Manifesto do Gay Liberation Front, em português!



Pela primeira vez em português (que eu saiba), esse manifesto, de 1971, que é um marco do surgimento de uma linha revolucionária no movimento homossexual.

Vou falar algumas palavras (e não vou usar aquela armadilha de transformar essas "algumas palavras" num prefácio) sobre o movimento homossexual.

Bem, foi o David Thorstad, ex-militante do SWP americano, que escreveu pela primeira vez uma história sobre a origem do movimento homossexual, The Early Homosexual Rights Movement 1864-1935.

Pra resumir a história, depois de séculos em que o sexo entre homens era considerado pecado de sodomia, e entre mulheres nem mesmo tinha nome (mas nem por isso deixava de ser punido até mesmo com a morte),  a ciência criou o termo "homossexualismo" (o sufixo indica que entendiam que era uma doença), colocando o assunto dentro do paradigma da psicopatologia.

Na época, Karl Heinrich Ulrichs foi o primeiro defensor dos direitos dos homossexuais. Os grandes criadores do marxismo e do movimento comunista, Marx e Engels, que viveram na mesma época, acharam por bem ficar ridicularizando o movimento homossexual que estava nascendo.

Em 1897, Magnus Hirschfeld criou o Comitê Científico Humanitário, questionando a definição da homossexualidade como doença e exigindo o fim das leis contra os homossexuais, que existiam na Alemanha, assim como em vários países. O Comitê foi apoiado pela socialdemocracia mas, depois que o nazismo chegou ao poder, também foi destruído.

Na Rússia, sob influência da socialdemocracia alemã, o POSDR de Lênin defendeu o fim das leis contra a homossexualidade, e realmente as aboliu depois da revolução de outubro. Nem precisa dizer que o Stálin, como parte da contrarrevolução burocrática, voltou a proibir a homossexualidade.

Lendo os documentos da época, dá pra ver claramente que os socialistas eram contra a proibição da homossexualidade porque achavam que ela era uma doença e, portanto, não devia ser tratada como caso de polícia. O grande revolucionário Wilhelm Reich, que muitos consideram o suprassumo da política sexual, falava exatamente a mesma coisa. Não foi a primeira vez (muito menos a última) que o movimento socialista se mostrou mais atrasado que os setores de classe média que tentavam encontrar uma política correta para as suas lutas específicas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, numa conjuntura de volta da democracia, mas ainda sob o impacto do esmagamento das tradições revolucionárias, o movimento homossexual se constituiu como movimento homófilo (como uma forma de se mostrar mais "respeitável", falando de amor em vez de sexo), que se organizou como Comitê Internacional pela Igualdade Sexual.

A seção americana, a Mattachine Society (Sociedade dos Mascarados) foi fundada em 1950 por Harry Hay, ex-militante do PC americano, junto com membros da ISL, organização trotskista dissidente. Em 1955, também nos EUA, surgiu The Daughters of Bilitis (As Filhas de Bilitis), a primeira organização de lésbicas, que funcionava clandestinamente, disfarçada de clube de leitura (!!!).

Foi a revolta de Stonewall que ultrapassou os limites e esvaziou o movimento homófilo, abrindo o caminho para o Gay Liberation Front (Frente de Libertação Gay), com uma linha de ação direta e claramente anticapitalista. O GLF americano foi formado em 1969, e o inglês em 1971, ao mesmo tempo em que surgiam as primeiras organizações na França, como as Gouines Rouges (Sapatonas Vermelhas). e a FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária, do grande marxista libertário Daniel Guérin).

Aqui no Brasil, o movimento homossexual surgiu em 1978, com o jornal Lampião na Esquina, e a formação do grupo Somos, de São Paulo, seguido um ano depois pelo Coletivo Lésbico-Feminista (SP). O Somos/RJ surgiu na minha gloriosa pátria de Duque de Caxias. A Convergência Socialista (CS), que depois ia virar o PSTU, participou de todos esse processo e criou, em 1980, a Fração Homossexual da CS, que eu acho que até hoje foi a organização mais avançada do movimento homossexual brasileiro. Se eu pegar o programa da FHCS, vou piratear aqui no blog.

