Luta política e conflito militar (Antonio Gramsci)


Sobre o tema dos paralelos entre, por um lado, os conceitos de guerra de movimento e guerra de posição em ciência militar e, por outro, os conceitos correspondentes em ciência política, o pequeno livro de Rosa [Luxemburgo], traduzido (do francês) para o italiano em 1919 por C. Alessandri [Greve de Massas, Partido e Sindicatos], deve ser relembrado.

Neste livro, Rosa - um pouco apressadamente, e bastante superficialmente também - teorizou as experiências históricas de 1905. Ela, na verdade, desconsiderou os elementos "voluntários" e organizacionais, que eram muito mais extensos e importante nos eventos do que - graças a um certo preconceito "economicista" e espontaneísta - ela tendia a acreditar. Ao mesmo tempo, este pequeno livro (como outros ensaios da mesma autora) é um dos documentos mais significativos teorizando a guerra de movimento em relação à ciência política. O elemento econômico imediato (crises etc.) é visto como a artilharia de campo que, na guerra, abre uma brecha nas defesas inimigas - uma brecha suficiente para que as tropas penetrem e obtenham um vitória (estratégica) definitiva, ou, pelo menos, uma vitória importante no contexto da linha estratégica. Naturalmente, os efeitos dos fatores econômicos imediatos são considerados na ciência da história muito mais complexos do que os efeitos da artilharia pesada em uma guerra de movimento, uma vez que são concebidos como tendo um efeito duplo: 1. eles rompem as defesas do inimigo, depois de deixá-lo em desordem e lhe fazer perder a fé em si mesmo, em suas forças, e em seu futuro; 2. num piscar de olhos, eles organizam as tropas e criam o quadros necessários - ou, pelo menos, num piscar de olhos, eles colocam os quadros existentes (formados, até aquele momento, pelo processo histórico geral) em  uma posição que lhes permita enquadrar as forças dispersas; 3. num piscar de olhos, eles trazem a concentração ideológica necessária no objetivo comum a ser alcançado. Este ponto de vista era uma forma de determinismo econômico férreo, com o agravante de que foi concebido como se operasse com velocidade relâmpago no tempo e no espaço. Era, portanto, completo misticismo histórico, a espera por um tipo de iluminação milagrosa.

O general Krasnov afirmou (em seu romance [Da Águia Bicéfala à Bandeira Vermelha]) que a Entente não desejava a vitória da Rússia imperial (por medo de que a Questão Oriental fosse definitivamente resolvida em favor do czarismo) e, portanto, obrigaram o Estado Maior russo a adotar a guerra de trincheiras (absurdo, tendo em conta a enorme extensão do Front, do Báltico ao Mar Negro, com vastas zonas pantanosas e de floresta), ao passo que a única estratégia possível era uma guerra de movimento. Esta afirmação é apenas bobagem. Na realidade, o Exército russo tentou uma guerra de movimento e incursões rápidas, especialmente no setor austríaco (mas também na Prússia Oriental), e teve sucessos que foram tão brilhantes quanto efêmeros. A verdade é que não se pode escolher a forma de guerra que se quer, a não ser que desde o início haja uma superioridade esmagadora sobre o inimigo. É sabido que as perdas foram causadas pela recusa obstinada dos Estados Maiores em reconhecer que uma guerra de posições foi "imposta" pela correlação geral das forças em conflito. A guerra de posições não é, na realidade, constituída somente pelas trincheiras, mas por todo o sistema organizacional e industrial do território na retaguarda do exército em campo. Impõe-se, nomeadamente, pelo poder de fogo rápido dos canhões, metralhadoras e fuzis, pela força armada, que pode ser concentrada em um ponto particular, bem como pela abundância de fontes que tornam possível a substituição rápida do material perdido após um avanço inimigo ou uma retirada. Um outro fator é a grande massa de homens em armas; eles são de calibre muito desigual e, por isso mesmo, só são capazes de funcionar como uma força de massa. Pode-se ver como, na Frente Leste, uma coisa era fazer uma incursão no setor austríaco, e outra no setor alemão; e como até mesmo no setor austríaco, reforçado por tropas alemãs escolhidas e comandadas por alemães, as táticas de incursão terminaram em desastre. A mesma coisa ocorreu na campanha polonesa de 1920; o avanço aparentemente irresistível foi interrompido antes de Varsóvia pelo general Weygand, na linha comandada por oficiais franceses. Mesmo os peritos militares cujas mentes estão agora fixas na guerra de posição, assim como estiveram antes na de movimento, naturalmente não mantêm que esta última deva ser considerada expurgada da ciência militar. Limitam-se a sustentar que, em guerras entre os Estados mais avançados industrial e socialmente, a guerra de movimento deve ser considerada como reduzida mais a uma tática do que uma função estratégica; que deve ser considerada como ocupando a mesma posição que a guerra de cerco ocupava anteriormente em relação a ela.

A mesma redução deve ocorrer na arte e ciência da política, pelo menos no caso dos Estados mais avançados, onde a "sociedade civil" tornou-se uma estrutura muito complexa e resistente às "incursões" catastróficas do elemento econômico imediato (crises, depressões etc.). As superestruturas da sociedade civil são como os sistemas de trincheiras da guerra moderna. Na guerra pode, às vezes, acontecer que um ataque de artilharia feroz pareça ter destruído todo o sistema defensivo do inimigo, quando, na verdade, só destruiu o perímetro exterior; e, no momento do seu avanço e ataque, os agressores encontrem-se confrontados com uma linha de defesa ainda eficaz. A mesma coisa acontece na política, durante as grandes crises econômicas. A crise não pode dar às forças atacantes a capacidade de se organizarem com a velocidade da luz no tempo e no espaço; ainda menos pode dotá-las de espírito de luta. Da mesma forma, os defensores não estão desmoralizados, nem abandonam suas posições, mesmo entre as ruínas, nem perdem a fé em sua própria força ou no seu próprio futuro. Naturalmente, as coisas não permanecem exatamente como eram; é certo que não vamos encontrar o elemento de velocidade, de tempo acelerado, de marcha decisiva à frente esperado pelos estrategistas do cadornismo político.

