Por que você deve acreditar na mídia burguesa


Traduzido do site da AWL



Você não deve, boa parte do tempo, é claro. Mas uma abordagem geral de não acreditar em nada da mídia burguesa é tão imbecil quanto a credulidade.

A liberdade burguesa de imprensa não é adequada, mas já é alguma coisa. Você pode ler sobre a Líbia (por exemplo), em todo o espectro da mídia burguesa, do Financial Times, passando pelo Le Monde, Los Angeles Times e Frankfurter Allgemeine Zeitung até Al Jazeera. Todos têm suas próprias posições. Cada um se beneficia de revelar alguma coisa que o outro esconde. Nenhum deles é controlado por um governo.

Cada um deles tem uma interesse “de mercado” imediato de ser conhecido por relatar os fatos corretamente. Os próprios capitalistas, e o seu grande exército de conselheiros, gerentes etc, precisam saber o que está acontecendo. Alguns deles contratam pesquisadores privados para alguns assuntos, mas a maioria, na maioria dos assuntos, se apoia na imprensa burguesa séria.

Na década de 1850, Karl Marx, com a ajuda de Frederick Engels, ganhou a vida escrevendo reportagens sobre casos britânicos e europeus para um jornal burguês independente, o New York Daily Tribune. Quando ele escreveu sobre a Guerra da Criméia, por exemplo, ele não tinha informação de primeira mão. As suas reportagens para Nova Iorque eram baseadas na leitura de vários jornais burgueses da Europa. Ele contava aos seus leitores de Nova Iorque quais eram as suas fontes para declarações polêmicas, e explicava quais eram as distorções e posicionamentos que ele esperava de cada jornal.

Ele “acreditava no que lia na mídia burguesa”, mas lia cuidadosamente, criticamente e de uma variedade de fontes. Essa abordagem deve ser o nosso modelo.

Se não for pela mídia burguesa, por onde poderemos nos informar sobre acontecimentos além dos que podemos ver com os nossos próprios olhos?

Da mídia operária? Na prática, da imprensa de esquerda? Sim, algumas vezes, sobre lutas sindicais que não saem na mídia burguesa. Mas sobre política internacional, “alta” política nacional e tendências sociais e econômicas gerais, a imprensa de esquerda, por falta de recursos, tem que basear as suas informações básicas na mídia burguesa e outras fontes “burguesas”, estatísticas oficiais, e assim por diante. Ela “acredita na mídia burguesa”.

Os jornais de esquerda tentam colocar os fatos no seu contexto, e destacar fatos que ficam “perdidos” dentro da imprensa burguesa. É um trabalho essencial. Alguém que leia de várias fontes da imprensa de esquerda, e criticamente, vai ter uma imagem razoável da realidade. A nossa pobreza material significa que mesmo essa pessoa vai ficar muito melhor informada se ler cuidadosamente a imprensa burguesa séria.

Ativistas que se informam somente ou principalmente através de um setor específico da imprensa de esquerda ficam totalmente dependentes do posicionamento e seleção feita pelos jornais que escolhem ler.

Imagine alguém que leia somente o Financial Times, e alguém que leia somente o Socialist Worker. Qual estaria melhor informado sobre o mundo? Apesar das intenções e atitudes socialistas dos editores do SW, a resposta seria: o leitor do FT.

Se baseando no Socialist Worker, o leitor ficaria prisioneiro do agitacionismo do SW, da sua propensão a pegar qualquer detalhe que puder encontrar na imprensa burguesa que sirva para a sua linha agitativa atual e “inflá-lo” em detrimento de tudo o mais. E o SW está longe de ser o pior da imprensa de esquerda.

As pessoas que dizem ter uma visão sobre o mundo que contorna a mídia burguesa estão, na verdade, dependentes de um ou outro setor da imprensa de esquerda, ou, ironicamente, de detalhes tirados da imprensa burguesa; ou pior, da reciclagem de boatos, via Internet ou boca-a-boca; ou, pior ainda, criando uma imagem a partir dos seus próprios preconceitos.

“Não acredite na mídia burguesa”, foi o grito de guerra da maioria, num debate recente na subsede de Londres do Sindicato dos Ferroviários (RMT).

Como Becky Crocker, uma das metroviárias da Workers’ Liberty que estava em minoria nesse debate, falou depois, isso significa dizer: não acredite em informações que refletem pelo menos algum conhecimento do que está acontecendo, em vez disso acredite em qualquer coisa que falarem, por exemplo, que os rebeldes contra o Khadafi na Líbia são todos “agentes da CIA e da Al Qaeda”.

Na subsede do RMT, as influências políticas – ex-militantes do SWP, e remanescentes da época em que o Socialist Labour Party de Arthur Scargill era forte ali – têm peso. Mas é mais do que isso.
Os sindicalistas, acostumados a ver a mídia capitalista distorcer ou esconder as suas lutas salariais, algumas vezes ficam predispostos a “nunca acreditar na mídia burguesa”, ou até mesmo a acreditar no contrário do que a mídia burguesa diz.

Durante décadas, essa predisposição ajudou os stalinistas. A mídia burguesa relatava um monte de horrores na URSS. Conclusão: a URSS deve ser boa, para atrair toda essa hostilidade. A URSS era boa porque as reportagens mostravam que era ruim.

Como a desiludida Susan Sontag disse em 1982: “Imagine, se puder, alguém que só leu o Reader’s Digest [na ponta direita no espectro da imprensa burguesa] entre 1950 e 1970, e alguém, no mesmo período, que só leu The Nation ou The New Statesman [revistas liberais de esquerda]. Qual leitor estaria melhor informado sobre as realidades do comunismo [ela se referia ao stalinismo]? Eu acho que a resposta no dá o que pensar. Será que os nossos inimigos estavam certos?”.

Temos que ler tudo criticamente – começando pelo que nós mesmos escrevemos. Se lermos criticamente, podemos pegar um monte de informações através da mídia burguesa séria.

A ideia de “não acreditar na imprensa burguesa” é inevitavelmente ligada a teorias da conspiração. Ela depende da ideia de que alguma agência da burguesia, a CIA ou qualquer outra, pode controlar toda a mídia burguesa por trás dos panos e, ao mesmo tempo, fornecer à burguesia os fatos reais.

“Não acreditar” geralmente tem a forma não de negar diretamente os fatos retratados na mídia burguesa, mas sim de dizer que esses fatos são manipulados por uma elaborada conspiração. Ninguém pensou que as reportagens da mídia burguesa sobre os fatos do atentado de 11 de setembro de 2001 fossem mentira. Muitos disseram que os sequestros dos aviões não foram organizados pelas pessoas que disseram que tinham organizado e que tinham um longo histórico de tentar fazer coisas semelhantes, e sim por agências secretas do governo dos EUA ou pelos “sionistas”.

Nesse caminho estão a loucura e o antissemitismo — e a falta de perspectiva política. Agências secretas burguesas tão fortes que podem criar movimentos populares na Líbia e outros países a seu bel prazer devem ser difíceis de derrotar.

A mentalidade "não acredite na mídia burguesa" e conspiratória é uma mentalidade de vítima, e não de revolucionário.

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