Declaração do Coletivo Combahee River


Pela primeira vez em português (eu acho), um documento histórico do feminismo negro. Ele é uma das primeiras tentativas de integrar na mesma análise o marxismo, o feminismo e a luta antirracista. Como o texto é autoexplicativo, só vou mencionar três coisas: a) o nome do coletivo foi tirado da ação de Combahee River, uma ação militar da Guerra Civil Americana, a única planejada e dirigida por uma mulher, a abolicionista Harriet Tubman; b) como elas falam na Declaração, o foco do coletivo era o grupo de estudos, combinado com a participação nas lutas. Como isso não exigia uma organização muito formal, o coletivo acabou se dissolvendo em 1980, e as militantes foram para os movimentos em que já estavam ativas; c) eu continuo usando o meu método irritante de encontrar equivalentes para gírias, menos em herstory, que eu simplesmente aportuguesei para herstória, por não ter encontrado solução melhor; d) eu não vou falar aqui sobre a política ou a teoria da Declaração, mas podemos falar sobre isso nos comentários.

O original está aqui.


Declaração do Coletivo Combahee River 

Coletivo Combahee River


Nós somos um coletivo de feministas negras que têm se reunido desde 1974. [1] Durante esse tempo, estivemos envolvidas no processo de definir e clarificar a nossa política e, ao mesmo tempo, fazer trabalho político no nosso próprio grupo e em coalizão com outras organizações e movimentos progressistas. A declaração mais geral sobre a nossa política atual seria que estamos comprometidas ativamente na luta contra a opressão racial, sexual, heterossexual, e de classe, e que vemos como a nossa tarefa particular o desenvolvimento de uma análise e de uma prática integradas, baseadas no fato de que os grandes sistemas de opressão são interligados. A síntese dessas opressões cria as condições das nossas vidas. Como mulheres negras, vemos o feminismo negro como o movimento político lógico para combater as opressões multifacetadas e simultâneas que todas as mulheres não-brancas enfrentam.

Nós discutiremos quatro grandes temas no artigo que se segue: (1) a gênese do feminismo negro contemporâneo; (2) em que acreditamos, ou seja, o território específico da nossa política; (3) os problemas em organizar feministas negras, incluindo uma breve herstória do nosso coletivo; e (4) questões e prática feminista negra.


1. A gênese do Feminismo Negro Contemporâneo

Antes de olhar para o desenvolvimento recente do feminismo negro, gostaríamos de afirmar que encontramos as nossas origens na realidade histórica da contínua luta de vida e morte das mulheres afroamericanas por sobrevivência e libertação. A relação extremamente negativa das mulheres negras com o sistema político americano (um sistema de domínio branco masculino) sempre foi determinada pela nossa participação  em duas castas oprimidas, racial e sexual. Como Angela Davis nota em Reflexões sobre o papel da mulher negra na comunidade dos escravos, as mulheres negras sempre incorporaram, nem que fosse somente na sua manifestação física, um exemplo adverso ao domínio branco masculino, e resistiram ativamente às suas investidas sobre elas e sobre as suas comunidades, tanto de formas sutis quanto dramáticas. Sempre houve mulheres negras ativistas - algumas conhecidas, como Sojourner Truth, Harriet Tubman, Frances E. W. Harper, Ida B. Wells Barnett, e Mary Church Terrell, e milhares e milhares desconhecidas - que compartilharam uma consciência de como a sua identidade sexual se combinava com sua identidade racial, tornando toda a sua situação de vida e o foco de suas lutas políticas algo único. O feminismo negro contemporâneo é o resultado de incontáveis gerações de sacrifício pessoal, militância e trabalho de nossas mães e irmãs.

Uma presença feminista negra se formou mais obviamente em conexão com a segunda onda do movimento de mulheres americano, que começou no final da década de 1960. Mulheres negras, de outros países do Terceiro Mundo e trabalhadoras se envolveram no movimento feministas desde o começo, mas tanto as forças reacionárias exteriores como o racismo e o elitismo dentro do próprio movimento serviram para obscurecer a nossa participação. Em 1973, feministas negras localizadas principalmente em Nova Iorque sentiram a necessidade de formar um grupo feminista negro separado. Ele se tornou a National Black Feminist Organization (NBFO, Organização Nacional Feminista Negra).

