Os Despossuídos, a utopia ambígua de Ursula K. Le Guin


A Sabrina Gomes tá editando uma coletânea sobre distopias. Esse foi o texto que eu escrevi pra ela.


Os Despossuídos, a utopia ambígua de Ursula K. Le Guin


Por alguma razão, eu comecei a ler literatura pacifista e também me envolvi em protestos contra a guerra, Banir a Bomba e tudo o mais. Eu fui uma espécie de ativista pacifista por muito tempo, mas eu percebi que eu não sabia muito sobre a causa. Pra começar, eu nunca tinha lido Gandhi.

Então, eu me pus a estudar, e ler aquela literatura, e isso me levou ao utopismo. O que me levou, através de Kropotkin, ao anarquismo, anarquismo pacifista. Em algum momento, me ocorreu que ninguém tinha escrito uma utopia anarquista. Tínhamos utopias e distopias socialistas e todo o resto, mas anarquismo – isso ia ser legal.
(Ursula K. Le Guin, A Arte da Ficção nº 221)


A ficção científica sempre foi, de uma forma mais ou menos aberta, um instrumento de reflexão e crítica social. Os deslocamentos no espaço, tempo e tecnologia servem para isolar um aspecto da nossa sociedade, que será criticado à luz da mudança de ponto de vista provocada pelos deslocamentos.

A Ursula K. Le Guin é uma das escritoras de ficção científica que exerceram mais conscientemente este viés crítico. Fazendo parte da geração da Nova Onda da FC, nos anos 1960, a obra mais conhecida dela é A Mão Esquerda da Escuridão (1969), que fala sobre um planeta em que não pode existir a dominação patriarcal, porque as pessoas mudam de sexo periodicamente.

O universo criado por ela no Ciclo Hainish é um dos mais inteligentes e, ao mesmo tempo, simples no gênero, baseado em três premissas: a impossibilidade de viagens mais rápidas que a luz, a comunicação mais rápida que a luz através dos campos gravitacionais, chamada de audisível, e todas as espécies autoconscientes serem humanoides (porque são derivadas do mesmo processo de colonização interestelar). Só esse universo mereceria um artigo à parte, mas aqui vamos falar especificamente de como ela trata o tema da utopia.

As utopias são um produto da sociedade antropocêntrica que passou a existir com o Renascimento, sendo a primeira obra do gênero a Utopia de Thomas More, de 1516. Isso não quer dizer que não existissem precursores (principalmente a República de Platão, não por acaso fruto da também antropocêntrica Atenas clássica) ou obras anteriores que mostrassem uma sociedade ideal, mas retratando essas sociedades dentro de um contexto religioso, forjadas através de intervenções sobrenaturais. Um exemplo é o Livro de Isaías, na Bíblia. Com a Utopia de More, pela primeira se falam das ações humanas concretas criando uma sociedade perfeita.

 O gênero literário das utopias foi evoluindo com o tempo. Se, na época dos Descobrimentos, as sociedades estavam em ilhas descobertas por navegantes, depois da Revolução Francesa, muitas utopias assumiram um caráter diretamente político, como por exemplo Looking Backward, de Edward Bellamy, que mostra uma utopia socialista e chegou a inspirar um movimento político na época em que foi publicada (1888). É interessante que, no século XIX, existiram tentativas de criar sociedades utópicas reais, algumas vezes diretamente relacionadas com romances utópicos.

Como uma espécie de sombra da ideia de progresso, ainda no final do século XIX surgiram as primeiras obras distópicas. Um exemplo é a sociedade do ano 802.701, que aparece em A Máquina do Tempo, do H. G. Wells (1895), divida entre os Morlocks pálidos e animalescos, que viviam no subterrâneo, e os Elois infantilizados e estúpidos, respectivamente os descendentes do proletariado e da burguesia depois de milênios de conflitos de classe. A Máquina do Tempo não chega a ser uma distopia, porque a época dos Morlocks e Elois é apenas um dos núcleos temáticos do romance, mas deu o tom para várias distopias do século XX.

As distopias tanto podem ser críticas que defendem uma “correção de rumo” do progresso social e tecnológico, quanto podem ser uma condenação da própria ideia de progresso. Mesmo dentro desse quadro, permanece uma divisão binária entre sociedades utópicas, “boas” e distópicas, “ruins”. O grande avanço estético do romance Os Despossuídos, da Ursula K. Le Guin, é justamente a ruptura com esse padrão, já no subtítulo: uma utopia ambígua.

Não que algumas sociedades retratadas nas utopias não fossem insuportáveis, como A Cidade do Sol, de Tommaso Campanella (1623), em que, entre outras idiossincrasias, os casamentos eram regulados pelo mapa astral dos possíveis pretendentes. Mas, ainda assim, os autores estavam imaginando e tentando transmitir a ideia de que as suas utopias seriam a máxima realização da felicidade humana. Já no romance de Le Guin, a vida no satélite anarquista de Anarres é mostrada com todas as contradições que a autora imaginou que poderiam haver numa sociedade sem classes e sem Estado, dando um tom cinzento mesmo às tentativas mais generosas de reorganizar a sociedade.