A última ocorrência desse tipo na história da política foram os eventos de 1917. Eles marcaram um decisivo ponto de viragem na história da arte e ciência da política. Por isso, é uma questão de estudar "em profundidade", que elementos da sociedade civil correspondem aos sistemas defensivos em uma guerra de posição. O uso da expressão "em profundidade" é intencional, porque 1917 foi estudado - mas apenas quer a partir de pontos de vista superficiais e banais, como quando certos historiadores sociais estudam os caprichos da moda feminina, quer a partir de um ponto de vista "racionalista", em outras palavras, com a convicção de que certos fenômenos são destruídos assim que são explicados de forma "realista", como se fossem superstições populares (que, de qualquer maneira, não são destruídas apenas sendo explicadas).

A questão do escasso sucesso alcançado por novas tendências no movimento sindical deve ser relacionada com esta série de problems. Uma tentativa para iniciar uma revisão dos métodos táticos atuais foi, talvez, delineada por L. Dav. Br. [Trotski] na quarta reunião [Quarto Congresso da Internacional Comunista], quando ele fez uma comparação entre as frentes do Leste e do Oeste. O primeiro  caiu de uma só vez, mas lutas sem precedentes se seguiram depois; no caso do último, as lutas ocorreriam "antes". A questão, portanto, era saber se a sociedade civil resistiria antes ou depois da tentativa de tomar o poder; quando isso ocorre etc. No entanto, a questão foi posta apenas de forma literária, brilhante, sem diretivas de carácter prático. [1933-1934 primeira versão 1930-1932.]

Deve ser visto se a famosa teoria de Bronstein sobre o caráter permanente do movimento não é o reflexo político da teoria da guerra de movimento (recordar a observação do general cossaco Krasnov) - ou seja, em última análise, um reflexo das condições gerais econômico-cultural-sociais de um país em que as estruturas da vida nacional são embrionárias e frouxas, e incapazes de se tornarem "trincheiras ou fortalezas". Neste caso, pode-se dizer que Bronstein, aparentemente "ocidental", era, na verdade, cosmopolita - ou seja, superficialmente nacional e superficialmente ocidental ou europeu. Ilitch [Lenin], por outro lado, era profundamente nacional e profundamente europeu.

Bronstein, em suas memórias, recorda ter dito que a sua teoria sido comprovada. . . quinze anos depois, respondendo a um epigrama com outro epigrama. Na realidade, a sua teoria, como tal, não era boa nem quinze anos antes, nem quinze anos depois. Como acontece com o obstinado, de quem fala Guicciardini, ele adivinhou mais ou menos corretamente; ou seja, ele estava certo em sua previsão prática mais geral. É como se alguém profetizasse que uma menina de quatro anos de idade iria se tornar mãe e, quando vinte anos depois isso acontecesse, dissesse: "Eu sabia" - ignorando o fato de que, quando ela tinha quatro anos, tivesse tentado estuprar a menina, na crença de que ela se tornaria mãe assim. Parece-me que Ilitch entendeu que uma mudança seria necessária, da guerra de movimento aplicada vitoriosamente no Oriente em 1917, para uma guerra de posições, a única forma possível no Ocidente - onde, como observa Krasnov, os exércitos poderiam rapidamente acumular quantidades infinitas de munições, e onde as estruturas sociais eram por si sós capazes de se tornar fortificações fortemente armadas. Isto é o que a fórmula da "Frente Única" me parece querer dizer, e corresponde à concepção de uma frente única para a Entente sob o comando exclusivo de Foch.

Ilitch, no entanto, não teve tempo para expandir a sua formulação, porém deve-se ter em mente que ele só poderia tê-la ampliado teoricamente, ao passo que a tarefa fundamental era nacional; ou seja, era necessário um reconhecimento do terreno e identificação dos elementos de trincheira e fortaleza representados pelos elementos da sociedade civil etc. Na Rússia, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa; no Ocidente, havia uma relação adequada entre o Estado e a sociedade civil e, quando o Estado estremeceu, uma estrutura robusta da sociedade civil imediatamente se revelou. O Estado era apenas um fosso externo, atrás do qual havia um poderoso sistema de fortalezas e casamatas: mais ou menos numerosas de um Estado para o outro, não é preciso dizer - mas precisamente isso exigia um reconhecimento exato de cada país individual.

A teoria de Bronstein pode ser comparada com a de certos sindicalistas franceses sobre a Greve Geral, e com a teoria de Rosa [Luxemburgo] ,na obra traduzida por Alessandri. O livro e as teorias de Rosa, de qualquer maneira, influenciaram os sindicalistas franceses, como é claro em alguns artigos de Rosmer sobre a Alemanha, em Vie Ouvrière (primeira série, em forma de panfleto). Ela depende também, em parte, da teoria da espontaneidade. [1930-1932]

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A teoria marginalista do valor e a economia política neoclássica (Ernest Mandel)

"Problemas de Gênero", da Judith Butler

Apropriação cultural e racismo culturalista