A política feminista negra também teve uma conexão óbvia com os movimentos pela libertação negra, particularmente os dos anos 1960 e 1970. Muitas de nós fomos ativas nesses movimentos (pelos direitos civis, nacionalismo negro, Panteras Negras), e todas as nossas vidas foram grandemente afetadas e mudadas pelas suas ideologias, seus objetivos e pelas táticas usadas para atingir esses objetivos. Foi a nossa experiência e desilusão dentro desses movimentos de libertação, assim como a experiência na periferia da esquerda branca masculina, que nos levaram a desenvolver uma política que fosse antirracista, diferentemente daquela das mulheres brancas, e antissexista, diferentemente daquelas dos homens brancos e negros.

Também há, inegavelmente, uma gênese pessoal do feminismo negro, ou seja, a compreensão política que vem das experiências aparentemente pessoais das vidas individuais das mulheres negras. As feministas negras, e muitas mulheres negras que não se definem como feministas, têm experimentado a opressão sexual como um fator constante na sua existência cotidiana. Desde crianças, percebemos que éramos diferentes do meninos e que éramos tratadas diferente. Por exemplo, nos falaram, ao mesmo tempo, para ficarmos quietas, para sermos "mocinhas" e para sermos menos rejeitadas pelos brancos. Conforme crescemos, ficamos conscientes da ameaça de abuso físico e sexual cometido pelos homens. Mesmo assim, não tínhamos nenhuma forma de conceitualizar o que era tão aparente para nós, o que sabíamos que estava realmente acontecendo.

As feministas negras muitas vezes falam sobre se sentirem loucas antes de se conscientizarem sobre os conceitos de política sexual, domínio patriarcal e, mais importante ainda, feminismo, a análise e prática política que nós mulheres usamos para lutar contra a nossa opressão. O fato de que a política racial e, na verdade, o racismo, são fatores onipresentes nas nossas vidas não nos permitiu, e ainda não permite à maioria das mulheres negras, olhar mais profundamente para as nossas próprias experiências e, a partir daquela consciência compartilhada e crescente, construir uma política para mudar as nossas vidas e, inevitavelmente, acabar com a nossa opressão. O nosso desenvolvimento também deve ser ligado à posição econômica e política contemporânea do povo negro. A geração pós-Segunda Guerra das juventude negra foi a primeira capaz de, minimamente, aproveitar certas opções de educação e empregos, que anteriormente eram completamente negadas aos negros. Embora a nossa posição econômica ainda esteja no ponto mais baixo da economia capitalista americana, um punhado dos nossos foi capaz de ganhar certas ferramentas, como resultado do paternalismo na educação e nos empregos, ferramentas que potencialmente nos permitem lutar mais efetivamente contra a nossa opressão.

Uma posição que combinava o antirracismo e o antisseximo nos uniu no começo e, conforme nos desenvolvemos politicamente, abordamos o heterossexismo e a opressão econômica sob o capitalismo.


2. Em Que Acreditamos

Acima de tudo, a nossa política partiu da crença comum de que as mulheres negras têm valor inerente, que a nossa libertação é uma necessidade não como um adjunto da de outrem, mas sim por causa da nossa necessidade, como seres humanos, por autonomia. Isso pode parecer tão óbvio que soa até mesmo simplista, mas é aparente que nenhum outro movimento que se reivindicasse progressista nem mesmo chegou a considerar a nossa opressão específica como uma prioridade ou trabalhou seriamente para acabar com a nossa opressão. Simplesmente nomear os estereótipos pejorativos atribuídos às mulheres negras (ex. mãe preta, matrona, poderosa, piranha, sapatão), pra não falar em catalogar o tratamento cruel, muitas vezes, assassino, que recebemos, indica como as nossas vidas têm sido pouco valorizadas durante quatro séculos de servidão nos hemisfério ocidental. Nós percebemos que as únicas pessoas que se importam conosco o suficiente para trabalhar consistentemente pela nossa libertação somos nós. A nossa política nasce de um saudável amor por nós mesmas, nossas irmãs e nossa comunidade, que nos permite continuar a nossa luta e nosso trabalho.

