A origem da vida: Alexander Oparin x Richard Dawkins


Milhões de agradecimentos ao hectofloricultor Luther Blisset e ao meu professor Haroldo Lemos, que revisaram e corrigiram isso aqui!


E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão 

(Gonzaguinha) 

Dando uma pausa nos contos - que são muito mais difíceis de escrever - seria uma boa tocar num assunto que tem a ver com a filosofia do materialismo dialético, como eu já tinha feito em outras postagens.

Esse assunto é a origem da vida.

É um tema que me interessa porque eu acho que é um dos pontos-chaves que são atacados pelos fundamentalistas hoje em dia, na sua tentativa de desacreditar as ciências (os outros são o Big Bang e a Evolução).

Mas eu não quero falar de um ponto de vista biológico, e sim filosófico, porque eu penso que a ideologia dominante sobre a origem da vida é irracionalista. E eu, que tenho dado umas porradas no marxismo ortodoxo nesse blog, acho que deveria defender um stalinista muito ortodoxo que faz um grande acerto ao colocar as suas pesquisas sob o ponto de vista do bom e velho materialismo dialético.

Esse cara é o soviético Alexander Oparin (1894-1980).





A sopa primordial

Ele que foi o inventor, em 1924, da famosa hipótese da "sopa primordial". É a mesma teoria que todo mundo aprende na aula de ciências do 7° ano (se eu não me engano), só que sem o professor explicar que o autor era marxista. A sua obra, A Origem da Vida, só foi publicada fora da URSS em 1930, então o biólogo J. B. S. Haldane, também marxista, que defendeu um ponto de vista semelhante a partir de 1929 chegou a ele independentemente. Por isso alguns chamam a hipótese de Hipótese de Oparin-Haldane.

Relembrando, o Oparin pressupunha que as moléculas básicas da vida (metano, amônia, hidrogênio e água) iam se formar através de combinações nos oceanos da terra primitiva (que tinha uma atmosfera muito diferente da atual). Hoje sabemos que isso aconteceu entre 3,5 e 3,9 bilhões de anos atrás, porque se estima que os fósseis mais antigos de algas azuis têm 3,5 bilhões de anos (aliás, esse surgimento "rápido" da vida logo que a Terra se estabilizou e esfriou é um ponto importante para a tese que eu vou defender).

Que a atmosfera primitiva era diferente da atual, é uma dedução lógica do fato do oxigênio na proporção atual (20,9%) ser fruto da fotossíntese, e da mudança da temperatura  (com a Terra mais quente, existiria muito mais hidrogênio contido no vapor de água, assim como o oxigênio, não havendo portanto o oxigênio molecular "livre", O²).

Em 1953, um estudante universitário americano de 23 anos, Stanley Miller, fez uma experiência. Ele criou em laboratório uma estufa com uma atmosfera de metano, amônia e hidrogênio, que sofriam descargas elétricas (pra imitar os raios), e surgiram 23 aminoácidos.

Essa experiência, chamada de experiência Miller-Urey (Urey era o professor de Miller), foi considerada a demonstração de que as moléculas orgânicas básicas podem surgir espontaneamente.


E disso para as células?

Até aí, Oparin estava certo. Mas ainda existia um longo caminho a percorrer dos aminoácidos até as células geradas pelos ácidos nucleicos.

E esse caminho é o centro desse debate até hoje.

Um dos pontos polêmicos é sobre as condições iniciais em que se desenvolveu a vida na Terra. Por exemplo, existem hipóteses de que a vida surgiu nas fontes hidrotermais (vulcões submarinos), outras que atribuem a energia inicial a reações de redução-oxidação do ferro e do enxofre ou ao decaimento de isótopos radioativos.

Mas a verdadeira polêmica é a que divide as hipóteses em dois tipos: genes primeiro e metabolismo primeiro. Justamente porque o Oparin imaginou de uma forma simplista que os aminoácidos também iam se recombinar formando as células, do mesmo jeito que as moléculas se combinam pra formar os aminoácidos.

De acordo com as primeiras hipóteses (genes primeiro), o que precisa ser explicado é como surgiram os códigos genéticos, e a explicação para o surgimento das células se seguiria facilmente. A mais famosa da família é a do Mundo de RNA, que imagina que ele seria o primeiro ácido nucleico, e que o DNA se desenvolveu depois, relegando o RNA a um papel subordinado nas células. Existe outras variantes, com outros tipos de ácidos sendo os iniciais.

Segundo as hipóteses de metabolismo primeiro, o ponto de partida é um ciclo replicável, que vai permitindo que os ácidos nucleicos se desenvolvam nele. A mais famosa delas é a Hipótese do Barro, em que os silicatos contidos no barro seriam a base desse ciclo.

