Ciências e política: "diz estudo", "pesquisas comprovam" etc


Meus agradecimentos à Cyntia e ao Luther, que discutiram comigo sobre o rascunho!

franjas de interferência

Eu tenho visto uma tendência na Internet de usar pesquisas científicas recentes na base do pick and choose pra justificar os seus posicionamentos políticos em debates.
Em primeiro lugar, o que é irritante é o critério. Pra usar as palavras do ex-ministro Rubens Ricupero, "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". As pessoas tendenciosamente escolhem as notícias que favorecem o que elas defendem e escondem as outras.
Mas tem dois outros problemas até piores, que são: - não aceitar que uma parte normal do funcionamento das ciências (todas) é a disputa entre explicações alternativas para os mesmos fenômenos. Uma questão não vai ser fechada porque "conclui estudo" que x tá certo e y errado. Muito provavelmente, alguma pesquisa vai sair em pouco tempo, apontando para conclusões diferentes. É só depois de uma série exaustiva de debates, geralmente levando uma geração inteira, que alguma teoria vai se consolidar, quase sempre com modificações.

Um exemplo famoso é o do debate sobre a dualidade partícula-onda na física, de que eu falo aqui. Uma questão levantada na década de 1920 só foi resolvida na de 1960 e, ainda hoje, dá margem para a permanência de utilizações de novas versões na Interpretação das Variáveis Ocultas, por exemplo na astrofísica. - extrapolar os resultados de pesquisas sem as devidas mediações. Isso é bem comum com pesquisas que tentam tirar conclusões sobre a sociedade baseadas nas ciências naturais. Depois de descobrir alguma relação causal, é preciso delimitar o alcance e as condicionantes dela, o que vai envolver muitas vezes uma passagem obrigatória pela história, pela filosofia etc.

Lembrando que "ciências" tá no plural justamente porque cada objeto requer o seu próprio método.

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