Esse foco na nossa própria opressão está incorporado no conceito de política de identidade. Acreditamos que a política mais profunda e potencialmente mais radial vem diretamente da nossa própria identidade, em oposição a trabalhar para acabar com a opressão de outrem. No caso das mulheres negras, isso é um conceito particularmente repugnante, perigoso, ameaçador e, portanto, revolucionário, porque é óbvio, ao olhar todos os movimentos políticos que nos precederam, que qualquer um merece mais a libertação que nós mesmas. Nós rejeitamos os pedestais, a realeza, e andar dez passos atrás. Sermos reconhecidas como seres humanos, no mesmo nível, é o suficiente.

Acreditamos que a política sexual sob o patriarcado é tão onipresente nas vidas das mulheres negras quanto as políticas de classe e raça. Também achamos, muitas vezes, difícil separar opressões de raça, classe e sexo porque, nas nossas vidas, elas são quase sempre experimentadas simultaneamente. Nós sabemos que existe uma coisa que é uma opressão sexual-racial que nem é somente racial nem somente sexual, por exemplo, a história do estupro das mulheres negras por homens brancos como arma de repressão política.

Mesmo sendo feministas e lésbicas, nos solidarizamos com os homens negros progressistas, e não defendemos o fracionamento que as mulheres brancas separatistas reivindicam. A nossa situação como negras exige que que nos solidarizemos em torno do fato da raça, solidariedade que, é claro, as mulheres brancas não precisam ter com os homens brancos, a não ser que seja a solidariedade negativa como opressores raciais. Nós lutamos junto com os homens negros contra o racismo, e contra os homens negros contra o sexismo.

Nós compreendemos que a libertação de todos os povos oprimidos exige a destruição dos sistemas político-econômicos do capitalismo e do imperialismo, assim como do patriarcado. Somos socialistas, porque acreditamos que o trabalho deve ser organizado para o benefício coletivo dos que trabalham e criam os produtos, e não para o lucro dos patrões. Os recursos materiais devem ser igualmente distribuídos entre os que os criam. Entretanto, não estamos convencidas que uma revolução socialista que não seja, também, feminista e antirracista possa garantir a nossa libertação. Nós chegamos à necessidade de desenvolver uma compreensão das relações de classe que leve em conta a posição de classe específica das mulheres negras, que geralmente são marginais na força de trabalho, mesmo que no momento algumas de nós sejam temporariamente vistas como duplamente desejáveis figuras decorativas entre os trabalhadores administrativos e profissionais liberais. Precisamos articular a situação de classe real de pessoas que não sejam meros trabalhadores sem raça nem sexo, mas para as quais as opressões racial e sexual sejam  determinantes significativos das duas vidas profissionais/econômicas. Embora estejamos em acordo essencial com a teoria de Marx quando aplicada às relações econômicas muito específicas que ele analisou, sabemos que a sua análise tem que ser estendida, para que entendamos a nossa situação econômica específica como mulheres negras.

Uma contribuição política que sentimos que já fizemos é a expansão do princípio feminista de que o pessoal é político. Nas nossas sessões de conscientização, por exemplo, fomos, de muitas maneiras, além das revelações das mulheres brancas, porque estamos lidando com as implicações de raça e classe, além do sexo. Até mesmo o nosso estilo de falar e testemunhar como mulheres negras em linguagem negra sobre o que temos passado tem uma ressonância tanto cultural quanto política. Gastamos muita energia investigando a natureza cultural e experiencial da nossa opressão por necessidade, porque nenhum desses assuntos tinha sido considerado antes. Ninguém antes tinha examinado a tessitura multidimensional das vidas das mulheres negras. Um exemplo desse tipo de revelação/conceituação aconteceu numa reunião, quando discutíamos as formas em que os nosso primeiros interesses intelectuais tinham sido atacados pelos nossos pares, principalmente os homens negros. Descobrimos que todas nós, por sermos consideradas "espertas', também foram consideradas "feias", ou seja, "esperta-feia". "Esperta-feia" cristalizou a forma em que a maioria de nós foi forçada a desenvolver os nossos intelectos às custas das nossas vidas "sociais". As sanções nas comunidades negras e brancas contra pensadoras negras é comparativamente muito mais pesada que em relação às brancas, principalmente de classe média ou alta.

