Alguns pensamentos sobre Voegelin, Christopher Hill e Norman Cohn

Joaquim de Fiore

Eu li recentemente A Nova Ciência da Política, do Voegelin, que é recomendado pelos olavetes. Seria uma recomendação bizarra se eles fossem mesmo conservadores, mas perfeitamente compreensível, já que são tradicionalistas guénonistas disfarçados, já que o Voegelin é um autor contrarrevolucionário tradicionalista (eu fiquei com vontade de ver as posições políticas concretas dele, mas não consegui achar). Aliás, a leitura altamente seletiva de autores conservadores pelos olavetes por si só já mostra que eles têm um viés que ignora um monte de conservadores importantes (por exemplo, o Ortega y Gasset, ou o Raymond Aron), porque têm muito mais simpatia por autores tradicionalistas, ocultistas e de extrema direita.

O mais interessante, pra mim, são algumas semelhanças e diferenças com outros autores que estudaram as heresias desse período que vai da Baixa Idade média até o começo da modernidade. Deles, os que eu acho mais próximos do tema são o marxista Christopher Hill (eu li O Mundo de Cabeça para Baixo, sobre a revolução inglesa) e o conservador Norman Cohn (Na Senda do Milênio, sobre as heresias medievais). Acho que as diferenças entre eles correspondem a diferenças teóricas e políticas, e os dois ajudam a mostrar a artificialidade da construção histórica do Voegelin.

Heresia dos Flagelantes, século XIV
Não vou resumir aqui o livro (isso não é uma resenha, são alguns pensamentos), mas quero destacar três pontos pelos quais ele passa antes de chegar às caracterização da modernidade.

Eu gostei muito do livro, principalmente o começo. Aqui, ele vai falar de como se tornou possível uma nova ciência da política. E como se tornou? Ele diz que o formalismo positivista pôde ser superado, principalmente pela contribuição do Max Weber, que conseguiu formular uma sociologia da religião bem ampla. Então, pôde ser feito o trabalho de passar da análise formal de tipos de governo, sistemas eleitorais etc, para uma reflexão sobre as fontes de ordem na sociedade (que é o tema da obra principal do Voegelin, Ordem e História).

Sim, mas quais são as fontes, então? Ele faz uma crítica ao Weber: em todo o material imenso que ele recolheu, não tem um estudo sobre o cristianismo medieval. Justamente o que criou a concepção de ordem, para ele, racional, e superior às outras, porque levava em conta a alma humana.

Citando a ideologia tradicional chinesa sobre o Mandato do Céu, ele vai dizer que a ordem política depende de uma visão sobre a ordem cósmica. Aí entra o segundo ponto: ele vai fazer uma “história da alma”, que começa na filosofia grega, mas só se generaliza no cristianismo (esse tema das “sementes da verdade” na filosofia grega é importante na teologia católica). Com a descoberta da alma, o ser humano chega à sua essência, e a partir daí consegue criar uma sociedade conforme, que vai ser a civilização cristã.

Aí entra o terceiro ponto, que eu sempre achei um ponto cego do catolicismo: a gnose. O Voegelin mistura três coisas diferentes, e chama tudo de gnose: o milenarismo, ou seja a crença no fim do mundo iminente, a gnose propriamente dita, e o panteísmo.

Essas três vertentes existiram no cristianismo primitivo. Pra deixar claro, o que eu chamo de gnose aqui são as seitas que acreditam que o mundo material é uma prisão da alma, e que a salvação é ir para um mundo puramente espiritual. Na gnose, o mundo tanto pode representar um princípio maligno (dualismo, como por exemplo no maniqueísmo, que achava que a alma tinha sido criada por Deus, e o corpo, pelo Diabo), como pode ser produto de um Deus menor.

Esses autores, quando falam que o marxismo é uma forma de gnose, erram feio porque, do ponto de vista deles, o marxismo seria panteísmo materialista. A cabala, o sufismo e algumas formas de cristianismo e hinduísmo têm características panteístas, mas espiritualistas (o mundo material como uma emanação de Deus).

Já o nazismo, sim, teria traços gnósticos, como a necessidade de purificar o mundo e a própria visão da humanidade dividida em castas, em que só os superiores podem chegar à salvação.

Outra coisa muito diferente é o milenarismo. No cristianismo primitivo, ao lado das seitas gnósticas, existiam seitas milenaristas, como uma teologia totalmente diferente (e mais próxima da ortodoxia), como foi o caso do montanismo. O Tertuliano, que foi montanista, por exemplo, escreveu várias obras contra os gnósticos.

Pois bem, então o Voegelin (mas não só ele) vai misturar tudo e falar que a modernidade é gnóstica porque quer criar um paraíso na terra, e que, pra criar esse paraíso, vai ter que esmagar a alma humana, que tem a liberdade de escolher entre o bem e o mal. 

