As madames racistas da Primeira Onda ou A Teoria do Anacronismo


Elizabeth Cady Stanton
Madames racistas

As mulheres da Segunda Internacional que supostamente criaram as bases para o feminismo socialista, na verdade, e pelas suas próprias palavras, eram antifeministas. Ou seja, negavam que existisse uma “questão da mulher” comum a todas as mulheres e, consequentemente, que houvesse necessidade de um movimento específico para resolver essa questão.

Na Resolução sobre o Trabalho entre As Mulheres, do 3° Congresso da Internacional Comunista, que é a base para todas as correntes que reivindicam o leninismo, e que foi escrita pela Alexandra Kollontai e pela Clara Zetkin, está escrito claramente:

O Terceiro Congresso da Internacional Comunista afirma a posição fundamental do marxismo revolucionário de que não existe nem "questão específica das mulheres" nem deve haver um "movimento específico das mulheres".

A prática das mulheres da Segunda Internacional não era tentar empurrar as organizações de mulheres existentes na época para posições revolucionárias, e sim rachá-las em linha de classe. E isso não para criar organizações de mulheres trabalhadoras (como passou a ser o caso a partir do surgimento do feminismo socialista, nos anos 1970), e sim para integrá-las nos sindicatos e partidos junto com os homens trabalhadores.

Até aí, tudo bem. O negócio se complica quando, ao reduzir o feminismo unicamente às reivindicações econômicas e de direitos democráticos das mulheres trabalhadoras, as organizações que se referenciam nas posições da Segunda Internacional precisam explicar por que essas posições tão estreitas eram defendidas na época.

Para isso, entra o Teoria do Anacronismo. Se fala que as reivindicações feministas sobre sexualidade, violência masculina etc, só surgiram na Segunda Onda, e portanto seria anacrônico exigir que as marxistas tivessem levantado essas bandeiras no começo do século XX.

A Teoria do Anacronismo tem alguma sustentação na realidade, porque é fato que a maioria das organizações e militantes feministas da Primeira Onda eram das camadas médias ou da burguesia, o que em geral significou que elas tinham posições liberais ou até reacionárias em outras questões que não fossem diretamente feministas, por exemplo a defesa do voto censitário ou a oposição aos sindicatos.  

Só que essa estratégia depende de um passo fundamental: apagar ou caricaturar a Primeira Onda, retratando como se ela fosse monoliticamente formada por madames racistas que reivindicassem unicamente o direito ao voto.

Esse texto aqui é pra mostrar que essa Teoria do Anacronismo é falsa, e pra mostrar um pouquinho do que foi debatido e organizado na Primeira Onda. Quem quiser ler mais sobre o tema, eu recomendo demais o livro da Sheila Jeffreys, The Spinster and her Enemies, onde ela fala da política sexual da Primeira Onda.


A ala radical do sufragismo

Em primeiro lugar, o sufragismo era dividido em várias organizações, algumas realmente orientadas só pra questão do voto, mas outras combinando essa luta com uma crítica mais geral sobre a situação das mulheres na sociedade.

A luta pelo voto feminino começou nos Estados Unidos, onde aconteceu a primeira conferência sobre os direitos das mulheres, a Convenção de Seneca Falls, em 1848 (isso, no mesmo ano do Manifesto Comunista). Desde aquele momento, a luta pelo voto estava diretamente ligada com o abolicionismo, muitas das participantes da Convenção atuavam nas duas frentes, como era o caso de Elizabeth Cady Stanton e de Lucretia Mott, as organizadoras do evento, e um dos homens que participaram era ninguém menos que o abolicionista Frederick Douglass.

Ainda nessa primeira convenção, foi adotada a Declaração de Sentimentos, que fazia uma crítica geral à situação das mulheres na sociedade indo muito além do voto e tratando de temas como o direito à propriedade e direitos civis das mulheres casadas, emprego, educação, e declarando com todas as letras que

A história da humanidade é a história de repetidas injúrias e da usurpação das mulheres por parte dos homens, tendo como objetivo direto o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre ela.

Depois do fim da guerra civil, que contou com a participação das militantes, inclusive negras, como Sojourney Truth, a polêmica sobre a 15° Emenda, dividiu o movimento pelo voto feminino. A Emenda garantia o voto para os negros, mas restringia a brancos e negros do sexo masculino. Por isso, a ala radical do movimento pelo voto foi, liderada por Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton, foi contra a Emenda, e criou a própria organização, NWSA (Associação Nacional pelo Sufrágio da Mulher), em 1869.