Enquanto o GLF americano acabou em 1972, por causa da crise provocada pelo seu apoio ao Vietcong (que perseguia os homossexuais no Vietnã), o GLF inglês durou até o final da década de 1970, quando os efeitos da crise mundial, a desintegração do bloco soviético e a epidemia de AIDS deceparam o movimento homossexual, criando a hegemonia das ONGs financiadas pelo Estado e operando dentro da institucionalidade, que é o cenário até hoje.

Não cabe aqui analisar politicamente o manifesto mas, se vocês quiserem, a gente pode debater sobre isso nos comentários.

Sobre a tradução: em inglês, se usa a palavra "gay" pra todas as pessoas homossexuais, independente do sexo. Mantive isso, porque o texto sempre procura ser inclusivo. Mantive o nome do grupo em inglês porque, como me ensinou o meu amigo Márcio Monteiro, nome de organização não se traduz (como não se traduz SPD, SWP, RAF etc). "Straight" é uma gíria, que eu traduzi por "careta", como se fala aqui no Brasil. As gírias eu traduzi para os equivalentes atuais (não sei se foi uma boa ideia). Butch/femme não têm correspondente em português, então eu traduzi pelo contexto, algumas vezes por "masculina"/"feminina", que eu acho péssimo, mas não tive ideia melhor.

A edição de aniversário, que eu traduzi, está aqui.


Manifesto do Gay Liberation Front


Introdução

Através de toda a história registrada, os grupos oprimidos se organizaram para lutar pelos seus direitos e suas necessidades. Os homossexuais, que foram oprimidos com violência física e ataques ideológicos e psicológicos em todos os níveis de interação social, finalmente estão ficando com raiva.

Para vocês, nossas irmãs e irmãos gays, dizemos que vocês são oprimidos, nós queremos mostrar exemplos do ódio e medo com que a sociedade careta nos relega à posição e tratamento de sub-humanos, e explicar a base disso. Nós mostraremos como podemos usar a nossa ira justa para destruir o atual sistema opressivo, com a sua ideologia decadente e restritiva, e como nós, junto com outros grupos oprimidos, podemos começar a formar uma nova ordem, e um estilo de vida liberado, a partir das alternativas que oferecemos.


Como somos oprimidos

Família

O opressão das pessoas gays começa na unidade mais básica da sociedade, a família, que consiste no homem que manda, numa escrava como esposa, e seus filhos, que eles forçam a tomá-los como seus modelos ideais. A própria forma da família trabalha contra a homossexualidade.

Em algum momento, quase todas as pessoas gays acham difícil lida com as imagens restritivas de homem ou mulher impostas pelos seus pais. Pode ser desde bem cedo, quando as pressões para brincar com os brinquedos "certos" e, assim, provar que é menino ou menina, vão contra as inclinações das crianças. Mas, para todos nós, o problema é certo na época da adolescência, que se espera que provemos aos nossos pais que somos socialmente considerados membros do sexo certo (levando pra casa um namorado ou namorada), e comecemos a ser um jovem "de verdade" (opressor) ou uma jovem "de verdade" (oprimida). As tensões podem ser muito destrutivas.

O fato de que as pessoas gays percebem que são diferentes dos outros homens e mulheres na situação familiar os faz sentir envergonhados, culpados e fracassados. Quantos de nós realmente ousaram ser honestos com os pais? Quantos de nós foram expulsos de casa? Quantos de nós foram pressionados a se casarem, mandados para psiquiatras, aterrorizados pela inércia sexual, ostracizados, banidos, destruídos emocionalmente - tudo pelos nossos pais?


Escola

As experiências familiares podem ser muito diferentes mas, na educação, todas as crianças confrontam a mesma situação. A escola reflete os valores da sociedade em seu currículo acadêmico formal, e os reforçam na sua moralidade e disciplina. Os meninos aprendem esportes competitivos e que reforçam o ego, e têm mais oportunidades na ciência, enquanto às meninas se enfatizam os assuntos domésticos, tricô etc. Mais uma vez, nós gays somos forçados a papéis sexuais rígidos que não queremos nem precisamos. É muito comum disciplinar as crianças porque elas se comportam de alguma maneira como o sexo oposto: títulos degradantes como "mariquinha" e "moleque" são muito usados.

