Postagens

Comentários sobre alguns temas da direita brasileira

Imagem
Essa semana eu li a monografia A História fetichista: o aparelho de hegemonia filosófico Instituto Brasileiro de Filosofia/Convivium (1964-1985). Fiquei pensando numa coisa que de vez em quando me passa pela cabeça, um tipo de história alternativa: vamos dizer que o olavismo fosse mesmo uma direita conservadora, e não um tapa-buraco ideológico/ folha de parreira do populismo de direita. O que eles iam fazer? 
Se eles acreditassem mesmo em recriar a alta cultura no Brasil, uma das primeiras tarefas seria disputar a historiografia. Pelo caráter polêmico e decisivo, cinco momentos da história do Brasil teriam que ser reavaliados e colocados numa nova narrativa:
- a colonização, que teria que ser transformada, de extração das matérias-primas pra vender no mercado mundial, em alguma coisa como uma obra civilizatória cristã. Talvez o Gilberto Freyre pudesse der invocado pra essa leitura mais positiva da colonização.
- o Império, em que a persistência da escravidão e o processo de transformismo…

Live "Distopias e Utopias" no canal Linhas de Fuga

Imagem
Curtam o canal Linhas de Fuga, do Diego Felipe e do Vladimir Santafé. 

Caravana para Kumbi-Saleh

Imagem
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Amado sobrinho Faraji, agora que alcancei as montanhas do Atlas - meus olhos cansados e um pouco amedrontados, como verás, contemplam o Djebel Aissa -  tive tempo para enviar um mensageiro até a nossa amada cidade de Kilwa. Estive perto de voltar a Deus, e com o que eu vi poucos ulemás travaram contato. Conto-vos essa experiência sabendo da vossa confiança na veracidade das minhas palavras - Deus, porém, é O Verdadeiro.

Havia três anos que residia no Cairo, no meio das intrigas do Imamato Fatímida. Estava estabelecido no Souk, trabalhando como ourives, e sendo tratado com menos desconfiança do que no porto de Áden, onde todo negro que é visto é considerado um descendente dos zanj revoltosos de Basra. Deus perscruta meu coração e sabe que não nutro sentimentos de vingança, porém não aceito a injustiça dos árabes - para Deus, não existem nem negros nem brancos, como disse o Profeta (que a paz esteja sobre ele).

A cidade do Cairo está prenhe de…

Os Nômades das Estrelas (Júlio Azevedo e Rodrigo Silva do Ó)

Imagem
Ninguém entendia porque o Povo da Estrela tinha se tornado tão taciturno em poucos meses.
Os mercadores mais antigos lembraram que eles apareceram da mesma forma inesperada, quando uma guerra entre duas tribos por causa da rota para a Estrada da Seda agitava o deserto.
Uma caravana de homens com roupas rústicas, quase selvagens, que dormiam em tendas de folhas de palmeiras, todos com um ponto dourado na testa e desenhos de estrelas nos seus apetrechos. Entre eles, sacerdotes com cetros de metal encimados por uma pedra de quartzo negro fumado, que aparentavam abrigar nuvens indistintas. Eram homens com escarificações em forma de constelações nos ombros e no rosto, e vestidos de um manto escuro. Era como se eles tivessem aparecido junto com a estrela que começou a brilhar de um dia para o outro numa noite de verão no deserto, tão brilhante que foi inscrita pelos astrônomos chineses em suas tabuinhas.
Os seus rituais eram estranhos. Uma vez por ano, no dia do surgimento da estrela na co…

O que defender e o que rejeitar da assim chamada civilização ocidental?

Imagem
Eu tô há um tempo sem publicar no blog, por causa de vários problemas pessoais. Mas eu tô vivo. Vou aproveitar pra só falar uma coisa rapidinho. Um posicionamento que eu queria botar no papel e eu fiquei pensando numas conversas hoje.



O problema

É moda entre os cruzadinhos de merda da extrema direita defender a assim chamada civilização ocidental, ou uma coisa mais ficcional ainda, a tal da civilização judaico-cristã.

Bem, quando esses caras fazem isso, é pra defender as raízes cristãs da nossa cultura. Só que o que tem de diferente (e melhor) na civilização ocidental não é o cristianismo - a Europa ocidental na Idade Média não era qualitativamente diferente do mundo árabe-islâmico, da Índia ou da China - na verdade era mais atrasada, era a Belford Roxo do mundo. 
O que fez a Europa tomar a dianteira culturalmente foram o Renascimento, a revolução científica, a Reforma e o Iluminismo. Ou seja, justamente o que enfraqueceu o poder religioso e permitiu o surgimento de um espaço cultura…

Manfredo Tafuri sobre as vanguardas e o papel da arquitetura moderna

Imagem
O Manfredo Tafuri (1935-1994) foi um historiador da arquitetura italiano. No começo da carreira dele, era marxista (os trechos que eu traduzi são do livro mais importante dele, Projeto e Utopia, de 1973), mas depois virou pós-estruturalista. Estou traduzindo porque tem um ponto de vista relativamente raro dentro do marxismo, de rejeição em bloco do modernismo, como o Jameson notou, se eu não me engano, em A Virada Cultural
Sobre a tradução: infelizmente, eu só encontrei a tradução em inglês, que é ruim e, às vezes, difícil de entender. Se alguém tiver o original em italiano e puder me mandar, eu reviso.



Em vez de escolher de fato entre a aspiração pela autonomia absoluta e o autoapagamento voluntário em uma missão "classista", a ideologia terminou, na maior parte dos casos e com uma consistência de comportamento surpreendente, oscilando precariamente na fronteira entre essas duas escolhas. 
A aspiração pela autonomia da realização intelectual foi uma continuação do projeto de…

Uma história sem povo: Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda etc

Imagem
Tem uns livros que foram importantes durante o século XX para o debate sobre o que é ser brasileiro e qual é a especificidade do Brasil em relação aos outros países da América Latina. 
O Augusto Buonicore escreveu uma série sobre isso, mas eu não acho que todos os autores que ele escolheu são representativos da mesma forma. Me arrisco a dizer que os mais marcantes são o Gilberto Freyre, o Sérgio Buarque de Holanda e o Raymundo Faoro. Eu li Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque, recentemente, e isso me fez pensar em algumas características que já aparecem lá em 1936, e que também aparecerem no marxismo hegemônico no Brasil. 
Esse trio de autores não marxistas se tornou hegemônico na autocompreensão do Brasil, apesar de que eles não são complementares e não cobrem terrenos de igual importância. Os dois primeiros tentam entender a cultura e o Faoro, o poder político. Além disso, os que escrevem sobre a cultura têm pontos de vista diferentes. O Freyre fala das relações raciais em torno do …