Mas o meu objetivo não é avaliar essas hipóteses nem mostrar todas (não sou capacitado pra isso), e sim dizer que faltava uma parte na "receita" da sopa do Oparin, e o que os biólogos ainda estão fazendo é tentar preencher as lacunas.


O DNA é burguês?

Antes de defender o Oparin contra o irracionalismo do Dawkins, é impossível não falar da influência do marxismo stalinista, fortemente evolucionista, na obra dele. É triste dizer que o Oparin apoiou toda a política científica do stalinismo, pra proteger a carreira dele.

Isso inclusive levou ele a defender o "jênio" Lyssenko, que "descobriu" que, do mesmo modo que o ser humano é condicionado socialmente, as plantas também podem ser, e tentou plantar trigo na Sibéria. Não precisa dizer que essa condenação da genética "burguesa" levou a um fracasso agrícola que não tá no gibi!

Mas o apoio do Oparin ao Lyssenko não foi simplesmente oportunismo. Existe uma base filosófica para isso, que é a versão oficial do materialismo dialético que era defendida na URSS, que levava o corte de classe para o interior das ciências, criando as "ciências proletárias".

Por exemplo, na edicação de 1924 do Origem da Vida, Oparin nega a existência dos genes, vendo por trás deles a ideologia burguesa que diz que o passado governa o futuro.

Esse reflexo de desconfiança em relação aos cientistas dos países capitalistas existiu em todas as ciências.

Por exemplo, até a década de 1970, a teoria cosmológica dominante na URSS era a do Universo Estacionário, que dizia que o universo era eterno, com uma quantidade infinitesimal de moléculas sendo geradas constantemente. Assim, o universo continuava eternamente do mesmo jeito. O que sustentou essa teoria, que há mais de dez anos já tinha sido rejeitada nos países capitalistas, era a desconfiança diante de uma teoria (O Big Bang) criado por um padre (Jules Lemaître), e que parecia muito com o "Faça-se a Luz!" da Bíblia.

A mesma coisa com a Interpretação de Copenhague na física quântica, que parecia dizer que o observador afeta a realidade que é observada. Na URSS, a maioria dos físicos defendia a Interpretação das Variáveis Ocultas, mantendo a matéria com posição e velocidade, mesmo essa interpretação tendo enfrentado sérios problemas desde a década de 1960.

Eu lembro que o A Favor de Marx, o primeiro livro do Althusser, começava com um prefácio chamado Hoje,em que o cara falava dos efeitos destrutivos da "ciência proletária" e da necessidade da luta teórica.


O Acaso e a Necessidade

Então, porque eu acho que o Oparin tem uma importância que vai além do valor histórico?

Tem a ver com o que o Althusser chamava de "filosofia espontânea dos cientistas", ou seja a infiltração da ideologia dominante que explora as descobertas científicas e as coloca num quadro conceitual das filosofias burguesas.

No caso da pesquisa sobre a origem da vida, os biólogos que tiveram que lutar contra as concepções teológicas fizeram uma negação abstrata delas, que é o empirismo. Para negar que a vida tenha surgido por um milagre e pela vontade de Deus, a ideologia dominante sobre a origem da vida é simplesmente o reverso da moeda, dizendo que a vida surgiu simplesmente por acaso.

Uma obra que ficou muito famosa na década de 1970, do biólogo francês Jacques Monod, O Acaso e a Necessidade, é considerada até mesmo como uma visão existencialista sobre a origem da vida: "A antiga aliança se rompeu; o Homem sabe, enfim, que está só na imensidão indiferente do Universo, onde emergiu por acaso".

Monod acusou o marxismo de ser "animista", de atribuir à matéria uma "vontade", e termina um livro sobre a origem da vida atacando longamente o marxismo. O que Monod atacava era a ideia de que a matéria evolui para uma diferenciação cada vez maior, e uma complexidade cada vez maior em alguns de seus elementos, ou seja, que a matéria não é algo simplesmente inerte, e sim que evolui com uma tendência.

Contra esse irracionalismo, que se recusa a pensar na relação entre o fenômeno da vida e o restante da matéria, Oparin defendeu a tese engelsiana da Dialética da Natureza: a vida é uma das formas de movimento da matéria:

O materialismo dialético, considerando a vida como uma forma qualitativamente especial do movimento da matéria, define a própria tarefa de compreender a vida de maneira diferente do materialismo mecanicista. Mecanicisticamente, o problema consiste na mais completa redução dos fenômenos vitais a processos físico-químicos. Pelo contrário, do ponto de vista do materialismo dialético, a compreensão da vida consiste maximamente no estabelecimento das suas exatas diferenças qualitativas das outras formas de movimento da matéria.

