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Mostrando postagens com o rótulo iluminismo

"A Flauta Mágica" do Mozart e o sujeito do iluminismo

Esses dias eu assisti um vídeo da Flauta Mágica , e não tive como não pensar na tese do Robert Kurz e da Roswitha Scholz sobre o caráter androcêntrico e eurocêntrico do sujeito do iluminismo. Eu não concordo com eles, não, já escrevi aqui contra essa visão do iluminismo como um bloco, e sobre como existiram correntes iluministas radicais na teoria e na prática que fizeram essas mesmas críticas sobre o iluminismo moderado ... mas o Mozart era um iluminista moderado (o que não quer dizer que a música não seja maravilhosa). Eu nunca tinha assistido essa ópera mas, um dia desses, eu vi alguém dizer que é uma "ópera maçônica". Eu pensei que era um exagero comum de quem escreveu isso, mas não.  Os dois personagens principais, o Príncipe Tamino e o caçador de passarinhos Papageno são convocados pela Rainha da Noite pra salvar a filha dela, Pamina, que foi sequestrada pelo Sarastro (será uma referência ao Zaratustra?), um sábio. Quando eles chegam no reino do Sarastro, eles descobre...

"Radical Enlightenment", do Jonathan Israel

  Eu tinha conseguido um PDF desse livro (tem uma edição antiga em português, mas eu nunca vi), mas só agora eu parei pra ler. É um livro que o Kenan Malik recomenda muito , e que tem a ver com as minhas leituras sobre a questão do iluminismo . Não é fácil de ler. São mais de setecentas páginas, numa linguagem que eu achei rebuscada até pra esse tipo de obra acadêmica, com citações em inglês e francês do século XVII e trechos bem longos sobre dezenas de figuras históricas que hoje são quase desconhecidas. Tinha hora que dava vontade de desistir, mas valeu a pena.  O Jonathan Israel é um historiador dos Países Baixos no século de ouro, e tem três teses principais: primeiro, que o florescimento do iluminismo a partir do meio do século XVIII foi o resultado de um processo longo, que começou aproximadamente em 1650, com o surgimento da "Nova Filosofia" cartesiana. Depois, que esse foi um processo internacional (rejeitando as concepções de centralidade francesa, britânica, e a de ...

O que defender e o que rejeitar da assim chamada civilização ocidental?

Eu tô há um tempo sem publicar no blog, por causa de vários problemas pessoais. Mas eu tô vivo. Vou aproveitar pra só falar uma coisa rapidinho. Um posicionamento que eu queria botar no papel e eu fiquei pensando numas conversas hoje. Homem Vitruviano, Leonardo da Vinci, 1490 O problema É moda entre os cruzadinhos de merda da extrema direita defender a assim chamada civilização ocidental, ou uma coisa mais ficcional ainda, a tal da civilização judaico-cristã . Bem, quando esses caras fazem isso, é pra defender as raízes cristãs da nossa cultura. Só que o que tem de diferente (e melhor ) na civilização ocidental não é o cristianismo - a Europa ocidental na Idade Média não era qualitativamente diferente do mundo árabe-islâmico, da Índia ou da China - na verdade era mais atrasada, era a Belford Roxo do mundo.  O que fez a Europa tomar a dianteira culturalmente foram o Renascimento, a revolução científica, a Reforma e o Iluminismo. Ou seja, justamente o q...

Algumas palavras sobre "Da Natureza Humana", do E. O. Wilson, e a psicologia evolutiva

Esse livro é de 1979, eu tinha lido um pedaço muito tempo atrás, e fui reler. Pra quê? Pra ter uma visão de conjunto da sociobiologia e entender um pouco a psicologia evolutiva, que é uma análise da psicologia baseada em premissas parecidas com as que a sociobiologia usa pra analisar sociedades. No pensamento marxista, o pressuposto é de que existe determinismo social no comportamento humano. É possível fazer várias citações ("o homem é o conjunto das relações sociais" etc), mas o que importa é que esse pressuposto é usado pra garantir a possibilidade de, mudando as relações sociais, os seres humanos agirem de forma solidária e pacífica, o que é uma tentativa de resposta à visão hobbesiana de "homem lobo do homem" que tem sido historicamente usada pelo pensamento burguês para dizer que a emancipação humana é uma utopia. Por causa disso, os poucos autores marxistas que tentaram se engajar com a sociobiologia ou a psicologia evolutiva, tipicamente, vão d...

Nem toda política é identitária (Kenan Malik)

Traduzido a partir daqui "Toda política é identitária". E "sem políticas identitárias, não pode haver defesa dos direitos das mulheres ou dos direitos dos grupos minoritários". Essa são as duas defesas contemporâneas mais comuns das políticas identitárias. À medida que as críticas às políticas identitárias se tornaram desenvolvidas e ferozes, a defesa também ficaram. Então, eu quero começar uma crítica da crítica, por assim dizer, e assim reafirmar a necessidade de desafiar as políticas identitárias. As identidades são, obviamente, de grande importância. Dão a cada um de nós um senso de nós mesmos, de nosso enraizamento no mundo e de nossos relacionamentos com os outros. Ao mesmo tempo, a política é um meio, ou deveria ser um meio, para nós levar além do senso estreito de identidade dado a cada um de nós pelas circunstâncias específicas de nossas vidas e pelas particularidades das experiências pessoais. Como adolescente, fui atraído pela política por cau...

Orientalismo e orientalismo invertido (Sadiq Al-Azm)

Sadiq Al-Azm (1934-2016) foi o maior teórico marxista sírio. Essa obra é fundamental para a crítica ao conceito culturalista de orientalismo, que tem sido uma barreira para a compreensão da história e da sociedade dos países orientais. Para conhecer melhor o pensamento dele, recomendo essa entrevista aqui . Eu traduzi a partir do texto em inglês aqui   Orientalismo e orientalismo invertido Parte 1: Orientalismo No seu livro vivamente debatido 1 , Edward Said nos introduz ao tema do “orientalismo”, através de uma ampla perspectiva histórica que situa o interesse da Europa pelo Oriente no contexto da expansão histórica geral da Europa burguesa moderna para além dos seus limites tradicionais, e às expensas do resto do mundo, na forma de subjugação, pilhagem e exploração. Nesse sentido, o orientalismo pode ser visto como um fenômeno crescente complexo, derivado da tendência histórica geral da expansão e evolução da Europa moderna: uma série de instituições que se expand...