prazo já muito longo). As primeiras pinturas abstratas da Hilma af Klint são de 1906, portanto quatro anos antes das Composições do Kandinsky. É interessante que ela fosse parte de um grupo de pintores espiritualistas, Os Cinco, e que fosse bem próxima da Teosofia, um elemento em comum com o Kandinsky e o Mondrian. Caos nº 2, 1906 Hilma até mesmo falava que pintava sob orientação dos espírito...

Mentiras dos socialistas sobre o feminismo radical

Meus agradecimentos à Mari e à Gaia, que leram e conversaram comigo sobre essa postagem enquanto eu escrevia. A Mari já escreveu uma postagem sobre o que acontece na prática com as mulheres em organizações de esquerda, mas ainda não publicou. Essa figura é uma obra-prima. Conseguiram resumir em um meme toda a política anarquista e marxista sobre a questão da mulher. Se ninguém recua, pra onde ela tá avançando?  Sem querer me estender muito, porque eu poderia ficar mostrando citações do tipo por umas 20 páginas, eu queria somente colocar aqui um  trecho desse documento  das Mulheres Radicais, o organização irmã do FSP (Partido da Liberdade Socialista), dos EUA. Ela é ainda mais importante porque o FSP provavelmente, de todas as organizações marxistas, é a que se comprometeu mais seriamente com o feminismo (se definem como feministas socialistas), e deve ser a única em que a maioria da direção é formada por mulheres. Mesmo assim, elas conseguiram resumir nu...