Três notas sobre a revolução em “O Reino deste mundo” e “O Cerco”, de Alejo Carpentier - (I)





Resultado de imagem para o cerco carpentierEu gostei muito de O Cerco, e pude reler também O Reino deste mundo, do cubano Alejo Carpentier. O Reino deste mundo, em particular, tem um valor sentimental pra mim, porque a gente leu (Elaine, Renata, Jobson, Antônio, Rafael e eu) esse livro num grupo de estudo em 2002-2003, junto com Jacobinos Negros, do C. L. R. James e O Curto Verão da Anarquia, do Hans Magnus Enzensberger, logo quando eu tava rompendo o anarquismo. O Cerco acontece durante uma execução da Eroica, do Beethoven, então também não tem como não gostar.

Eu achei os livros interessantes também (são duas obras-primas), lendo agora, porque o Carpentier, sendo uma espécie de nacionalista revolucionário, fala sobre os movimentos revolucionários (em O Cerco, a luta contra a ditadura Machado em Cuba, em O Reino deste mundo, sobre a revolução haitiana) levantando sempre várias concepções alienadas que se reproduziram nas cabeças de muita gente da esquerda não só da América Latina. Aí, eu vou falar de três temas que chamaram a minha atenção, sem nenhuma ordem específica.


I.

A primeira coisa que me chamou a atenção é que ele tem uma concepção tradicional da relação entre revolução e masculinidade.

Na teoria feminista radical, a masculinidade não é definida como a característica biológica de pertencer ao sexo masculino. O que é chamado de patriarcado é a criação de relações sociais para enquadrar as diferenças biológicas entre os dois sexos em duas castas sexuais, com o objetivo de garantir o controle da sexualidade das mulheres pelos homens.

A forma como as castas são construídas é através da socialização, ou seja, no mesmo período em que a criança está sendo educada para aprender a se comunicar, andar, ir ao banheiro, comer etc, ela aprende a se enquadrar em toda uma série de comportamentos estereotipados da sua casta.

Esses comportamentos, inculcados desde que a criança nasce, em primeiro lugar pela família e, em menor grau, por todas as outras instituições sociais, se tornam parte da sua personalidade. Os traços de cada casta sexual são, chamados, claro, de masculinidade e feminilidade.


Como disse a teórica Sheila Jeffreys: 

A masculinidade não pode existir sem a feminilidade. Em si mesma, a masculinidade não tem significado, porque ela é somente metade de um jogo de relações de poder. A masculinidade pertence à dominação masculina assim como a feminilidade pertence à subordinação feminina.

Enquanto a feminilidade é o papel passivo, emotivo, cuidador, amável etc (todas características necessárias para a função de servir), a masculinidade é o papel agressivo, racional, frio etc (todas características necessárias para a função de mandar).

Nem todas as características relacionadas aos homens são prejudiciais à mulheres. Muitas delas são simplesmente características positivas que tradicionalmente não são reconhecidas nas mulheres (por exemplo, racionalidade).

Mas todas as características "masculinas" na relação com as mulheres são sim complementares a características "femininas" opostas, para facilitar a dominação de uma casta sobre a outra, mesmo que criem efeitos colaterais contra os próprios homens (por exemplo, incapacidade de se desenvolver emocionalmente).

Portanto, não pode existir libertação das mulheres sem a abolição da masculinidade, ou seja, de todas as práticas que ensinam os homens a controlarem e manipularem as mulheres, assim como da estrutura psicológica que dessensibiliza os homens sobre as violências contra as mulheres. Isso só poderia acontecer com a reformulação de todas as estruturas da sociedade sob ação consciente de um movimento autônomo de mulheres, o que, nas poucas vezes em que aconteceu (de forma embrionária), foi em processos ligados a revoluções socialistas, como na Rússia, na China e, agora, no Curdistão.

O melhor teórico sobre a masculinidade é o John Stoltenberg. Eu recomendo demais o livro dele, Refusing to be a man, para quem quiser entender melhor o assunto, porque agora vou voltar ao tema do texto!

Nos movimentos socialistas ou nacionalistas revolucionários, em geral a masculinidade é tão presente como na sociedade que eles querem transformar, isso quando não existe um culto de uma hipermasculinidade "revolucionária", em que o modelo do militante é o cara que faz enfrentamento com a polícia, que fala friamente em exterminar os inimigos de classe, que é feito de aço, que se dedica de corpo e alma à revolução (o que muitas vezes significa deixar a sua mulher em casa tomando conta dos filhos enquanto ele fica longos períodos longe de casa "criando um mundo novo"), em suma, que tem um estilo de vida militarizado (aqui no Rio de Janeiro tem setores da FIP que ficam orgulhosos de se autointitularem "tropa de choque da revolução").   

Nesse ponto, O Reino deste mundo é mais tradicional na forma de descrever a revolução: as mulheres ou não aparecem ou aparecem como ajudantes dos Grandes Homens que estão fazendo a revolução (poderia ter também a opção de colocar uma mulher de token, tipo a Alexandra Kollontai na maioria das histórias da revolução russa).