Como já declaramos, rejeitamos a posição do separatismo lésbico, porque não é uma análise política ou estratégia viável para nós. Ela abandona pessoas demais, particularmente homens, mulheres e crianças negras. Nós temos muitas críticas e repugnância ao que os homens foram socializados a ser nessa sociedade: o que eles apoiam, como agem, e como eles oprimem. Mas não temos  a noção desorientada de que é a sua masculinidade, per se - ou seja, a sua masculinidade biológica - que os torna quem eles são. Como negras, achamos qualquer tipo de determinismo biológico uma base particularmente perigosa e reacionária sobre a qual construir uma política. Devemos também questionar se o separatismo lésbico é uma análise política e estratégia adequada e politicamente progressiva até mesmo para as que o praticam, já que ele nega completamente todas as fontes não-sexuais da opressão da mulher, negando os fatos da raça e da classe.


3. Problemas em organizar as feministas negras

Durante os nossos anos juntas como um coletivo feminista negro, passamos por sucessos e derrotas, alegrias e dores, vitórias e fracassos. Achamos muito difícil nos organizarmos em torno de questões feministas negras, difícil até mesmo anunciarmos, em alguns contextos, que somos feministas negras. Tentamos pensar sobre as razões das nossas dificuldades, particularmente porque o movimento das mulheres brancas continua forte e a crescer em várias direções. Nessa seção, vamos discutir algumas das razões gerais  para os problemas de organização que encaramos, e também falar especificamente sobre as etapas da organização do nosso coletivo.

A maior fonte de dificuldades no nosso trabalho político é que estamos tentando não combater a opressão em uma frente ou duas, e sim abordar todo um espectro de opressões. Nós não temos privilégio racial, sexual, heterossexual ou de classe em que nos apoiar, nem mesmo temos o mínimo acesso aos recursos e poder que os grupos que têm qualquer um desses privilégios possuem.

O fardo psicológico de ser uma mulher negra, e as dificuldades que isso representa para a conscientização política e para a realização do trabalho político nunca podem ser subestimados. As psiques das mulheres negras são muito pouco valorizadas nessa sociedade, que tanto é racista como sexista. Como uma antiga participante do grupo disse uma vez, "Todas nós somos pessoas feridas pelo simples fato de sermos mulheres negras". Somos roubadas psicologicamente e em todos os outros níveis, e mesmo assim sentimos a necessidade de lutar para mudar a condição de todas as mulheres negras. Em Uma busca feminista negra pela sororidade, Michele Wallace conclui:

Existimos como mulheres que são negras que são feministas, cada uma dispersa no momento, trabalhando independentemente porque não existe ainda um ambiente nessa sociedade minimamente simpático à nossa luta - porque, estando no ponto mais baixo, teríamos que fazer o que ninguém mais fez: teríamos que lutar contra o mundo.[2]

Wallace é pessimista mas realista na sua avaliação da posição das feministas negras, particularmente na sua alusão ao isolamento quase clássico que a maioria de nós enfrenta. Devemos usar a nossa posição no ponto mais baixo, contudo, para dar um claro salto para a ação revolucionária. Se as mulheres negras se libertassem, isso significaria que todos os outros teriam que se libertar, porque a nossa liberdade exigiria a destruição de todos os sistemas de opressão.

O feminismo é, mesmo assim, muito ameaçador para a maioria dos negros, porque coloca em questão algumas das mais básicas ideias sobre a nossa existência, ou seja, que o sobre deva ser determinante de relações de poder. Aqui é a forma como os papeis masculino e feminino foram definidos num livreto nacionalista negro do começo dos anos 1970:

Entendemos que é e foi tradicional que o homem seja a cabeça da casa. Ele é o líder da casa/nação porque o seu conhecimento do mundo é mais amplo, sua consciência é maior, sua compreensão é mais plena e sua aplicação dessa informação é mais sábia... No fim, é simplesmente razoável que o homem seja a cabeça da casa, porque ele é capaz de defender e proteger o desenvolvimento da sua casa... As mulheres não podem fazer as mesmas coisas que os homens - elas são feitar por natureza para funcionar diferente. A igualdade entre homens e mulheres é algo que não pode acontecer nem mesmo no mundo abstrato. Os homens não são iguais aos outros homens, por exemplo, habilidade, experiência ou mesmo compreensão. O valor dos homens e das mulheres pode ser visto como o valor do ouro e da prata - não são iguais, mas ambos têm grande valor. Devemos entender que homens e mulheres se complementam, porque não existe casa/família sem um homem e sua esposa. Os dois são essenciais para o desenvolvimento de qualquer vida. [3]