No conteúdo da educação, a homossexualidade geralmente é ignorada, mesmo onde sabemos que ela existe, como na história e na literatura. Mesmo a educação sexual, que tem sido considerada uma nova dinâmica liberal na escola secundária, mostra ser pouco mais que uma extensão da moralidade cristã. A homossexualidade, novamente, é ignorada ou atacada com admoestações moralistas e condenações. O adolescente, reconhecendo a sua homossexualidade, pode se sentir totalmente sozinho no mundo, ou um fracasso patológico.


Igreja

A educação religiosa forma ainda é parte do ensino de todos, e toda a nossa estrutura legal é supostamente baseada no cristianismo, cujos ensinamentos arcaicos e irracionais defendem a família e o casamento como a única condição em que o sexo é permitido. As pessoas gays tem sido atacadas como abominações e pecadores desde o começo tanto do judaísmo como do cristianismo e, mesmo se hoje a Igreja está diminuindo as restrições à homossexualidade, a sua nova ideologia é que as pessoas gays são objetos patéticos de simpatia.


A mídia

A imprensa, o rádio, a televisão e a publicidade são usados como mais um reforço contra nós, e tornam possível o controle do pensamento do povo numa escala sem precedentes. Entrando na casa de todos, afetando a vida de todos, os donos da mídia, todos eles representantes do mundo dos ricos, controlado pelos homens, podem exagerar ou suprimir qualquer informação que seja do seu interesse.

Sob circunstâncias diferentes, a mídia poderia não ser a arma de um pequena minoria. Os presentes donos são, portanto, defensores dedicados do jeito que as coisas são. Devido a isso, as imagens das pessoas que eles transmitem nas suas fotos e palavras não subvertem, e sim reforçam, a imagem social do homem e da mulher "normais". Segue-se que somos caracterizados como pervertidos obscenos e escandalosos, monstros sexuais selvagens e sem controle, amaldiçoados patéticos e degenerados compulsivos, enquanto a verdade é coberta por uma conspiração de silêncio.


Palavras

A moralidade e a ideologia antihomossexuais, em cada nível da sociedade, se manifestam num vocabulário especial para denegrir as pessoas gays. Existe abuso, como "viadinho", "bicha", "sapatão", para ser gritado para homens e mulheres que não podem ou não querem se adequar a estereótipos preconceituosos. Existem palavras como "doente", "pervertido" e "tarado", para desacreditar pessoas gays. Mas não existem palavras positivas. A intenção ideológica da nossa linguagem deixa bem claro que a geração de palavras e significados está, no momento, nas mãos do inimigo. E que tantas pessoas gays finjam que são caretas, e chamem os outros de "sapatão" ou "bichas loucas", torna isso ainda mais real. Os ataques verbais a homens e mulheres que não se comportam como deveriam reflete a ideologia da superioridade masculina. Um homem que se comporta como uma mulher é visto como se estivesse perdendo alguma coisa, e uma mulher que se comporta como um homem é derrubada por ameaçar o ambiente ou os privilégios dos homens.


Emprego

Se a nossa formação produz, tantas vezes, culpa e vergonha, a experiência de uma pessoa gay adulta é opressiva sob todos os aspectos. No ambiente de trabalho, as pessoas gays encaram a tortura de gastar quase cinquenta anos de suas vidas confrontados com a hostilidade antihomossexual de seus colegas de trabalho.

