Pequena História da Pintura Abstrata (3) - a experiência das vanguardas (segunda parte)


Hilma af Klint

Antes de prosseguir com a experiência das vanguardas, eu vou falar de uma coisa que eu só descobri depois de escrever a parte anterior dessa série.


A primeira pessoa que pintou quadros abstratos foi uma mulher, a sueca Hilma af Klint (1862-1944). Mais uma vez, o apagamento das mulheres na história, que eu já mencionei no caso da Sonia Delaunay e da Sophie Tauber-Arp, fez com que a primeira exposição dela fosse somente em 1984 (ela mesma exigiu que as obras dela não fossem exibidas antes de vinte anos depois da sua morte, mas mesmo assim passaram mais vinte anos desse prazo já muito longo).

As primeiras pinturas abstratas da Hilma af Klint são de 1906, portanto quatro anos antes das Composições do Kandinsky. É interessante que ela fosse parte de um grupo de pintores espiritualistas, Os Cinco, e que fosse bem próxima da Teosofia, um elemento em comum com o Kandinsky e o Mondrian.

Caos nº 2, 1906
Hilma até mesmo falava que pintava sob orientação dos espíritos, o que me faz lembrar algumas pinturas experimentais do pessoal da Golden Dawn, ligado ao Aleister Crowley. Aliás, o papel de mulheres como Annie Besant e Helena Blavatsky na Teosofia é uma coisa de que eu pretendo falar se eu conseguir continuar a minha série sobre Marxismo e Ocultismo.

Bem, essa pequena introdução foi pra colocar as coisas no seu devido lugar, mas essa parte da série vai mudar radicalmente de objeto, e falar dos precursores do abstracionismo nas correntes mais políticas e mais materialistas da pintura moderna, o futurismo, o construtivismo e o suprematismo.


Futurismo: "a guerra, única higiene do mundo"

Bem, as vanguardas, principalmente na pintura, começaram sem um posicionamento diretamente político. Porém, o clima da Belle Époque já estava mudando bem rápido nos anos que precederam a Primeira Guerra Mundial. Foi em 1907 que a Segunda Internacional votou a sua famosa resolução sobre a guerra, que virou letra morta com a traição da socialdemocracia.

O futurismo foi o primeiro movimento de vanguarda explicitamente político. Lá no seu primeiro manifesto, já existia a apologia indireta do imperialismo, disfarçada de apologia da máquina (as forças produtivas escondendo as relações de produção):

9. Nós glorificaremos a guerra — a única higiene militar, patriotismo, o gesto destrutivo daqueles que trazem a liberdade, ideias pelas quais vale a pena morrer, e o escarnecer da mulher.
10. Nós destruiremos os museus, bibliotecas, academias de todo tipo, lutaremos contra o moralismo, feminismo, toda cobardice oportunista ou utilitária.

Importante saber que a Itália começou neutra na guerra. O Partido Socialista Italiano (PSI) fazia agitação pacifista. Mas um cara que era da ala esquerda do partido começou a defender, junto com alguns anarcossindicalistas, o chamado "intervencionismo revolucionário". Ou seja, que a Itália fizesse uma "guerra revolucionária" contra a Alemanha e a Áustria-Hungria. O nome do cara era Benito Mussolini.

O fascismo ("feixismo", por causa do símbolo romano do feixe formado por várias varas que se torna muito mais forte do que cada uma em separado) no começo não era muito fácil de ser classificado como esquerda ou direita. O discurso de que a Itália era uma "nação proletária", a linha anticlerical e a demagogia revolucionária eram muito ambíguos e atraíram a maioria dos futuristas italianos. Em 1918, foi fundado o Partido Político Futurista, que logo depois foi absorvido pelo partido fascista.

Por outro lado, a mesma ambiguidade permitiu que uma ala revolucionária se desenvolvesse dentro do futurismo, e que fosse majoritária na Rússia, o outro país em que  movimento alcançou. Fundado também por escritores, à frente o Maiakóvski, sendo o seu primeiro manifesto Um Tapa na Cara do Gosto do Público, o futurismo russo se alinhou com a ala bolchevique dos socialistas russos.

Tecnicamente, o futurismo destroi a estrutura que herdou do cubismo através da intervenção do movimento nas obras. Por exemplo, esse quadro do Giacomo Balla, Dinamismo de um Cachorro Abanando o Rabo (1912):



(Juro que eu não vou falar aqui da música futurista, que talvez seja a grande criação do movimento, e que foi uma ponte pra música experimental)


Rússia: do futurismo ao construtivismo ao realismo socialista

Porém, o futurismo italiano se comprometeu com o fascismo, teve que ir ficando cada vez mais "comportado" e acadêmico, e por isso não conseguiu romper completamente com a figuração. Essa tarefa foi cumprida pelos seus irmãos socialistas da Rússia, sob a influência direta da revolução.



Por exemplo, se Nathalia Goncharova, em 1913, com Ciclista, está fazendo o mesmo tipo de experimentação de Balla, dois anos depois Kazimir Malevitch rompe com a figuração, criando uma nova vanguarda, o suprematismo. O estilo chega à sua consumação em 1918, com a famosa série Branco sobre Branco, que é até hoje uma das experiências mais radicais da pintura abstrata.



Depois da revolução, Malevitch e El Lissitzky vão começar a trabalhar para o governo soviético, usando as experiências de vanguarda na propaganda política. Nessa fase, existiu uma pressão por parte de vários grupos para se tornarem a "arte oficial" do regime soviético, o que foi rejeitado. O Kandinsky mesmo, que tinha sido chamado para trabalhar no Instituto de Cultura Artística de Moscou, acabou sendo acusado  de fazer arte formalista e espiritualista, renunciou e saiu da Rússia. Dessa fase é que são as obras do Lênin e do Trotsky defendendo a independência das artes em relação ao Estado.

Destrua os brancos com a cunha vermelha, El Lissitzky, 1919
Os mesmos caras que perseguiram o Kandinsky formaram o grupo construtivista, por volta de 1919. O construtivismo tentou incorporar as técnicas de vanguarda na produção em massa e na propaganda do regime soviético, tanto que não se destacaram tanto pela pintura, mas sim por pôsteres de propaganda, estilismo, monumentos públicos, fotografia, cinema etc. Os pioneiros do cinema soviético, Dziga Vertov e Serguei Eisenstein, fizeram parte da LEF (Frente de Esquerda das Artes), a revista dos construtivistas.

A grande ironia é que a concepção de arte a serviço da revolução que o construtivismo defendia foi uma ponte para o realismo socialista. Até é bem coerente: se a arte é utilitária, então a forma não pode ser tão inovadora que não seja diretamente compreendida pelo público. Foi esse raciocínio que levou à extinção do modernismo russo, uma parte da contrarrevolução stalinista.

Na próxima parte, depois de uma rápida passagem sobre o surrealismo abstrato, vamos começar a ver a expansão internacional e consolidação do abstracionismo, com o surgimento dos grupos especificamente abstracionistas.

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