Nos EUA a divisão entre a NWSA e a AWSA (Associação Americana pelo Sufrágio da Mulher), moderada, durou até 1890, até que elas se reunificaram na NAWSA (Associação Nacional Americana pelo Sufrágio da Mulher).

Foi nessa época que aconteceu o primeiro conflito entre marxistas e feministas, que levou à exclusão de Victoria Woodhull dos quadros da Primeira Internacional (AIT), o que é explicado detalhadamente nesse texto do Louis Proyect

A linha da NAWSA era institucional, centrada na estratégia de ganhar os Estados para a proposta de uma nova emenda constitucional. Nos Sul dos EUA, isso significava fazer vista grossa para o racismo e tentar se distanciar das sufragistas negras, como Naomi Anderson, Ida B. Wells e a veterana da guerra civil (e única mulher a dirigir uma operação militar nos EUA) Harriet Tubman.

O movimento voltou a uma política de ação direta a partir da década de 1910 com a NAWSA sob direção de Alice Paul, até a conquista definitiva do voto, em 1920. Paralelamente a WSPU (União Social e Política das Mulheres), dirigida pelas irmãs Pankhurst, na Inglaterra estava fazendo uma campanha parecida, com greves de fome e incêndios em edifícios públicos.

Lembrando que, ao contrário do que muitos marxistas dizem, os primeiros países em que as mulheres conquistaram o direito ao voto foram a Nova Zelândia (1893), Austrália (1903), Letônia (1905) e Finlândia (1906).

Em outros países, a ala radical do sufragismo não chegou a romper com a ala moderada, ficando como oposição, como na Holanda, em que as radicais, como Wilhelmina Drucker (que também era militante da Segunda Internacional), eram uma minoria da VVV (Associação pelos Direitos das Mulheres).

Huda Shaarawi
Aqui só falei dos países onde existiram os movimentos mais importantes, mas houve atividade feminista em todos os continentes durante a Primeira Onda, como a União Feminista Egípcia de Huda Shaarawi, a Associação da Nova Mulher (Japão), de Raicho Hiratsuka ou o Conselho Feminista Mexicano, de Elena Torres Cuéllar e María del Refugio Garcia.

No Brasil, onde não existiu um movimento sufragista de massas, houve algumas militantes feministas da Primeira Onda, desde o século XIX, entre elas Nísia Floresta, provavelmente a primeira feminista latinoamericana, que lutou pela educação feminina e pela abolição. A Maria Lacerda de Moura, que foi por um período anarcoindividualista, mas depois rompeu com o anarquismo, talvez seja a figura mais conhecida desse período no país.


A questão do racismo

Obviamente, como qualquer movimento que surja no centro do sistema mundial, o feminismo, assim como o socialismo, nasceu envolvido dentro da ideologia da supremacia branca. Assim como no movimento socialista, os seus setores hegemônicos consideravam a defesa dos "seus" Estados como do seu interesse e, assim como no movimento socialista, foi necessária uma luta de décadas para que essa situação fosse reconhecida e encarada de frente a frente.

Harriet Tubman
E mesmo assim, ou por isso mesmo, é uma falsificação retratar toda a primeira onda como uniformemente racista. Como já foi mostrado, desde o começo houve uma participação de feministas negras na Primeira Onda (e indígenas na América Latina), e o movimento nasceu aliado à luta abolicionista e muitas de suas integrantes lutaram pelos direitos dos povos indígenas.

Colocar o conjunto da Primeira Onda como racista é apagar a trajetória de sufragistas negras, como a própria Harriet Tubman, Sojourney Truth, entre outras. E apagar o apoio de feministas da Primeira Onda, negras, indígenas e brancas, à luta contra o racismo e o colonialismo, por exemplo o posicionamento de Ida B. Wells contra os linchamentos de negros no Sul dos EUA, ou a participação de Nísia Floresta no abolicionismo.

Outra coisa que é importante lembrar é que o movimento socialista não estava livre do racismo na mesma época, muito pelo contrário. A maioria das correntes antes da Internacional Comunista achava que a dominação colonial das "suas" potências imperialistas era progressiva, porque era a única forma de desenvolver os povos que estavam num estágio atrasado da história.

Essa posição era combatida por setores minoritários, que defendiam a autodeterminação dos povos colonizados e apoiavam as suas lutas pela independência. A obra do Kautsky, Socialismo e Política Colonial, mostra bem como era a correlação de forças, no caso da Alemanha. 

Nos últimos anos, essa crítica "feminismo da Primeira Onda = racismo" foi retomada por organizações pós-modernas, em nome do relativismo cultural, para atacar o feminismo como um todo e negar o caráter patriarcal das culturas dos povos oprimidos.

