Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo estética

Susanne Langer e a estética da dança

  Um dos objetivos desse blog no começo era mostrar uma abordagem marxista sobre a estética das artes, que não ficasse presa a algumas limitações do Lukács. Por exemplo, é o que eu tentei fazer na série sobre a pintura abstrata . Eu logo encontrei uma dificuldade, que é a orientação da estética marxista, que é principalmente para a literatura, mas pelo menos tem alguma produção boa sobre artes plásticas. No caso da arquitetura, já foi bem mais difícil descobrir o Manfredo Tafuri , e no da música, o que tem de mais conhecido é a polêmica do Adorno em defesa da música de vanguarda. Eu não entendo nada de música, então nem tentei escrever nada (por outro lado, o capítulo bom que fala sobre música do Tomo IV da Estética do Lukács eu encontrei online aqui  - os quatro tomos em espanhol dá pra encontrar aqui ). Por outro lado, no caso do teatro, até pouco tempo atrás o Gustavo Moreira Alves estava escrevendo no blog dele, o Pensamento em Cena, que infelizmente ele tirou do ar. ...

Arte - nos Estados Unidos e na Rússia (Mário Pedrosa)

Naum Gabo, Coluna, 1923 Costuma-se, em certos círculos, acusar os artistas, ditos abstracionistas ou concretos, de fugirem à realidade cotidiana, de escapismo. Estes artistas seriam, assim, adeptos da velha teoria da "arte pela arte", ou do refúgio da "torre de marfim". Ao contrário disso, eles se colocam com os dois pés fincados na realidade do presente. Para eles, a realidade não é "adjetivada" de "socialista", "brasileira" ou "nacional". A realidade, simplesmente, é. O objetivo com que sonham é precisamente tirar daquelas possibilidades de presente, isto é, de nossa época "neotécnica"segundo a terminologia de Patrick Geddes e de Mumford, uma arte que seja a cristalização do estado de cultura e civilização a que o homem potencialmente atingiu. São todos sujeitos de um robusto otimismo. Por um paradoxo que dá muito a refletir, dentre os jovens artistas modernos, quase que os únicos a denotar pessimismo (nas...

John Berger sobre o nu na arte europeia

John Berger (1926-2017) foi um crítico de arte marxista inglês. Essa tradução é do terceiro capítulo do seu livro mais conhecido, Modos de Ver , e é uma síntese entre o marxismo e a teoria feminista, aplicada na análise da arte. Eu traduzi a partir da versão em castelhano . Infelizmente, não consegui encontrar todas as imagens do original, mas tentei selecionar as imagens de forma a manter os exemplos do que ele argumenta. Bacante recostada. Trutat, 1824-1848 De acordo com os costumes e convenções, que finalmente estão sendo questionados, mas que não estão em nada superados, a presença social de uma mulher é de um gênero diferente da do homem. A presença de um homem depende da promessa de poder que ele encarna. Se a promessa for grande e crível, a sua presença será chamativa. Se for pequena ou sem credibilidade, o homem verá que a sua presença é insignificante. O poder prometido pode ser moral, físico, temperamental, econômico, social, sexual... mas o seu objeto é sempre exte...
José de Almada Negreiros, Heterónimos de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, 1957-61, desenhos, pormenor da fachada gravada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Sendo mortal e, por conseguinte, imperfeito, o homem sempre se verá como parte de uma realidade infinita que o circunda e sempre se achará em luta contra ela. Volta e meia se defrontará com a contradição constituída pelo fato de ser ele um "eu" limitado e, ao mesmo tempo, fazer parte de um todo ilimitado. Em face dessa contradição, os místicos recorrem a outro estado, no qual o homem se acharia "acima de si mesmo" e se integraria a uma misteriosa totalidade chamada Deus. Não sendo místicos não ansiamos por tal estado paradoxal, no qual o homem, pela máxima concentração sobre si mesmo, acaba saindo de si, deixando de ser inteiramente ele próprio, apagando-se para tentar obter a comunhão com uma infinidade situada fora da vida. Nossa meta não é a inconsciênc...

Galvano Della Volpe e o dellavolpismo

Eu tô lendo a coletânea Sociologia , do Della Volpe, e vou falar de umas impressões que eu tive. Eu vou falar mais sobre estética, mas a estética materialista que ele tentou formular sistematicamente é parte de uma interpretação global do marxismo, que tem paralelos interessantes com o althusserianismo. E qual é essa interpretação? Ele tenta formular uma leitura rigorosamente materialista do marxismo, projeto que envolve uma crítica à influência do Hegel, que é anterior à feita pelo Althusser. Para o Della Volpe, a “linha evolutiva” não é Hegel-Feuerbach-Marx, como no “materialismo dialético” “oficial” dos partidos comunistas ou, como o Althusser defenderia depois, Demócrito-Spinoza-Marx, e sim Aristóteles-Galileu-Marx. A crítica ao idealismo não passa pela ideia de “inversão” da dialética, conservando o seu método mas sobre bases materialistas, e sim por uma crítica à “tautologia real”, que cria conceitos que são hipóstases de objetos reais, crítica que ele viu pela primeira...

Giulio Carlo Argan sobre o fim da arte

Rudolf Schwarzkogler, Ação (1965) Num sistema cuja estrutura é o mecanismo da produção e do consumo e cujo modelo é a ciência, o sistema técnico das artes, já não tendo conexões com os outros componentes do sistema global, não pode senão decair a um nível de inatualidade. As artes consistiam nos processos pelos quais se realizava e se comunicava a experiência estética do real. A experiência estética é a que se realiza através dos três estágios da imaginação: memória, percepção, projeto (isto é, passado, presente e futuro), e que se concretiza e se exprime numa operação técnica, que produz objetos privilegiados também em termos econômicos, as obras de arte. Objetos que, naturalmente, contribuem para constituir a qualidade do ambiente material da vida: na verdade, o sistema técnico das artes condicionava a experiência estética à posse direta ou indireta, material ou intelectual, desses objetos, cujo significado assim se graduava segundo vários níveis de sensibilidade, educação e, po...