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Arte - nos Estados Unidos e na Rússia (Mário Pedrosa)

Naum Gabo, Coluna, 1923 Costuma-se, em certos círculos, acusar os artistas, ditos abstracionistas ou concretos, de fugirem à realidade cotidiana, de escapismo. Estes artistas seriam, assim, adeptos da velha teoria da "arte pela arte", ou do refúgio da "torre de marfim". Ao contrário disso, eles se colocam com os dois pés fincados na realidade do presente. Para eles, a realidade não é "adjetivada" de "socialista", "brasileira" ou "nacional". A realidade, simplesmente, é. O objetivo com que sonham é precisamente tirar daquelas possibilidades de presente, isto é, de nossa época "neotécnica"segundo a terminologia de Patrick Geddes e de Mumford, uma arte que seja a cristalização do estado de cultura e civilização a que o homem potencialmente atingiu. São todos sujeitos de um robusto otimismo. Por um paradoxo que dá muito a refletir, dentre os jovens artistas modernos, quase que os únicos a denotar pessimismo (nas...

Nosso conto "Cyberfunk" vai ser publicado na coletânea "Cyberpunk" da Editora Draco!

Fiquei muito feliz com essa história! Esse conto que eu escrevi com o Carlos Contente foi o que começou o nosso projeto que vocês podem acompanhar no nosso blog e lendo o e-book . O anúncio dos contos selecionados tá aqui . Vai ser a minha primeira publicação em livro físico!

Dolor (Theodore Roethke)

Eu conheci a inexorável tristeza dos lápis, Perfeitos nas caixas, dolor de carimbeira e peso de papel, Toda a miséria das pastas de arquivo e goma arábica, Desolação em locais públicos imaculados, Sala de visitas solitária, lavabo, trocador, O pathos inalterável da bacia e do caneco, Ritual de etiquetadora, clipe, vírgula, Duplicação infinita de vidas e objetos. E vi o pó das paredes das instituições, Mais fino que farinha, vivo, mais perigoso que sílica, Filtrado, quase invisível, por longas tardes de tédio, Colando um fino filme nas unhas e sobrancelhas delicadas, Esmaltando o cabelo branco, as usuais faces cinzas duplicadas.

"Criminologia crítica e crítica do direito penal", do Alessandro Baratta

O Patrick e o Guilherme me recomendaram esse livro. Eu achei um barato (hahahahahahahah). Na internet, como sempre, tem gente passando vergonha de todas as formas, uma delas é defendendo versões absurdas de teorias críticas sobre o direito. Esse livro tirou as minhas dúvidas. Eu vou tentar explicar aqui como ele é. Eu li na versão em castelhano aqui . Definição O livro começa com uma tentativa de definir a relação entre a criminologia e a sociologia jurídica. Ele vai dizer que o que delimita a especificidade e a autonomia da sociologia jurídico-penal é o seu objeto, que são os comportamentos e efeitos do sistema jurídico-penal e as reações não-institucionais a ele, assim como as interrelações entre esses elementos. Além disso, mesmo com uma convergência cada vez maior de métodos, a sociologia jurídico-penal e a criminologia (especialmente a sociologia criminal) têm uma diferença de objeto, porque a primeira trata do sistema jurídico-penal e a segunda, do comportamento desvia...

Primeiro a luta de classes? (Kátia Cajá)

Você realmente acha que, resolvendo a questão econômica, acaba o patriarcalismo, o racismo e a homofobia? Os homens de esquerda mentem. Dizem que sem focar nela, as opressões não são superadas. Mentira. O capitalismo tá aí firme e forte e já conquistamos nele mesmo direito a divórcio, participação política, em muitos países ao aborto e casar a com outra mulher, e a violência doméstica foi criminalizada. O que não mudou foi a exploração da burguesia sobre as mulheres trabalhadoras. Sendo eu mesma uma trabalhadora, sou anticapitalista. Mas o feminismo liberal tá aí avançando a passos largos. Os marxistas precisam incorporar os avanços que as feministas materialistas trouxeram urgentemente, ou as mulheres operárias e camponesas vão ficar eternamente abandonadas. Ou então, como eu estou agora, lutando irmanadas em organizações feministas, mas sem a potência que poderíamos ter se fossemos admitidas nas organizações mistas. Infelizmente as organizações marxistas incorporaram um discur...

John Berger sobre o nu na arte europeia

John Berger (1926-2017) foi um crítico de arte marxista inglês. Essa tradução é do terceiro capítulo do seu livro mais conhecido, Modos de Ver , e é uma síntese entre o marxismo e a teoria feminista, aplicada na análise da arte. Eu traduzi a partir da versão em castelhano . Infelizmente, não consegui encontrar todas as imagens do original, mas tentei selecionar as imagens de forma a manter os exemplos do que ele argumenta. Bacante recostada. Trutat, 1824-1848 De acordo com os costumes e convenções, que finalmente estão sendo questionados, mas que não estão em nada superados, a presença social de uma mulher é de um gênero diferente da do homem. A presença de um homem depende da promessa de poder que ele encarna. Se a promessa for grande e crível, a sua presença será chamativa. Se for pequena ou sem credibilidade, o homem verá que a sua presença é insignificante. O poder prometido pode ser moral, físico, temperamental, econômico, social, sexual... mas o seu objeto é sempre exte...

Orientalismo e orientalismo invertido (Sadiq Al-Azm)

Sadiq Al-Azm (1934-2016) foi o maior teórico marxista sírio. Essa obra é fundamental para a crítica ao conceito culturalista de orientalismo, que tem sido uma barreira para a compreensão da história e da sociedade dos países orientais. Para conhecer melhor o pensamento dele, recomendo essa entrevista aqui . Eu traduzi a partir do texto em inglês aqui   Orientalismo e orientalismo invertido Parte 1: Orientalismo No seu livro vivamente debatido 1 , Edward Said nos introduz ao tema do “orientalismo”, através de uma ampla perspectiva histórica que situa o interesse da Europa pelo Oriente no contexto da expansão histórica geral da Europa burguesa moderna para além dos seus limites tradicionais, e às expensas do resto do mundo, na forma de subjugação, pilhagem e exploração. Nesse sentido, o orientalismo pode ser visto como um fenômeno crescente complexo, derivado da tendência histórica geral da expansão e evolução da Europa moderna: uma série de instituições que se expand...