Uma consequência direta do fato de que praticamente todos os patrões são homens heterossexuais altamente privilegiados é que existem algumas áreas de trabalho fechadas para as pessoas gays, e outras em que elas sofrem compulsão a entrar. Um resultado desse controle para as mulheres gays é que elas são percebidas como uma ameaça ao mundo dos homens. Elas não têm nenhum dos laços sexuais com homens que fazem a maioria das mulheres aceitarem os homens como seus "superiores". Elas têm menos chances de ter filhos e, assim, não existe nada para impedi-las de mostrarem que são tão capazes quanto qualquer homem, dessa forma desinflando o ego dos homens, e desmascarando o mito de que só os homens podem exercer empregos importantes. Nós somos excluídos de muitos empregos em setores em que ser casado é uma garantia de respeitabilidade, mas ser homossexuais aparentemente nos torna instáveis, de pouca confiança diante de riscos à segurança. Por exemplo, não nos é permitido o trabalho no ensino infantil, porque somos considerados maníacos compulsivos e estupradores de crianças. Existem milhares de exemplos de pessoas perdendo seus empregos porque as pessoas souberam que eles são gays, mesmo que os patrões inventem todo tipo de "razões" espúrias.

Acontece, por outro lado, em certos empregos, tanta concentração de pessoas gays que os torna guetos ocupacionais. Isso acontece, para as mulheres, nas forças armadas, motoristas de ambulâncias e outras ocupações uniformizadas. E, para os homens, na moda, entretenimento e teatro, todos casos em que os papeis de "homens" e "mulheres" podem, talvez, ser diminuídos ou até revertidos.


Na Lei

Se você vive na Escócia ou Irlanda, se você tem menos de 21 anos, ou mais de 21 e está fazendo sexo com alguém com menos de 21, se você é das forças armadas ou da marinha mercante, se você faz sexo com mais de uma pessoa ao mesmo tempo e é um homem gay, você está infringindo a lei.

A Lei de Delitos Sexuais de 1967 deu uma permissão limitada aos homens gays adultos. A common law, mesmo assim, pode nos restringir de falar sobre e publicizar a homossexualidade, tanto masculina como feminina, classificando-a como "imoral". Além disso, existe uma série de delitos menores. Mesmo que o "ato" não seja ilegal, perguntar se alguém quer ir para a cama com você pode ser considerado "solicitação para ato imoral", e beijar em público é classificado como "atentado ao pudor".

Mesmo se isso tudo não causar problemas, você pode ser impedido pela aplicação da lei nos seus esforços de morar junto, cuidar dos filhos, e expressar seu amor tão livremente como as pessoas caretas podem fazer.

As práticas da polícia ao "garantir" a lei dão certeza de que garotos de programa e pessoas na pegação serão caçados zelosamente, enquanto os espancadores de gays podem ser detidos, de má vontade, depois do acontecido.


Violência Física

Em 25 de setembro de 1969, um homem andava em Wimbledon Common. Sabemos que o Commom é uma área de pegação muito popular, e achamos que o homem é um dos nossos irmãos gays. Sendo ou não o caso, esse homem foi pego por um grupo de jovens de um conjunto próximo e foi literalmente espancado até a morte com tacos e botas. Depois, um garoto do mesmo conjunto disse: "Quando você tá batendo numa bicha, não pensa que tá fazendo alguma coisa errada. Você acha que tá agindo certo. Se você quer pegar dinheiro de uma bicha, você pode pegar - não precisa ter medo da lei, porque você sabe que eles não vai à polícia". (Sunday Times, 21/07/1971).

Depois disso, outro homem foi assassinado de forma semelhante em Hampstead Heath. Mas o assassinato é apena a forma mais extrema de violência a que estamos expostos, por não termos direito efetivo à proteção. O mais comum é "perdermos" nosso dinheiro ou apanharmos: e isso acontece com mulheres com aparência com aparência masculina em alguns distritos.


Psiquiatria

Uma forma de oprimir as pessoas e impedi-las de ficarem com raiva disso é convencê-las, e a todos os outros, de que elas são doentes. Portanto, surgiu um corpo de "teoria" e "terapias" psiquiátricas para lidar com os "problemas" e "tratamento" da homossexualidade.

Tendo em mente o que descrevemos até então, é muito compreensível que as pessoas gays fiquem deprimidas e paranoicas; mas também é, claro, parte do esquema que as pessoas gays tenham que ir aos psiquiatras quando têm problemas.