(Gênese e evolução inicial da vida na Terra, 1968)

A vida é, portanto, um fenômeno que emerge necessariamente a partir de determinado nível de diferenciação e complexidade da matéria.

O pensamento de Oparin pertence à mesma linha filosófica do hoje esquecido ecólogo soviético Vladimir Vernadsky (1863-1945), que escreveu em 1926 a obra A Biosfera. Já naquela época Vernadsky dizia que a Terra sempre fora adaptada à vida, justamente porque a vida é uma das formas de organização da matéria. Quando, hoje, são descobertos fósseis de algas azuis de poucas centenas de milhões de anos depois do período Hadeano - ou seja, pouco depois da Terra se estabilizar e tomar a sua forma atual, depois de pesados bombardeios de cometas e asteroides - parece uma vitória de Vernadsky.
 
Tem uma força me tentando a comparar essa visão com a Complexidade-Consciência do Pierre Teilhard de Chardin, mas eu faço isso outro dia, em outra postagem...


O gene reducionista

O exemplo do Monod é um caso extremo, mas a posição dele é amplamente defendida hoje em dia, inclusive por biólogos de grande projeção na mídia, como o Richard Dawkins, autor de obras como O Gene Egoísta (1976).

O próprio Dawkins nega que a evolução funcione por simples acaso, e sim cumulativamente, mas não que a própria existência da vida seja acaso:

Podemos com segurança concluir que os corpos vivos são biliões de vezes demasiado complicados ― demasiado estatisticamente improváveis ― para terem surgido por puro acaso. Como é que surgiram, então? A resposta é que o acaso entra na história, mas não um único e monolítico acto de acaso. Em vez disso, toda uma série de pequenos passos ocasionais, cada um suficientemente pequeno para ser um resultado credível do seu predecessor, ocorreram uns atrás dos outros em sequência. 

(A Improbabilidade de Deus)

Oparin reconhecia claramente o absurdo da concepção "aleatória", defendida por Monod, e hoje por Richard Dawkins:
 
A estrutura determinante da vida dessa molécula-gene original surgiu puramente por acaso, simplesmente como o resultado de uma "feliz coincidência" dos grupos atômicos e moleculares distribuídos em solução nas águas primevas dos oceanos.

Entretanto, é difícil aceitar uma ideia desse tipo, em primeiro lugar porque ela fecha completamente a porta sobre o estudo científico do acontecimento mais importante na história do nosso planeta, a primeira emergência dos organismos. Como pode-se estudar um fenômeno que no melhor dos casos, só pode ter acontecido uma vez em toda a existência da Terra?

Uma teoria é de valor especial para o cientista se ela abre possibilidades práticas para pesquisa, verificação da ocorrência regular dos fenômenos, ou por observação da natureza ou pela reprodução de experimentos correspondentes no laboratório. A concepção de desenvolvimento aleatório das moléculas viventes é praticamente improdutiva.

Em contraste com isso, a abordagem evolucionária do problema da origem da vida abre para o cientista amplas possibilidades para o estudo e reprodução experimental dos estágios separados do longo curso do desenvolvimento da matéria que levou ao primeiro aparecimento de seres vivos na Terra.

(A Origem da Vida, 1954)

Mas o pior é que Dawkins avanço mais um passo decisivo contra uma compreensão dialética da vida: ao negar a interdependência entre as formas de vida na Biosfera, como o fez Vernadsky, ele separou abstratamente a "unidade básica" que compete na seleção natural. E nem mesmo disse que a seleção natural é entre indivíduos, e sim entre os próprios genes, tornando redundante o "pequeno detalhe" dos organismos em que os genes existem! "O DNA de um elefante ou de um vírus são programas do tipo "copie-me'. A diferença é que um deles faz uma digressão quase fantasticamente extensa, "copie-me criando um elefante primeiro'."

Somando a isso a transposição mecânica da competição entre os indivíduos (que por si só já é unilateral) para os genes, e fica pronto o darwinismo social do Gene Egoísta. Depois disso, ele ficar ofendido porque foi tachado de defender o individualismo mais selvagem é sacanagem!


Hoje

O valor histórico do Oparin é reconhecido hoje em dia, mas de forma nenhuma a "interferência" da filosofia na ciência, ainda mais se for uma coisa tão condenada como o marxismo. Como eu já falei em outro lugar, o papel da filosofia não é o de substituir a ciência, chegando às "descobertas" em vez dela, e sim de limpar o terreno das construções ideológicas, permitindo que os conceitos científicos possam se desenvolver mais facilmente.

