O estudo da arte como cultura humanista (Meyer Schapiro)


Alice Neel, Meyer Schapiro, 1947
O conceito do estudo da arte como "cultura humanista" é uma sobrevivência da educação clássica, e corresponde à substituição gradual da gramática das línguas clássicas pelo ensino da "civilização" e das artes clássicas. Assim como aquela se tornou uma disciplina estéril tão logo os valores do classicismo contemporâneo morreram em meados do século XIX, o estudo da civilização e das artes clássicas deixou de ter o seu antigo significado humanista quando esse classicismo morreu. A universalização do conceito de arte, de modo a incluir as artes não-clássicas, destruiu o valor original, normativo e ideal, do clássico; e isso ficou evidente na natureza reacionária dos movimentos que tentaram restaurar o classicismo no século XX como valor tanto moral como cultural. Assim, o conceito de "cultura humanista" é infectado por uma parcialidade suspeita em relação ao clássico e ao tradicional; o próprio fato de que a cultura humanista se opõe à científica, apesar do fato de que, para os gregos, as ciências não estavam fora da educação liberal, indica o sentido reacionário desse novo desejo pela "cultura humanista". O "humanista" não é o "humano", ele tem um sabor arcaísta e fede a decrepitude cada vez que é espanado e apresentado como um ideal vivo. Se a arte é um valor potencial para todos hoje em dia, se somos capazes de estudar a arte passada e de países distantes com prazer, é porque não somos nem gregos nem medievais, e sim modernos - e temos tanto uma consciência histórica sobre a nossa posição no tempo como uma concepção melhor sobre o universalmente humano. O rótulo de "cultura humanista" isola as artes e a filosofia das ciências e da vida social, e sugere pretensiosamente que as artes são uma região separada, em que o ser humano realmente se forma, assim como o faziam os pedagogos clássicos do século XIX com o seu ensino de latim e grego.
O fato de que o ensino das ciências, em muitos casos, tenha pouco valor cultural ou civilizatório não justifica a segregação das artes como um contracampo; o mesmo pode ser dito sobre o ensino das artes, que também é notoriamente ruim. Não podemos esperar até que exista uma sociedade melhor.
Se o humanista diz que isso é assunto para os políticos, e não para os humanistas, que o assunto dos humanistas é educar os políticos em tradição, moralidade e cultura, então ou ele acredita que a tradição, a moralidade e a cultura são suficientes para guiar os políticos, e que o ensino das humanidades vai treinar as pessoas para preservar os valores humanistas (caso em que ele deve encontrar os meios para introduzir essa formação humanista, e talvez vá precisar lutar para conseguir isso mas, sem ter os políticos formados em humanismo para lutar por ele, vai ter que abandonar os prospectos para o humanismo em desespero), ou acredita que tudo o que pode fazer é preparar as pessoas para o humanismo, seja isso ou não o suficiente para atingir uma vida boa porque, como erudito, ele só tem um dever, que é o ensino do humanismo.
Reconhecemos que os estudantes das disciplinas humanistas, desde o começo, têm sido responsáveis por alguns dos mais negros crimes da história que, nos campos dos fascistas e dos não-fascistas, são produtos tanto das disciplinas humanistas e não-humanistas, e que, dessas disciplinas, podem-se deduzir tanto políticas de compaixão como de brutalidade, a preservação ou a destruição da arte.
É necessária uma certa complacência sem vergonha para se acreditar que tudo o que houve de bom nos últimos cem anos veio dos ideais humanistas, e que tudo dê mau veio dos antihumanistas. Talvez seja assim, mas então temos que concluir que o humanismo pode ser encontrado em qualquer lugar, talvez menos entre os humanistas.

Worldview in Painting - Art and Society. Pág 111-112.

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