Agindo como eles agem, baseados na convenção social e no preconceito, e NÃO na verdade científica, a psiquiatria oficial aceita a visão prevalecente de que os papeis sexuais masculinos e femininos são "bons" e "normais", e tentam ajustar as pessoas a eles. Se isso der errado, dizem aos pacientes a se "aceitarem" como "desviantes". Para o psiquiatra, declarar que a homossexualidade é perfeitamente válida e satisfatória, e que o problema está na incapacidade da sociedade aceitar este fato, resultaria na perda de grande parte de seus pacientes.

O "tratamento" psiquiátrico pode tomar a forma ou de uma "psicoterapia" para dobrar a mente, ou de terapia de aversão, que se baseia na simplória teoria do condicionamento de que, se você atinge uma pessoa duramente, ela vai fazer o que você quer. Outro tipo de "terapia" é a castração química, e existe outra forma de "tratamento" que consiste em inutilizar parte do cérebro, com o objetivo (geralmente sem sucesso) de transformar o sujeito num vegetal assexuado.

Entretanto, essas "terapias" não são a fonte do poder dos psiquiatras. O seu poder social vem dos argumentos fáceis e perigosos com que eles tentam justificar o preconceito de que a homossexualidade é má ou infeliz, ampliando esse ataque fundamental ao nosso direito de fazer o que achamos melhor. Nesse sentido, existe pouca diferença entre o psiquiatra que diz: "A partir das estatísticas, podemos mostrar que a homossexualidade está ligada à loucura", e o que diz: "A homossexualidade é infeliz porque é socialmente rejeitada". O primeiro é um idiota perigoso - ele não consegue ver que é a sociedade que enlouquece os homossexuais. O segundo é um verme, porque ele vê isso, mas fica conscientemente do lado dos opressores.

Que os psiquiatras tenham tanta credibilidade e tanto dinheiro é surpreendente, se lembrarmos dos desacordos histéricos sobre teoria e prática no seu campo, e do fato de que, ao formularem as suas opiniões, eles raramente consultam as pessoas gays. Na verdade, no limite do possível, eles evitam de qualquer forma falar conosco, porque eles sabem que tal confronto destruiria as suas teorias.


Autoopressão

O sucesso final de todas as formas de opressão é a nossa autoopressão. A autoopressão é alcançada quando a pessoa gay adota e internaliza a definição das pessoas caretas sobre o que é bom e o que é mau. Autoopressão é dizer: "quando você chega a esse estágio, você é um anormal". Ou fazer o que você mais precisa e mais quer, mas sentindo vergonha e relutância, ou num estado de dissociação, fingindo que não está acontecendo; indo à pegação ou prostituição não porque você gosta, mas sim porque você tem medo de qualquer coisa menos anônima. Autoopressão é dizer: "Eu me aceito como eu sou", querendo dizer: "Eu aceito que eu sou uma pessoa de segunda classe e patética". Autoopressão é todo tipo de desculpas: "Nós vivemos juntos há dez anos e todos os nosso amigos casados sabem sobre nós e pensam que somos iguais a eles". Por quê? Porque vocês não são.

Autoopressão é a lésbica feminina que diz "Não aguento essas sapatonas que parecem umas caminhoneiras", o homem gay viril que balança a cabeça, pensando "nessas bonecas patéticas". Isso é autoopressão, porque é somente outra forma de dizer: "Sou um gau normal, como qualquer heterossexual atraente". A mais autoopressão é evitar confrontar a sociedade careta e, dessa forma, causar mais hostilidade: autoopressão é dizer e acreditar: "Não sou oprimido".


Por que somos oprimidos

As pessoas gays são oprimidas. Como acabamos de ver, encaramos o preconceito, a hostilidade e a violência da sociedade careta, e as oportunidades de trabalho e lazer são restritas para nós, comparadas com as das pessoas caretas. Não deveríamos exigir reformas que nos dessem tolerância e igualdade? Certamente sim - numa sociedade liberal-democrática, igualdade legal e proteção contra ataques são o mínimo do mínimo que deveríamos pedir. São nossos direitos civis.