Claro que o contexto histórico foi um fato muito importante pra impulsionar essa visão desencantada: Os Despossuídos foi escrito em 1974, durante a Guerra do Vietnã e os bombardeios sobre o Camboja, pouco tempo depois que a União Soviética esmagou a tentativa de criar um “socialismo de face humana” na Tchecoslováquia e durante a Revolução Cultural chinesa, com sua perseguição aos intelectuais e completo controle da vida do país pelo partido.

Como reflexo dessa rejeição tanto do capitalismo quanto do stalinismo, Anarres é apresentado como uma alternativa aos dois países que controlam o planeta o qual orbita, Urrás. Urrás vive numa “guerra fria” entre A-Io (capitalista, inspirado nos Estados Unidos) e Thu (stalinista, baseado na União Soviética). A consequência é que uma região pobre do planeta, Benbili foi invadida por A-Io, e está sendo apoiada por Thu, o que é uma referência óbvia à guerra do Vietnã.

Durante o desenrolar da história, ficamos sabendo que Anarres foi criada depois de uma revolução que aconteceu em Urrás cerca de 150 anos antes dos fatos narrados, e que a inspiradora dessa revolução foi uma anarquista chamada Odo, que criou um sistema filosófico completo, que propunha mudanças que afetavam desde a política até a linguagem, passando pelas artes. O movimento chegou a um impasse, e a solução encontrada foi a emigração dos revolucionários para Anarres, onde eles puderam construir uma sociedade anarquista.

Apesar do fio condutor da história ser a viagem do físico Shevek de Anarres para Urrás, onde ele poderá avançar na sua pesquisa sobre comunicação instantânea, as partes mais interessantes são as que mostram as contradições da sociedade de Anarres. Shevek vai descobrindo progressivamente que Anarres caiu numa rotina que vai esvaziando a filosofia revolucionária que norteou a criação daquela comunidade, e o conflito entre a criatividade da descoberta científica e as amarras da burocratização é o motor da narrativa.

A filosofia de Odo está presente nas mais “simples” relações sociais, o que dá um gosto de ver como uma sociedade mudaria, depois de várias gerações sem propriedade nem Estado. Uma cena marcante é a de uma criança que leva uma bronca,e se fala para ela: “você não poder ter as coisas!”. Quer dizer, na língua de Anarres, o próprio verbo ter é um tabu, o que mostra o repúdio à ideia de propriedade.

Ursula K. Le Guin é feminista, e em todas as suas obras existe uma preocupação com as relações entre os sexos, e esse tema não poderia estar ausente de Os Despossuídos. A família nuclear heterossexual foi abolida, e poucas vezes as pessoas continuam em contato com os seus pais biológicos, já que as crianças são criadas em um tipo de comuna relativamente separada dos adultos. Esse aspecto aparece na relação meio hostil de Shevek com a sua mãe biológica, Rulag já que ela não teve muito contato com ele devido à sua carreira profissional.

Muitos personagens são bissexuais em Anarres, inclusive Shevek mas, mesmo assim, o seu relacionamento mais importante é com Takver, uma mineradora. A presença da Takver dá uma abertura interessante no livro, não só por mostrar um relacionamento numa sociedade não-patriarcal, mas porque ela faz parte do único grupo que vivia em Anarres antes da chegada dos revolucionários.

Os mineradores são um tipo de “sociedade alternativa dentro da sociedade alternativa”, uma heterogeneidade na utopia, com uma relação mais “direta” com a natureza. Uma das atividades de Shevek foi trabalhar nas minas, uma expressão da submissão do indivíduo às necessidades sociais, porque o povo de Anarres é deslocado de uma função para a outra de acordo com as prioridades do planeta. Inclusive a pesquisa de Shevek causa atritos em Anarres porque não é considerada produtiva para a sociedade, porque traz a possibilidade de comunicação mais fácil com Urrás e, consequentemente, a penetração de ideias “autoritárias”.

Essa desconfiança em relação aos estudos de Shevek chega ao auge no final do livro, em que Shevek precisa lutar dentro do conselho encarregado das relações exteriores de Anarres para que eles respondam ao pedido de solidariedade vindo de revolucionários odonistas de Benbili. O tema da burocratização do impulso libertário toma uma forma mais direta: será que Anarres vai preferir o isolamento? Esse isolamento purista não será, por si mesmo, uma traição aos ideais de Odo?

São esses temas que criam um claro-escuro na utopia de Ursula K. Le Guin, uma resposta sofisticada a uma época em que as certezas ideológicas estavam sendo corroídas, e em que, por isso, a própria ideia de alternativa de sociedade teve que mudar, reconhecer os próprios limites. A ambiguidade de ser despossuído.

Comentários

Ana disse…
Gostei de ler seu artigo. É difícil achar discussões em português sobre o livro e sobre ela.

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