As condições materiais da maioria das mulheres negras dificilmente as levariam a derrubar os arranjos tanto econômicos como sexuais que parecem representar alguma estabilidade em suas vidas. Muitas mulheres negras têm uma boa compreensão tanto do sexismo como do racismo mas, por causa das restrições cotidianas de suas vidas, não podem se arriscar a lutar contra os dois.

A reação dos homens negros ao feminismo tem sido notoriamente negativa. Ele se sentem, é claro, ainda mais ameaçados que as mulheres negras pela possibilidade de que as feministas negras possam se organizar para lutar pelas suas necessidades. Eles imaginam que podem perder não só aliadas valiosas e trabalhadoras nas suas lutas mas também que podem ser forçados a mudar as suas formas habitualmente sexistas de interagir com e  oprimir mulheres negras. As acusações de que o feminismo negro divide a luta negra são poderosos freios ao crescimento de um movimento autônomo das mulheres negras.

Mesmo assim, centenas de mulheres têm estado ativas em diferentes momentos durante a existência de três anos do nosso grupo. E toda mulher negra que veio, veio por uma forte necessidade de algum nível de possibilidade que não existia antes em sua vida.

Quando começamos a nos reunir em 1974, depois da primeira conferência da região Leste da NBFO, não tínhamos uma estratégia de organização, nem mesmo um foco. Apenas queríamos ver o que tínhamos. Depois de um período de meses sem reuniões, começamos a nos reunir de novo no final do ano, e começamos uma grande variedade de conscientização. O sentimento geral que tínhamos é que, depois de anos e anos, finalmente tínhamos nos encontrado. Embora não estivéssemos fazendo político trabalho como um grupo, indivíduos continuavam o seu envolvimento com política lésbica, esterilização forçada, e trabalho pelo direito ao aborto, atividades do Dia Internacional das Mulheres do Terceiro Mundo, e atividade de apoio para os julgamentos do Dr. Kenneth Edelin, Joan Little e Inéz García. Durante o nosso primeiro verão, quando a quantidade de integrantes caiu consideravelmente, as que permanecemos devotamos uma séria discussão à possibilidade de abrir um refúgio para mulheres vítimas de violência doméstica numa comunidade negra (não existia nenhum refúgio em Boston na época). Também decidimos, nessa época, nos tornar um coletivo independente, porque tivemos sérios desacordos com a política feminista burguesa da NBFO e sua falta de um claro foco político.

Também fomos contatadas na época por feministas socialistas, com quem trabalhamos em atividades pelo direito ao aborto, que quiseram nos encorajar a participar da Conferência Nacional Feminista Socialista em Yellow Springs. Uma das nossa integrantes participou e, apesar da estreiteza da ideologia promovida naquela conferência em particular, nos tornamos mais conscientes da nossa necessidade de entender a nossa situação econômica e de fazermos a nossa própria análise econômica.

No outono, quando algumas integrantes voltaram, passamos por vários meses de inatividade relativa e divergências internas que foram entendidas a princípio como um racha lésbicas-caretas, mas que também foram o resultado de diferenças políticas e de classe. Durante o verão, as que ainda estávamos nos reunindo tínhamos determinado a necessidade de fazer trabalho político e de nos movermos além da conscientização e de servir exclusivamente como um grupo de apoio emocional. No começo de 1976, quando algumas das mulheres que não quiseram fazer trabalho político, e que tiveram outras divergências, pararam de participar por vontade própria, procuramos novamente por um foco. Decidimos na época, com a entrada de novas integrantes, virar um grupo de estudos. Nós sempre tínhamos compartilhado as nossas leituras entre nós, e algumas tínhamos escrito artigos sobre feminismo negro para discussão em grupo meses antes dessa decisão ser tomada. Começamos a funcionar como um grupo de estudos e a discutir a possibilidade de começar uma publicação feminista negra. Tivemos um encontro no final da primavera que nos deu tempo tanto para a discussão política como para resolver problemas interpessoais. Atualmente, estamos planejando reunir uma coleção de escritos feministas negros. Sentimos que é absolutamente essencial manifestar a realidade da nossa política para as outras mulheres negras, e acreditamos que podemos fazer isso escrevendo e distribuindo o nosso trabalho. O fato de que feministas negras individuais estejam vivendo isoladas por todo o país, de que os nosso números sejam pequenos, e que tenhamos alguma habilidade em escrever, editar e publicar nos faz querer realizar esse tipo de projeto como forma de organizar as feministas negras, ao mesmo tempo em que continuamos a fazer trabalho político em coalizão com outros grupos.