Mas a libertação gay não significa apenas reformas. Ela significa uma mudança revolucionária em toda a nossa sociedade. Isso é realmente necessário? Já não é difícil o bastante para nós ganharmos reformas dentro da sociedade atual, como vamos ganhar o apoio das pessoas caretas se nós nos definirmos como revolucionários?

As reformas podem melhorar as coisas por um tempo, as mudanças nas leis podem tornas as pessoas caretas um pouco menos hostis, um pouco mais tolerantes - mas as reformas não podem mudar a atitude entranhada das pessoas caretas, de que a homossexualidade é, na melhor das hipóteses, inferior à sua própria forma de vida, na pior das hipóteses, uma perversão doentia. É preciso mais do que reformas para mudar essa atitude, porque ela está enraizada na mais básica instituição da nossa sociedade - a Família Patriarcal.

Todos fomos levados a acreditar que a família é a fonte da nossa felicidade e do nosso conforto. Mas, olhemos para a família mais de perto. Dentro da pequena unidade familiar, em que o homem dominante e a mulher submissa criam seus filhos à sua própria imagem, todas as nossas atitudes sobre a sexualidade são aprendidas bem cedo. Quase antes de podermos andar, certamente antes de podermos pensar por nós mesmos, aprendemos que existem alguns atributos que são "femininos" e outros que são "masculinos", e que eles foram dados por Deus e são imutáveis. Crenças aprendidas tão cedo são muito difíceis de mudar mas, na verdade, são crenças falsas. O que nos falam sobre as diferenças entre homens e mulheres é propaganda, e não verdade.

A verdade é que não existem diferenças sistemáticas comprovadas entre homens e mulheres, além das óbvias, as biológicas. Os órgãos genitais e aparelhos reprodutivos masculinos e femininos são diferentes, assim como certas características físicas, mas todas as diferenças de temperamento, aptidões e assim por diante, são o resultado da criação e de pressões sociais. Elas não são inatas.

Os seres humanos podem ser muito mais diversos do que os nossos padrões restritos de "masculino" e "feminino" permitem - nós deveríamos ser livres para nos desenvolvemos com mais individualidade. Mas, como as coisas são atualmente, só existem estes dois papeis estereotipados em que se supõe que todos devem se encaixar, e a maioria das pessoas - incluindo os gays também - ficam alarmados quando veem esses estereótipos ou papeis de gênero sendo atacados, temendo que as crianças "não vão saber como crescer se não têm ninguém com quem se identificar" ou que "todos serão iguais", ou seja, que haverá ou o caos ou a conformidade total.

Na verdade, haveria maior variedade de modelos e mais liberdade de experimentação, mas não existe razão para supor que isso vai levar ao caos.

Pela nossa própria existência como pessoas gays, nós desafiamos esses papeis. Pode-se ver facilmente que os homossexuais não se encaixam nos estereótipos de masculino e feminino, e que isso é uma das maiores razões  porque viramos objeto de suspeita, já que ensinam a todos que estes e apenas estes papeis são os apropriados.

Toda a nossa sociedade é construída ao redor da família patriarcal e seu encastelamento de papeis masculinos e femininos. A religião, a moralidade popular, a arte, a literatura, os esportes, tudo reforça esses estereótipos sexuais. Em outras palavras, essa sociedade é uma sociedade sexista, em que o seu sexo biológico determina quase tudo o que alguém faz e deixa de fazer, uma situação em que os homens são privilegiados e as mulheres são meros apêndices dos homens e objetos para o seu uso, sexualmente e de outras maneiras.

Como, desde cedo, todas as crianças são ensinadas que os meninos têm que ser agressivos e aventureiros, e que as meninas têm que ser passivas e flexíveis, a maioria das crianças tendem a se comportar dessa forma quando crescem, e a acreditar que as outras pessoas deveriam fazer o mesmo.

Assim, o sexismo não só é contra as pessoas gays, mas contra todas as mulheres também. Se assume que, porque as mulheres têm filhos, elas têm que criá-los e, ao mesmo tempo, que ser excluídas de todas as outras esferas de realização.