Assim, por exemplo, a feminista francesa Hubertine Auclert, que escreveu sobre a situação das mulheres árabes na Argélia, ou a inglesa Flora Annie Steel, que protestou contra o costume indiano do sati (em que a viúva era queimada viva quando o marido morria), são consideradas como pró-imperialistas (!!!).

Nada que surpreenda, já que ano passado feministas interseccionais inglesas se aliaram com fundamentalistas islâmicos para tentar impedir que a feminista marxista Maryam Namazie, exilada iraniana, fizesse uma palestra sobre a opressão das mulheres nos países islâmicos!


A política sexual da Primeira Onda

Essa é a parte mais difícil do texto, por causa do tamanho do tema, mais uma vez eu recomendo o livro da Sheila Jeffreys. O que interessa é que boa parte das feministas da Primeira Onda tinham sim uma política sexual, de que eu vou tentar mostrar os temas principais.

Em primeiro lugar, o casamento. Nas condições do século XIX, era necessário mostrar o que estava por baixo da formalidade do contrato de casamento. Já na Declaração de Sentimentos, era exigido o direito à propriedade, assim como os direitos civis das mulheres casadas, que a lei retirava e dava aos maridos. Isso era ainda mais importante nos países coloniais, por exemplo Huda Shaarawi talvez tenha sido a primeira mulher dos países de maioria islâmica a criticar o uso obrigatório do hijab (véu islâmico).

Mas a crítica ao casamento na Primeira Onda foi muito além disso, com militantes como Elizabeth Cady Stanton e Victoria Woodhull colocando pela primeira vez a questão do estupro marital, essa crítica tendo sido a base para a discussão feminista sobre consentimento. Wilhelmina Drucker, na Holanda, defendeu a construção de abrigos para mulheres que tinham sofrido violência doméstica, ainda no final do século XIX.

A Sheila Jeffreys fala no livro das spinsters (solteironas), ou seja, as mulheres, algumas vezes feministas, que recorriam ao celibato como forma de não depender de um homem, e mostra a influência delas na Primeira Onda.

Mas talvez as críticas mais surpreendentes para nós hoje que existiram nessa fase do feminismo são as relacionadas à prostituição e à pedofilia.

Na década de 1880, surgiu o movimento de pureza social (social purity), em parte impulsionados por mulheres das igrejas cristãs, conta o Contagious Diseases Act (Lei das Doenças Contagiosas), que criminalizava as mulheres prostituídas pela transmissão de doenças sexualmente transmissíveis.

Josephine Butler e J. Ellice Hopkins, as representantes do movimento que expressavam maior consciência feminista, colocavam a responsabilidade pela existência da prostituição na dupla moral que permitia que os homens abusassem das mulheres, e defendiam que a solução deveria lidar com a causa do problema, mudando o comportamento sexual masculino.

Essa posição tem pontos em comum com a posição dos anarquistas e marxistas da época, que consideravam a prostituição degradante, mas responsabilizavam pela sua existência o sistema capitalista, sem questionar o papel das formas socialmente dominantes de sexualidade.  

Outra frente de luta para o movimento de pureza social foi a proibição do incesto e da pedofilia. Ao contrário do que muita gente pensa (por exemplo, foi o que eu aprendi militando com os trotskistas espartaquistas), a idade legal de consentimento não é uma legislação que foi imposta pelas igrejas (até o final do século XIX ela estava entre 10 e 12 anos nos países ocidentais), e sim através de campanhas contra a exploração sexual de menores. A idade de 16 anos para consentimento foi conquistada em 1885 na Inglaterra e, por volta de 1920, nos EUA, era entre 16 e 18 anos, dependendo do Estado.   

A partir do começo do século XX, o movimento de pureza social é reabsorvido dentro das práticas tradicionais das igrejas, em parte pelo centro das atenções ter voltado a ser a questão do voto, mas deixando um legado que o liga ao feminismo da Segunda Onda, que também recebeu as mesmas acusações de "moralista" e "puritano".    


Direitos reprodutivos e sexuais


Uma coisa que eu achei interessante é que o livro da Sheila Jeffreys tem um ponto de vista bem negativo sobre os movimentos que defendiam a contracepção e a descriminalização do aborto.

Acho que tem duas coisas relacionadas nisso. A primeira é que geralmente esses movimentos tinham uma matriz teórica malthusiana, diziam que o que causava a fome e a pobreza era a superpopulação, o que é uma tese antissocialista (aliás, esse link também é bom pra mostrar as posições bolcheviques contra o controle de natalidade e o aborto, mesmo que eles defendessem a legalização), e naturalizavam as relações heterossexuais. Por outro lado, existiam sim alas feministas nesses movimentos, assim como também existiam socialistas.

