Arte - nos Estados Unidos e na Rússia (Mário Pedrosa)


Naum Gabo, Coluna, 1923
Costuma-se, em certos círculos, acusar os artistas, ditos abstracionistas ou concretos, de fugirem à realidade cotidiana, de escapismo. Estes artistas seriam, assim, adeptos da velha teoria da "arte pela arte", ou do refúgio da "torre de marfim". Ao contrário disso, eles se colocam com os dois pés fincados na realidade do presente. Para eles, a realidade não é "adjetivada" de "socialista", "brasileira" ou "nacional". A realidade, simplesmente, é.

O objetivo com que sonham é precisamente tirar daquelas possibilidades de presente, isto é, de nossa época "neotécnica"segundo a terminologia de Patrick Geddes e de Mumford, uma arte que seja a cristalização do estado de cultura e civilização a que o homem potencialmente atingiu. São todos sujeitos de um robusto otimismo. Por um paradoxo que dá muito a refletir, dentre os jovens artistas modernos, quase que os únicos a denotar pessimismo (nas obras), certa tendência niilista, vivem nos Estados Unidos. Era o caso, por exemplo, de Pollock, morto há pouco tempo e talvez o originador da nova tendência francesa - le tachisme. É o caso de um W. Kooning. O abstracionismo deles, feito, talvez, de reminiscências fauvistas ou expressionistas, se manifesta através de um emaranhado de linhas e de manchas coloridas aparentemente arbitrárias (ou arbitrárias mesmo, Pollock trabalhava com a tela deitada no chão), que se poderia traduzir por uma espécie de solução de desespero, de violência, de certa aquiescência com a desordem espontânea. Nesse ponto o tachisme francês ou parisiense é diferente, e nada tem de inconformista, como o original americano.

Será tal pintura a revelação do desespero do homem que se sente enredado nos fios da máquina descontrolada? Um indício de sedução da desordem pela desordem, a manifestação inconsciente de um desejo coletivo pela autodestruição? Em outros artistas abstracionistas americanos, como Rothko e seus afins, a tendência trai como que uma volta à indefinição, à supressão da linha, da forma definida, ao mundo pequeno burguês desestruturado do impressionismo. Há, no entanto, ali, outro grupo de abstracionistas, como George L. K. Morris, Xeeron e outros, que são diretamente descendentes do cubismo, e bem representativos do otimismo americano no que este tem de melhor e mais aristocratizado.

A arte abstrata nos Estados Unidos é rica de contradições e de correntes opostas. Sua força está nessa variedade, e sobretudo, na extrema liberdade de pesquisas de seus artistas que trabalham não só desamparados dos poderes públicos como, frequentemente, sob a hostilidade destes. (Quem não se lembra das apóstrofes de Truman contra "a arte moderna"?) Mas por isso mesmo ela é uma arte de subversão, de inconformismo, de fé, de participação ativa na vida americana, de que é uma expressão autêntica e, sob certos aspectos, a mais promissora. Se os Estados Unidos fossem um país em que o Estado já fosse senhor de tudo e de todos, como ainda hoje na Rússia, a "doutrina oficial" de sua arte seria a que prevalece neste último país. A proteção "oficial" às artes nem sempre é vantajosa. Encerra perigos, e é uma ameaça perene de estiolação do espírito criador.

A verdade, sem rebuços, é que a corrente conservadora em arte hoje representada pelo chamado "realismo socialista". Resultou da contrarrevolução que se veio processando na Rússia, desde o isolamento nacional em que caiu a revolução, isto é, quando as forças progressistas europeias foram sendo sucessivamente esmagadas até o triunfo wagneriano de Hitler. Sob o signo de Lunatcharski ou de um Bogdanov, Leningrado e Moscou foram palco, nos primeiros anos da revolução, das maiores experiências artísticas em todos os domínios, desde o teatro e a música até a pintura e a escultura, e mesmo a arquitetura. O construtivismo com Pevsner, Gabo e outros nasceu ali, o suprematismo de Malevitch também, enquanto Kandinsky, diretor das artes em Moscou, tentava globalizar e estimular, sob a orientação realmente revolucionária, não só social como técnica e esteticamente, todas as atividades criadoras.

A partida de Gabo e Pevsner, a partida de Malevitch, de Kandinsky que em pouco tempo coincidia com o suicídio de Maiakóvski não foi por acaso. Era o indício de uma reação que principiando no plano aparentemente desinteressado da arte, ia terminar, em pleno obscurantismo stalinista, pela glorificação de Ivan, o Terrível e de Pedro, o Grande, o endeusamento de Stálin, o nacionalismo eslavônico panrusso, a exaltação do ecletismo estilístico na arquitetura e a volta, pura e simples, nas artes plásticas, aos assuntos, à imitação-cópia da realidade imediata o que, em relação ao período de Lênin e de Trotsky é uma estética francamente reacionária, criada outrora pela burguesia, nos seus dias de arrivismo social, cultural e político. E o que se viu, posteriormente, foi que, sob o pretexto de luta pela edificação do socialismo, chamou-se de "realismo socialista" a pura glorificação de uma burocracia privilegiada, dirigente do Estado, transformado em sua propriedade privada, e escravizada à crescente megalomania de Stálin, tirano mais sinistro que Ivan, o Terrível e, pelo menos, tão cruel quanto Hitler.


(Jornal do Brasil, 10.05.1957. Publicado em Política das Artes. São Paulo. Editora EDUSP, 1995, pg. 89-94)

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