Entretanto, como a doutrinação das criancinhas com essas atitudes não é sempre totalmente bem-sucedida (se fosse, não haveria pessoas gays, pra começar), as ideias incutidas nas crianças pequenas quase inconscientemente devem ser reforçadas nas crianças mais velhas e adolescentes pelo chauvinismo masculino conscientemente expresso: a expressão ideológica da superioridade masculina. O chauvinismo masculino não é ódio às mulheres, mas os chauvinistas aceitam as mulheres apenas sobre a base de que elas são, na verdade, seres inferiores. É uma expressão do poder e do privilégio masculinos e, mesmo sendo possível um homem gay ser chauvinista masculino, a sua própria existência também questiona o chauvinismo masculino, à medida em que ele rejeita o seu papel masculino supremacista sobre as mulheres e, talvez particularmente, se ele rejeita as qualidades "masculinas".

É por causa da família patriarcal que as reformas não são o suficiente. A liberdade para as pessoas gays nunca serão conquistadas permanentemente até que todos estejam libertos da interpretação de papeis sexistas, e da camisa de força das regras sexistas sobre a nossa sexualidade. E não seremos libertos disso enquanto cada nova geração segue no mesmo caminho sexista na família patriarcal.

Mas por que não podemos simplesmente mudar a forma de criar as crianças sem tentar transformar toda a fábrica da sociedade?

Porque o sexismo não é apenas um acidente - é uma parte essencial da nossa sociedade atual, e não pode ser mudado sem toda a sociedade mudar junto. Em primeiro lugar, a nossa sociedade é dominada em todos os níveis pelos homens, que têm interesse em preservar o status quo; em segundo lugar, o atual sistema de trabalho e produção depende da existência da família patriarcal. Sociólogos conservadores mostraram que a pequena unidade familiar de dois pais e seus filhos é essencial na nossa sociedade industrial avançada contemporânea, onde o trabalho é detalhadamente subdividido e altamente regulado - em outras palavras, entediante para a maioria. Um homem não poderia trabalhar na linha de montagem se não tivesse mulher e família para sustentar, ele não se entregaria completamente para esse trabalho sem o pequeno grupo apoiador e que dá segurança, preparado para segui-lo e se vincular às suas necessidades, para melhorar o seu mau humor quando ele está frustrado ou ficou chateado com o chefe.

Se não fosse pela esposa cativa, educada pela propaganda e por tudo o que lê a acreditar que ele precisa sempre de mais bens para a casa, para a sua própria beleza e para o bem-estar das crianças, o nosso sistema econômico não poderia funcionar corretamente, dependendo como ele depende das pessoas comprarem muito mais bens manufaturados do que precisam. A dona de casa, obcecada com a propriedade de tantos bens materiais quanto for possível, é o agente desse alto nível de gastos. Nenhum desses bens vai satisfazê-la, já que sempre existe alguma coisa melhor para ser adquirida, e o excesso dessas pseudonecessidades vai de mãos dadas com a ausência de bens e serviços realmente necessários, como habitação e escolas adequadas. A ética e a ideologia da nossa cultura foi convenientemente resumida pelo inimigo. Aqui está uma citação, dita com seriedade, de um psiquiatra americano de destaque. O autor, Dr. Fred Brown, diz:

Os nossos valores na civilização ocidental são baseados na santidade da família, no direito à propriedade, e na dignidade de estar sempre à frente. A família só pode ser estabelecida através da penetração heterossexual, e isso dá um alto valor à mulher (notem a forma como a mulher é apreciada como uma forma de propriedade). A aquisição de propriedade e o sucesso mundano são vistos como objetivos distintamente masculinos. O indivíduo que é exteriormente masculino mas parece cair na classe feminina em razão da sua preferência por outros homens nega esses valores à nossa civilização. Negando-os, ele diminui esses objetivos que têm peso e muita carga emocional na nossa sociedade e, assim, ganha a hostilidade daqueles para quem esses valores são de grande importância".

