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Mostrando postagens com o rótulo feminismo

Leia o Stone Butch Blues, da Leslie Feinberg!

Terminei ontem. É lindo.  A Leslie Feinberg tinha umas posições políticas complicadas*, e isso ajudou até a enriquecer o livro, porque isso aqui é um exemplo de realismo socialista, o melhor que eu já vi, junto com Capitães de Areia. É o primeiro livro dela, mas ela raramente força a mão e não cai na tentação de dar um final feliz.  Descrição linda dos bares dos anos 60, com a cultura de butch e femme (que aqui no Brasil foi bem mais rara), o trabalho como operária e o sindicalismo, depois a crise de 73 que tem consequências pessoais pesadas. Conta a história da transição de gênero de uma forma muito honesta, inclusive a destransição, que hoje eu tenho certeza que não seria mais aceita pra publicação. A parte antes da Jess ir pra Nova Iorque é poesia pura, uma das melhores descrições da solidão que eu vi na literatura. Uma obra prima mesmo, que dá pra comparar com o Jean Genet, pra pegar outro escritor que escreveu sobre a experiência de ser homossexual. Ela se definia como lé...

"A Flauta Mágica" do Mozart e o sujeito do iluminismo

Esses dias eu assisti um vídeo da Flauta Mágica , e não tive como não pensar na tese do Robert Kurz e da Roswitha Scholz sobre o caráter androcêntrico e eurocêntrico do sujeito do iluminismo. Eu não concordo com eles, não, já escrevi aqui contra essa visão do iluminismo como um bloco, e sobre como existiram correntes iluministas radicais na teoria e na prática que fizeram essas mesmas críticas sobre o iluminismo moderado ... mas o Mozart era um iluminista moderado (o que não quer dizer que a música não seja maravilhosa). Eu nunca tinha assistido essa ópera mas, um dia desses, eu vi alguém dizer que é uma "ópera maçônica". Eu pensei que era um exagero comum de quem escreveu isso, mas não.  Os dois personagens principais, o Príncipe Tamino e o caçador de passarinhos Papageno são convocados pela Rainha da Noite pra salvar a filha dela, Pamina, que foi sequestrada pelo Sarastro (será uma referência ao Zaratustra?), um sábio. Quando eles chegam no reino do Sarastro, eles descobre...

"Sexo e gênero: A relutância da classe médica em falar honestamente sobre a realidade biológica" (Alan Sokal e Richard Dawkins)

Por Alan Sokal e Richard Dawkins Atualizado a 8 de abril de 2024  A Associação Médica Americana diz que a palavra "sexo" - como em masculino ou feminino - é problemática e está desatualizada; devemos todos usar agora a frase "mais precisa" "sexo designado ao nascer" . A Associação Americana de Psicologia concorda : Termos como "sexo de nascimento" e "sexo natal" são "depreciativos" e enganosamente "implicam que o sexo é uma característica imutável". A Academia Americana de Pediatria também está a bordo: "o sexo", declara, é "uma designação que é feita ao nascer" . E agora o Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) pede-nos que digamos "sexo masculino/feminino designado ao nascer" ou "designado masculino/feminino ao nascer" em vez de "biologicamente masculino/feminino" ou "geneticamente masculino/feminino". Eles defendem esta revisão lexical, quer...

Nem toda política é identitária (Kenan Malik)

Traduzido a partir daqui "Toda política é identitária". E "sem políticas identitárias, não pode haver defesa dos direitos das mulheres ou dos direitos dos grupos minoritários". Essa são as duas defesas contemporâneas mais comuns das políticas identitárias. À medida que as críticas às políticas identitárias se tornaram desenvolvidas e ferozes, a defesa também ficaram. Então, eu quero começar uma crítica da crítica, por assim dizer, e assim reafirmar a necessidade de desafiar as políticas identitárias. As identidades são, obviamente, de grande importância. Dão a cada um de nós um senso de nós mesmos, de nosso enraizamento no mundo e de nossos relacionamentos com os outros. Ao mesmo tempo, a política é um meio, ou deveria ser um meio, para nós levar além do senso estreito de identidade dado a cada um de nós pelas circunstâncias específicas de nossas vidas e pelas particularidades das experiências pessoais. Como adolescente, fui atraído pela política por cau...

Primeiro a luta de classes? (Kátia Cajá)

Você realmente acha que, resolvendo a questão econômica, acaba o patriarcalismo, o racismo e a homofobia? Os homens de esquerda mentem. Dizem que sem focar nela, as opressões não são superadas. Mentira. O capitalismo tá aí firme e forte e já conquistamos nele mesmo direito a divórcio, participação política, em muitos países ao aborto e casar a com outra mulher, e a violência doméstica foi criminalizada. O que não mudou foi a exploração da burguesia sobre as mulheres trabalhadoras. Sendo eu mesma uma trabalhadora, sou anticapitalista. Mas o feminismo liberal tá aí avançando a passos largos. Os marxistas precisam incorporar os avanços que as feministas materialistas trouxeram urgentemente, ou as mulheres operárias e camponesas vão ficar eternamente abandonadas. Ou então, como eu estou agora, lutando irmanadas em organizações feministas, mas sem a potência que poderíamos ter se fossemos admitidas nas organizações mistas. Infelizmente as organizações marxistas incorporaram um discur...

John Berger sobre o nu na arte europeia

John Berger (1926-2017) foi um crítico de arte marxista inglês. Essa tradução é do terceiro capítulo do seu livro mais conhecido, Modos de Ver , e é uma síntese entre o marxismo e a teoria feminista, aplicada na análise da arte. Eu traduzi a partir da versão em castelhano . Infelizmente, não consegui encontrar todas as imagens do original, mas tentei selecionar as imagens de forma a manter os exemplos do que ele argumenta. Bacante recostada. Trutat, 1824-1848 De acordo com os costumes e convenções, que finalmente estão sendo questionados, mas que não estão em nada superados, a presença social de uma mulher é de um gênero diferente da do homem. A presença de um homem depende da promessa de poder que ele encarna. Se a promessa for grande e crível, a sua presença será chamativa. Se for pequena ou sem credibilidade, o homem verá que a sua presença é insignificante. O poder prometido pode ser moral, físico, temperamental, econômico, social, sexual... mas o seu objeto é sempre exte...

As madames racistas da Primeira Onda ou A Teoria do Anacronismo

Elizabeth Cady Stanton Madames racistas As mulheres da Segunda Internacional que supostamente criaram as bases para o feminismo socialista, na verdade, e pelas suas próprias palavras, eram antifeministas. Ou seja, negavam que existisse uma “questão da mulher” comum a todas as mulheres e, consequentemente, que houvesse necessidade de um movimento específico para resolver essa questão. Na Resolução sobre o Trabalho entre As Mulheres, do 3° Congresso da Internacional Comunista , que é a base para todas as correntes que reivindicam o leninismo, e que foi escrita pela Alexandra Kollontai e pela Clara Zetkin, está escrito claramente: O Terceiro Congresso da Internacional Comunista afirma a posição fundamental do marxismo revolucionário de que não existe nem "questão específica das mulheres" nem deve haver um "movimento específico das mulheres". A prática das mulheres da Segunda Internacional não era tentar empurrar as organizações de mulheres existentes na ...