As obras de arte como capital fictício


O mercado de arte teve um recorde de vendas em 2014, chegando a negociar 54,9 bilhões de dólares, mais ou menos o PIB do Uruguai. Num momento de crise econômica, uma parte da burguesia está investindo em ativos que têm uma perspectiva quase certa de valorização permanente, como as obras dos grandes mestres do modernismo. Nesse ponto, comprar uma obra de arte não é muito diferente de investir em ouro ou joias.

Aqui no blog eu tenho falado muito de estética, mas também é interessante falar do papel da obra de arte dentro da economia capitalista. O Jameson é um filósofo que defende a tese, inclusive, de que o capitalismo tardio aboliu a autonomia da arte, e que ela faz parte da indústria cultural capitalista, tese de que eu discordo, como vou falar no final. Mas é certo que a arte, agora, além do seu valor de uso estético, é um valor de troca que faz parte do processo de valorização do capital.

Uma obra de arte não é uma mercadoria, o trabalho concreto do artista não se reduz a trabalho abstrato, ou seja, o trabalho para produzir uma obra de arte é único, por isso não é possível estabelecer um nível médio de qualificação e produtividade que permita assimilá-lo ao trabalho "em geral", independente do valor de uso concreto.

Isso é evidente se a gente tentar calcular o "valor" de um obra de arte através dos preços das matérias-primas e da força de trabalho do artista. Como calcular esse valor? Incidentalmente, é por isso que as ladainhas neoclássicas do tipo "qual o valor da Mona Lisa?" não têm sentido.

Mas se uma obra de arte não é uma mercadoria, qual é o papel dela na economia capitalista, principalmente a contemporânea (capitalismo tardio, de acordo com o Ernest Mandel)?

Bem, uma obra de arte funciona não só como reserva de valor, mas principalmente como forma de investimento, até mesmo especulativo. Nesse caso, o lucro não vem nem da produção nem da circulação de mercadorias, e sim da simples valorização da propriedade com o tempo, o que também está diretamente ligado à sua irreprodutibilidade (por exemplo, o Picasso não vai mais produzir nenhuma obra). É chamado, por isso, na teoria marxista, de capital fictício.

O período atual do capitalismo (desde a década de 1970) é marcado pelo crescimento astronômico do capital fictício, principalmente através das bolsas de valores, já que existe uma superacumulação crônica (o desenvolvimento das forças produtivas é tão alto que não tem como o capital acumulado ser investido produtivamente, porque o mercado não tem como absorver). O mercado de arte se tornou simplesmente mais um campo para o capital fictício.

Hirst, A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo
Um exemplo famoso da dominação do capital fictício na arte foi a bolha provocada pelo Damien Hirst nos preços das próprias obras, em 2008, com a colaboração de uma panelinha de amigos, que fizeram vários lances altos no leilão da Sotheby's, pra supervalorizar mais ainda as vendas. No final, o leilão fez o Hirst embolsar 200 milhões de dólares.




E então?

Como eu falei, para o Jameson a arte foi totalmente absorvida pela indústria cultural no capitalismo tardio, e uma das manifestações disso é que o mercado de arte se integrou totalmente à especulação financeira, o que leva inclusive a uma discussão sobre a necessidade dele ser regulado.

O que eu discordo do Jameson é sobre o caráter absoluto dessa absorção da arte (diante do qual o Jameson, coerentemente, só pode propor uma resistência interna ao pós-modernismo). Se não existe propriamente "fora" do capitalismo hoje, quando todos os modos de produção subordinados foram praticamente absorvidos, existe um "fora" que são os elementos embrionários de contrahegemonia, apoiados materialmente seja nas formas antigas ainda não absorvidas (pequena produção camponesa, artistas independentes etc), seja em novas formas embrionárias (pra usar a expressão do Kurz), que prefiguram uma sociedade pós-capitalista.

Nessas condições, ou o artista vira o criador do suporte do capital fictício, ou vira parte do bloco de movimentos que lutam contra o capital. Felizmente, muitos aí escolhem a segunda opção.

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