4. Questões e projetos feministas negros

Neste tempo juntas, identificamos e trabalhamos muitas questões de particular interesse para as mulheres negras. A inclusividade da nossa política faz com que nos interessemos por qualquer situação que acometa as vidas das mulheres, povos do Terceiro Mundo e dos trabalhadores. É claro que estamos comprometidas particularmente com o trabalho nas lutas em que raça, sexo e classe sejam fatores simultâneos de opressão. Podemos, por exemplo, nos envolver em organização por local de trabalho numa fábrica que empregue mulheres do Terceiro Mundo, ou fazer piquetes num hospital que esteja cortando os serviços de saúde para uma comunidade do Terceiro Mundo, já inadequados, ou criar um centro de atendimento a mulheres estupradas num bairro negro. A organização por reivindicações de creches também pode ser um foco. O trabalho a ser feito e as questões incontáveis que esse trabalho representa meramente refletem a onipresença da nossa opressão.

Questões e projeto em que integrantes do coletivo já trabalharam são esterilização forçada, direito ao aborto, mulheres que sofreram violência doméstica ou estupros e serviços de saúde. Também fizemos muitos workshops e atividades educativas sobre feminismo negro em campi universitários, conferências de mulheres e, mais recentemente, para estudantes secundaristas.

Uma questão que é de grande preocupação para nós e que começamos a abordar publicamente é o racismo no movimento das mulheres brancas. Como feministas negras, somos constante e dolorosamente conscientes de o quanto pouco é o esforço que as mulheres brancas têm feito para entender e combater o seu racismo, o que requer, entre outras coisas, que elas tenham uma compreensão mais que superficial sobre raça, cor e história e cultura negras. Eliminar o racismo no movimento das mulheres brancas é, por definição, trabalho para as mulheres brancas, mas vamos continuar a falar e exigir responsabilidade sobre essa questão.

Na nossa prática política, não acreditamos que os fins sempre justificam os meios. Muitos atos destrutivos e reacionários foram cometidos em nome de conseguir objetivos políticos "corretos". Como feministas, não queremos passar por cima das pessoas em nome da política. Acreditamos no processo coletivo e numa distribuição não-hierárquica do poder dentro do nosso próprio grupo e na nossa visão de uma sociedade revolucionária. Nos comprometemos com um exame contínuo da nossa política enquanto ela se desenvolve, através da crítica e da autocrítica como um aspecto essencial da nossa prática. Na sua introdução a Sisterhood is Powerful (A Sororidade é Poderosa), Robin Morgan escreve:

Não tenho a menor noção do possível papel revolucionário que os homens brancos heterossexuais possam desempenhar, já que eles são a própria incorporação do poder reacionário.

Como feministas negras e lésbicas, sabemos que temos uma tarefa revolucionária bem definida para cumprirmos, e que estamos prontas para o trabalho e a luta de uma vida inteira diante de nós.


Notas

[1] Essa declaração tem a data de abril de 1977.
[2] Wallace, Michele. "A Black Feminist's Search for Sisterhood," The Village Voice, 28 de julho de 1975, pp. 6-7.
[3] Mumininas of Committee for Unified Newark, Mwanamke Mwananchi (The Nationalist Woman), Newark, N.J., ©1971, pp. 4-5.

THE COMBAHEE RIVER COLLECTIVE: "The Combahee River Collective Statement," copyright © 1978 by Zillah Eisenstein.

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