O que eu acho que faz ela tratar esses movimentos de forma diferente da que ela trata o movimento de pureza social (que, no final das contas, também tinha uma maioria conservadora cristã) é ela projetar no século XIX as posições políticas dela, ou seja, o lesbianismo político.

Esse é o maior problema que eu vejo no livro, porque eu concordo com a tese do Marcuse (no Eros e Civilização) de que houve uma mudança na forma do capitalismo administrar a sexualidade a partir dos anos 1950, substituindo o modelo repressivo do século XIX pela dessublimação repressiva, ou seja, a canalização do afrouxamento da repressão sexual pela sociedade de consumo.

Por isso que, por exemplo, no século XIX, a resistência ao casamento heterossexual era quase obrigatoriamente através do celibato, diferente da época da Segunda Onda, que o capitalismo, em parte por pressão do movimento homossexual, mas principalmente porque já podia dispensar a repressão total, deu brechas para a existência pública de relacionamentos homossexuais.

A pessoa mais importante do movimento pelo controle da natalidade foi a militante socialista Margaret Sanger, que criou a primeira clínica de planejamento familiar nos EUA, em 1916, assim como as associações que depois se tornaram a Planned Parenthood, a maior organização não-governamental de planejamento familiar daquele país.

Como parte do backlash contra os direitos reprodutivos, Sanger é muito atacada por ter defendido a eugenia negativa (ou seja, medidas contra a reprodução de pessoas deficientes), o que é verdade, mas não era uma posição exclusiva dela. Pelo contrário, estava difundida em todo o espectro político, basta lembrar que Cesare Lombroso, que defendia posições deterministas biológicas abertamente racistas, era do Partido Socialista Italiano, e que as suas teorias eram aceitas até mesmo por anarquistas (por exemplo, o Kropotkin)! A própria Planned Parenthood escreveu essa resposta às acusações mais comuns.

De qualquer forma, a referência mais antiga que eu encontrei sobre a luta pela legalização do aborto é da feminista alemã Helene Stöcker, que criou a Liga de Proteção das Mães em 1905 e também participou do legendário Comitê Científico Humanitário, a primeira organização de luta pelos direitos das pessoas homossexuais. 

Finalmente, foi dentro do Comitê Científico Humanitário que foi feito (dizem) o primeiro discurso político a favor do lesbianismo, pela feminista Anna Rüling, em 1904 (apesar de que o discurso defendia a concepção uranista do século XIX, ou seja, que as pessoas homossexuais faziam parte de um terceiro sexo, intermediário). Mas vale a pena ler o que ela falou e sentir o deslocamento no tempo!

Bem, essas foram as referências mais antigas que eu encontrei, se alguém conhecer outra anterior, me fala que eu gostaria muito de saber!


A questão da guerra

O começo da Primeira Guerra Mundial foi a causa do maior racha da história do socialismo, com a maioria da socialdemocracia e uma minoria dos anarquistas apoiando os "seus" próprios países durante a guerra. Foi de dentro da minoria antiguerra da socialdemocracia que vieram a direção da revolução russa e a Internacional Comunista.

No feminismo da Primeira Onda, que não fazia uma crítica geral do capitalismo, obviamente o estrago foi muito maior. O caso mais famoso foi o das irmãs Pankhurst (a Sylvia foi contra a guerra e logo depois aderiu à ala esquerda da Internacional Comunista e, depois, a movimentos antiimperialistas), que passaram de uma hora pra outra do pacifismo para  o nacionalismo mais extremo. Nos EUA, o discurso da NAWSA era de que o voto feminino ajudaria no esforço de guerra!

Mas houve a exceção das feministas que fizeram movimentos pacifistas, principalmente através do Comitê de Mulheres por uma Paz Duradoura, dirigido por Anita Augspurg, Mina Cauer e Helene Stöcker (de novo!), que surgiu na Alemanha em 1915, mas com ramificações em todos os países envolvidos na guerra. Nesse movimento, a crítica da guerra como violência masculina numa sociedade dominada pelos homens, e a defesa do voto feminino como medida de reestruturação do poder, criaram uma crítica antimilitarista especificamente feminista.


Conclusão

O meu objetivo aqui foi mostrar as contradições que existiam dentro da Primeira Onda, bem diferente da visão monolítica que existe não só na história ofical como nas versões dominantes da esquerda. E, além disso, mostrar que muitos temas que são considerados como surgidos décadas depois já estavam presentes, de uma forma mais ou menos desenvolvida, na Primeira Onda. Espero que o texto tenha contribuído pra isso.

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