O próprio marxismo sempre viu no cristianismo primitivo e em algumas heresias uma tentativa de estabelecer o comunismo, essa tanto é a posição do Engels como do Kautsky, que escreveu As Fontes do Cristianismo, sobre isso. A direita católica, claro, vai inverter o argumento, e dizer que o marxismo é uma nova forma de heresia milenarista. Na academia, o Karl Manheim, no Ideologia e Utopia, deu “respeitabilidade” pra essa tese, e daí ela passou pra literatura anticomunista da época da guerra fria.

Diferente do Voegelin, tanto o Christopher Hill como o Norman Cohn vai dar ênfase ao aspecto prefigurativo do pensamento herético, sendo que o Hill vai apontar para as possibilidades revolucionárias que, só na época em que ele escreveu (anos 1970) teriam se tornado possíveis, e o Cohn vai colocar como um elemento irracional que impede uma luta gradual por reformas sociais.

Quem tá certo? Acho que a resposta tá nas omissões e distorções do Voegelin.
Se o Voegelin fosse consequente com a sua defesa de que o catolicismo medieval conseguiu criar uma ordem racional baseada na liberdade da alma humana, ele teria que rejeitar a modernidade em bloco, como fazem os integristas católicos.

Só que não é essa a análise que ele faz. Ele vai pegar o místico franciscano do século XII Joaquim de Fiore, e colocar a interpretação da história em três eras (do Pai, do Filho e do Espírito Santo) como o paradigma de todas as visões progressistas. A Era do Pai é o Antigo Testamento, baseado na Lei, a do Filho é o Novo, baseado na Graça, e o Joaquim de Fiore anunciou a chegada iminente da Era do Espírito, baseada na liberdade absoluta, onde a igreja seria substituída pela comunhão direta com Deus.

O Cohn vai ver o esquema marxista comunismo primitivo-sociedade de classes-comunismo como uma transposição das três eras do Joaquim de Fiore (eu não gosto dessa interpretação; acho sim que existem tons cristãos nesse esquema trinitário que o Marx trouxe do Hegel, mas que o equivalente seria Paraíso-Queda-Novo Mundo, eu comecei a estudar as visões marxistas críticas à concepção de comunismo primitivo mais aceita justamente pra tentar arruinar esse esquema, e acho que a valorização da superioridade do capitalismo sobre as sociedades sem classes, e a crítica à ideia de proletariado como classe essencialmente revolucionária são parte dessa tarefa).

Já o Voegelin vai ver a própria ideia de modernidade como uma imanentização crescente da ideia da Era do Espírito Santo, e dizer que a modernidade é um tumor na civilização ocidental. As duas formas de gnose são a evolucionista e a radical, colocando então todas as correntes liberais na primeira categoria. Um Plínio Corrêa de Oliveira da vida diria o mesmo, só que imediatamente mostraria como o livre exame, a democracia e o socialismo são os resultados da destruição da ordem baseada em Deus. O Voegelin, então, vai dizer que o Reino Unido, os Estados Unidos e a França só conseguiram sobreviver como nações porque as suas respectivas revoluções aconteceram cedo o suficiente para que a sua essência cristã não fosse destruída, e que a Rússia e a Alemanha não tiveram a mesma felicidade. Desculpa muito esfarrapada, se a gente for levar em consideração a radicalidade da revolução americana nos seus princípios democráticos (pra não falar da força absoluta do protestantismo, com influência teísta e maçônica), e a radicalização política da revolução francesa, mesmo que a forma de república democrática com separação total entre Estado e igreja tenha demorado mais de um século pra se realizar. O único caso em que teve mesmo um compromisso foi o da revolução inglesa, com a revolução gloriosa, mesmo assim depois da fase extremamente radical e herética que o Hill documentou.

Durante todo o livro, ele vai discretamente tirando algumas conclusões políticas, ao refletir sobre os exemplos de como Santo Agostinho e Hobbes pensaram o combate às heresias. Para ele, quando o catolicismo se tornou a religião oficial do Império Romano, não deveria ter aceito que continuassem os cultos pagãos e, no outro extremo, o Hobbes corretamente, segundo ele, reconheceu o papel da religião estabelecida para a manutenção da ordem, mas não ficou indiferente ao conteúdo de verdade da religião, como se pudesse tanto ser o cristianismo como qualquer outra. Para o Voegelin, os dois não entenderam que deve haver um equilíbrio, em que a religião permite uma ordem civil separada, enquanto tem a liberdade de reprimir as heresias (ele defende que os gnósticos tem que ser censurados, se baseando num escrito de Hooker contra os puritanos). Mais uma vez, eu vejo aí uma acomodação com a ordem política moderna, com a projeção para o passado de um modelo de separação entre Estado e igreja que só surgiu no século XIX. 


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