A família de Henri Christophe, Maria Luísa, Atenais e Ametista é uma família real dentro dos moldes europeus (aqui o autor está mais preocupado em mostrar a europeização, tanto da revolução como dos "termidorianos" do Haiti), a personagem feminina mais forte, Paulina Bonaparte, termina como estátua naquele velho tropo da beleza sendo eternizada como arte (mesmo que de forma aterrorizante).

Em O Cerco, a mesma forma de retratar as mulheres também aparece, na figura da prostituta Estella (a única personagem com nome próprio do livro) e, em menor medida, na sua antiga ama negra, da qual ele acaba por provocar a morte.

São dois retratos interessantes porque, à primeira vista, parecem críticos (como se o personagem principal fosse a única pessoa que trata Estella como ser humano e como se a obra criticasse a forma como ele trata a sua ama) mas, na verdade, apenas reproduzem temas românticos, colocados como se fossem revolucionários: a prostituta como elemento marginal e a relação dele com a ama como se fosse de parasitismo e ingratidão (o que desloca para o plano moral a questão da estrutura social, a exploração do trabalho doméstico e a supremacia branca).

Mas é em O Cerco que está a representação mais genial que eu vi até hoje da relação entre a masculinidade e a revolução - no caso, a contrarrevolução. O revolucionário resiste sob tortura a todo tipo de dor. Até que:

Y luego de dos días de olvido, sin alimento —sin alcohol, después de tanto beber durante meses— había sido la luz en la cara, y las manos que empuñaban vergajos, y las voces que hablaban de llegarla a las raíces de las muelas con una fresa de dentista, y las otras voces que hablaban de golpearlo en los testículos. La idea del atentado a su sexo se le hizo intolerable, fuera de todo derecho, de todo poder. El había matado, pero no había castrado. Y ahora iban a mutilarlo de sí mismo; iban a secarlo en vida, privándolo del eje donde el cuerpo había puesto su heráldica, sus más íntimos orgullos, alardeando de la infalibilidad de una fuerza a sí debida. Dentro de algunos minutos sería puesto sobre el camino de la vejez, privado de pálpitos futuros, de posesiones innumerables, muerto para otras carnes. Su realidad se quebraba, se desgarraba, bajo las luces encendidas sobre su cara, como las de una sala de operaciones, al sonido de voces cada vez más próximas — espantosamente acrecidas por la resonancia de aquella galería de bajo adarve— que hablaban de herirlo en su lozanía, de emascularlo, de malograrlo, de evirarlo. Las manos que se acercaban a su rictus, el sudor de sus miembros, exasperaban la aprensión de un dolor que le hubiera dolido menos en otra región de su ser. Ahora vendría el desplome de todo; una muerte anterior a la muerte, que habría de sobrellevar a lo largo de inacabables días sin abrazos, cargando con el peso de su propio cadáver. La primera mordida de una pinza le arrancó un grito de bestia, tan largo y desolado, que los otros, tratándolo de cobarde, se lo acallaron de una bofetada. Y cuando volvió a sentir el metal sobre su piel recogida, clamó por la madre, con un vagido ronco que le volvió en estertor y sollozo a lo más hondo de la garganta. Y, con los ojos fijos en las luces que le llenaban las pupilas de círculos incandescentes, abriendo las manos sobre lo suyo, con gesto de recobrarlo, de atraerlo a sí, de reintegrarlo a su carne, empezó a hablar. Dijo lo que quisieron; explicó la perpetración de atentados recientes, y, para menguar sus propias culpas, poniéndose de acólito, de comparsa, pronunció los nombres de quienes, a estas horas, dormían en los divanes de cierta villa de suburbios, o bebían y tallaban cartas en la larga mesa del comedor, con las armas colgadas del espaldar de las sillas. Colmados por tantos informes y revelaciones, los interrogadores aceptaron que él nada supiera de la preparación y envío del libro, causante de dos muertes, atribuyendo el trabajo a la actividad colectiva del equipo. Y cuando el hombre desnudo, asido de su sexo, afirmó que no sabía más, lo devolvieron a su celda, con un cigarrillo en premio de su delación.

O Carpentier é muito feliz em deixar bem claro que não se trata de dor física. O que está em jogo, ali, é a masculinidade. Então, o personagem delata os companheiros. É quase um processo de revolução permanente: como ele não está disposto a levar a crítica ao autoritarismo até o final, ele necessariamente precisa trair a revolução.

Eu digo que a concepção de masculinidade é conservadora porque, como vamos ver na última parte, O Cerco faz uma longa justificativa do abandono da militância revolucionária pelo autor. Mas, nesse livro, acontece o que o Engels e, depois, o Lukács, chamaram de "vitória do realismo": apesar das intenções do autor, a fidelidade da narrativa faz com que a realidade se imponha. Então, essa obra acaba fazendo uma crítica radical da masculinidade e da militância revolucionária tradicional, indo além da própria consciência do autor.

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