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Uma história sem povo: Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda etc

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Tem uns livros que foram importantes durante o século XX para o debate sobre o que é ser brasileiro e qual é a especificidade do Brasil em relação aos outros países da América Latina. 
O Augusto Buonicore escreveu uma série sobre isso, mas eu não acho que todos os autores que ele escolheu são representativos da mesma forma. Me arrisco a dizer que os mais marcantes são o Gilberto Freyre, o Sérgio Buarque de Holanda e o Raymundo Faoro. Eu li Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque, recentemente, e isso me fez pensar em algumas características que já aparecem lá em 1936, e que também aparecerem no marxismo hegemônico no Brasil. 
Esse trio de autores não marxistas se tornou hegemônico na autocompreensão do Brasil, apesar de que eles não são complementares e não cobrem terrenos de igual importância. Os dois primeiros tentam entender a cultura e o Faoro, o poder político. Além disso, os que escrevem sobre a cultura têm pontos de vista diferentes. O Freyre fala das relações raciais em torno do …

Sobre a questão da transição para o socialismo - série completa

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Sobre a questão da transição para o socialismo (8) - a crítica do valor e a comunização

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Finalmente, vou terminar essa série, falando sobre duas tentativas, a partir das décadas de 1970 e 1980, de recolocar a luta pelo socialismo dentro de uma crítica radical da tradição marxista. Depois, vou falar algumas coisas, como conclusão.
A primeira é a comunização. No período pós-1968, alguns teóricos dentro da esquerda comunista tentaram compreender porque não aconteceu uma nova onda da revolução internacional (semelhante à onda de 1917-1921), como os bordiguistas e situacionistas (entre outros) tinham previsto.
Essa reflexão levou a soluções muito diferentes, desde a maioria dos bordiguistas, que simplesmente constataram o fato, mas não mudaram as suas fórmulas estratégicas e continuam a esperar a nova onda, até a rejeição da luta de classes como motor revolucionário, por exemplo na obra do Jacques Camatte. 
Os teóricos da comunização, a partir do meio da década de 1970 (o livro Um mundo sem dinheiro é de 1975), deram uma resposta que não negava o potencial revolucionário do p…

Algumas palavras sobre "Da Natureza Humana", do E. O. Wilson, e a psicologia evolutiva

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Esse livro é de 1979, eu tinha lido um pedaço muito tempo atrás, e fui reler. Pra quê? Pra ter uma visão de conjunto da sociobiologia e entender um pouco a psicologia evolutiva, que é uma análise da psicologia baseada em premissas parecidas com as que a sociobiologia usa pra analisar sociedades.

No pensamento marxista, o pressuposto é de que existe determinismo social no comportamento humano. É possível fazer várias citações ("o homem é o conjunto das relações sociais" etc), mas o que importa é que esse pressuposto é usado pra garantir a possibilidade de, mudando as relações sociais, os seres humanos agirem de forma solidária e pacífica, o que é uma tentativa de resposta à visão hobbesiana de "homem lobo do homem" que tem sido historicamente usada pelo pensamento burguês para dizer que a emancipação humana é uma utopia.

Por causa disso, os poucos autores marxistas que tentaram se engajar com a sociobiologia ou a psicologia evolutiva, tipicamente, vão dizer que se …

Financiamento coletivo do livro Cyberpunk!

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Um dos contos, Cyberfunk, eu escrevi junto com o Carlos Contente.
O link do financiamento é esse aqui

Sobre a questão da transição para o socialismo (7) Oskar Lange e o cálculo econômico numa economia planificada

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Essa é uma tradução (acho que a primeira em português) do terceiro capítulo do artigo Sobre a Teoria Econômica do Socialismo, de 1936, que é a resposta do Oskar Lange à tese do Ludwig von Mises sobre a impossibilidade do cálculo econômico no socialismo. Em Capitalismo, Socialismo e Democracia, o Joseph Schumpeter concorda com a análise do Lange. O ponto de vista do Lange foi geralmente considerado direitista no movimento comunista, e a forma de planificação nos países do campo da URSS foi, em quase todos os casos, a planificação burocrática que o Lange criticou no pós Segunda Guerra, quando trabalhou na Escola de Planejamento e Estatística da Polônia.



O procedimento de tentativa e erro numa economia socialista
A fim de discutir o método de alocação de recursos numa economia socialista, temos que declarar que tipo de sociedade socialista temos em mente. O fato da propriedade pública dos meios de produção, por si só, não define o sistema de distribuição dos bens de consumo e de alocação …

O estudo da arte como cultura humanista (Meyer Schapiro)

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O conceito do estudo da arte como "cultura humanista" é uma sobrevivência da educação clássica, e corresponde à substituição gradual da gramática das línguas clássicas pelo ensino da "civilização" e das artes clássicas. Assim como aquela se tornou uma disciplina estéril tão logo os valores do classicismo contemporâneo morreram em meados do século XIX, o estudo da civilização e das artes clássicas deixou de ter o seu antigo significado humanista quando esse classicismo morreu. A universalização do conceito de arte, de modo a incluir as artes não-clássicas, destruiu o valor original, normativo e ideal, do clássico; e isso ficou evidente na natureza reacionária dos movimentos que tentaram restaurar o classicismo no século XX como valor tanto moral como cultural. Assim, o conceito de "cultura humanista" é infectado por uma parcialidade suspeita em relação ao clássico e ao tradicional; o próprio fato de que a cultura humanista se opõe à científica, apesar do …