Foi esse papel de resistência que os marxistas tiveram em relação ao Big Bang e à Interpretação de Copenhague, que de certa forma contribuiu para solidificar mais essas teorias, eliminando os resquícios criacionistas e idealistas delas. Mas o papel foi bem mais positivo na biologia, exigindo contra o "acaso" a descrição de cada estágio de desenvolvimento da matéria entre os compostos orgânicos e o DNA. Foi isso o que permitiu que, hoje, por exemplo, esteja sendo pensado o papel do ambiente na formação do metabolismo, com a hipótese do barro como suporte.

O marxismo também não está imune a se transformar também em ideologia (como foi a ideologia da burocracia soviética e dos outros regimes stalinistas), por isso esse papel deve ser rigorosamente vigiado e corrigido pela própria ciência (como disse Engels, "cada revolução nas ciências provoca uma revolução no materialismo").

É muito característico que, quando combatem o argumento clássico dos criacionistas sobre a impossibilidade estatística da formação do código genético, os biólogos são obrigados a mostrar como as propriedades do carbono facilitam a formação das cadeias, a abundância dos elementos orgânicos básicos etc - usando na prática um argumento que enraíza o surgimento da vida nas propriedades químicas da matéria.

Talvez a razão final que será dada a Oparin (e Vernadsky) venha de fora da Terra, pela Astrobiologia. Mesmo que seja verificada a tese de que a vida só é possível na Terra por causa de condições muito específicas (a existência de um satélite grande como a Lua, de planetas gigantes no sistema estelar para barrar os meteoros etc), o que é a chamada hipótese da "Terra rara", se a hipótese marxista de Oparin estiver certa, a vida será abundante nos planetas que preencherem essas condições.

Até agora, foram encontradas algumas moléculas orgânicas em outros sistemas estelares, até mesmo alguns açúcares. O tempo e o desenvolvimento dos instrumentos de pesquisa dará a resposta definitiva.

Comentários

Anônimo disse…
Caraleo! Vai escrever bem , assim lá no Himalaia...
Na espera dos próximos capítulos, sobre a tal origem do universo.

Abraços.
rodrigodoo disse…

O Haroldo também comentou por email (que eu agradeço muito e me deixou sem graça, igual ao comentário da Tatiana!):

Adorei a aula de Filosofia, sobretudo porque minha formação científica se deu nos moldes dos últimos 50 anos. Isto é, minha geração científica segue a linha de Ortega y Gasset que dizia que no século XX os cientistas seriam “sábios ignorantes”. E não há outro jeito de se fazer ciência. É tanta informação (toda ela multidisciplinar) que fica difícil encontrar tempo para tergiversações. Foi essa uma das razões que me levaram a abandonar a pesquisa em 1992.

O artigo está ótimo e os retoques que poderiam ser feitos são muito específicos e atuais. Ninguém que não fosse especialista iria entender. O fato é que Opárin e toda a galera que desprezou os genes, por razões essas ou aquelas, na verdade, não sabiam nada sobre eles. O que Mendel estabeleceu no século XIX só tinha base matemática. Tanto que o inglês Ronald Fisher (que era estatístico) escreveu, em 1930, The Genetical Theory of Natural Selection e mais um monte de artigos envolvendo biologia. É um erro que se comete até hoje, infelizmente, associar Mendel, ou seus contemporâneos e seguintes, no início do séc. XX, ao termo “gene”. Watson e Crick só demonstraram cabalmente a importância dos ácidos nucléicos em 1953. E só o prêmio Nobel de 1968, Marshall Noremberg, provou que se podia manipular o DNA, dando início ao que se chama hoje de genética molecular.

Outro detalhe: sobre o RNA. Existe uma corrente de colegas meus (virologistas) que considera que o fim da espécie humana se dará por infecções por RNA-vírus, dada sua capacidade de mutação. Caso do HIV (ou seus primos, HTLV-I, II etc). Também estão associados a dezenas de tipos de câncer. E por aí vai.

Evolução: Dawkins teve seus “momentos”, mas sua cruzada contra as religiões o afasta do foco científico. Por exemplo: teria havido evolução sem os vírus?

Mas, como eu disse, são aspectos muito específicos cuja ausência em seu texto em nada prejudicam seu objetivo principal.

Quanto ao materialismo, ou capitalismo, que permeia as pesquisas, vale lembrar que o maior problema de quem busca terapias para males que afligem o homem há séculos, é o dinheiro. Não só para fazer a pesquisa, mas criar algo que seja exeqüível e rentável para alguém. Geralmente para quem financia as pesquisas. Mesmo que seja o governo. Há dezenas de achados terapêuticos inviáveis do ponto de vista econômico. Esse é outro grande problema que público leigo desconhece.

Eu adorei seu texto. E aprendi muito.

Grande abraço.

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