Nós concordamos com essa descrição da nossa sociedade e de seus valores, mas chegamos a uma conclusão diferente. Nós, homens e mulheres gays, negamos os valores da nossa civilização. Nós acreditamos que a sociedade que o Dr. Brown descreve é uma sociedade má. Nós acreditamos que o trabalho numa sociedade industrial avançada pode ser organizado em linhas mais humanas, com cada emprego mais variado e mais prazeroso, e que a forma em a sociedade está organizada presentemente funciona no interesse de um pequeno grupo dominante de homens caretas que têm a maior parte do status e do poder, e não no interesse do povo como um todo, Nós também acreditamos que os nossos recursos econômicos poderiam ser usados de uma forma mais valiosa e construtiva do que estão sendo no momento - mas isso não vai mudar até que o padrão atual de domínio masculino na nossa sociedade mude também.

É por isso que qualquer reforma que possamos arrancar com muito esforço dos nossos dominadores seria frágil e vulnerável; é por isso que nós, junto com o movimento de mulheres, devemos lutar por algo mais que a reforma. Devemos ter como objetivo a abolição da família, para que o sistema sexista e supremacista masculino não possa ser alimentado ali.


Nós podemos

Mesmo que essa luta seja difícil, e que as nossa vitórias não sejam fáceis, na verdade não estamos sendo idealistas em querer abolir a família e as distinções culturais entre homens e mulheres. Verdade, eles têm estado aqui durante toda a História, mas ainda assim a humanidade finalmente chegou a uma posição em que podemos progredir além disso.

Só os conservadores e reacionários acreditam na ideia do "homem natural". Exatamente o que diferencia o homem do resto do reino animal é a sua "inaturalidade". A civilização, na verdade, é a nossa evolução para longe das limitações do ambiente natural, rumo a seu controle cada vez mais complexo. Não é "natural" viajar de avião. Não é "natural" tomar remédios e fazer operações. As roupas e sapatos não nascem em árvores. Os animais não cozinham. Essa evolução é possibilitada pelo desenvolvimento da tecnologia - ou seja, de todas as ferramentas e habilidades que nos ajudam a controlar o ambiente.

Nós atingimos um estágio em que o próprio corpo humano, e até mesmo a reprodução da espécie, está sofrendo interferências "não-naturais" (ou seja, sendo melhorados) pela tecnologia. A reprodução era completamente deixada aos processos biológicos herdados de nossos ancestrais animais, mas a ciência moderna, diminuindo drasticamente a mortalidade infantil, tornou desnecessário as mulheres terem mais do que dois ou três bebês, enquanto os contraceptivos tornaram possível o controle consciente da gravidez e liberaram a sexualidade da reprodução. Hoje, avanços posteriores estão à beira de tornar possível que as mulheres sejam totalmente liberadas da sua biologia, através do desenvolvimento de úteros artificiais. A mulheres não precisam mais suportar a produção das crianças como a sua principal tarefa na vida, e no futuro precisarão menos ainda.

O sistema de papeis de gênero atual, de "masculino" e "feminino", é baseado na forma em que a reprodução era organizadas originalmente. A liberdade dos homens em relação ao fardo físico prolongado de carregar as crianças os deu a posição privilegiada que, depois, foi reforçada por uma ideologia da superioridade masculina. Mas a tecnologia agora avançou a um ponto em que esse sistema de papeis de gênero não é mais necessário.

Mesmo assim, a evolução social não acontece automaticamente junto com o rápido avanço tecnológico. O sistema de papeis de gênero e a unidade familiar construída em torno dele não vão desaparecer simplesmente porque deixaram de ser necessários. A cultura sexista dá aos homens caretas privilégios que, como os de toda classe privilegiada, não vão ser abandonados sem luta, portanto todos nós que somos oprimidos por essa cultura (as mulheres e as pessoas gays), devemos nos juntar para lutar. O fim da cultura sexista e da família beneficiará todas as mulheres e as pessoas gays. Nós devemos trabalhar juntos com as mulheres, já que a opressão delas é a nossa, e trabalhando juntos podemos aproximar o dia da nossa libertação comum.


Um novo estilo de vida

Na seção final, vamos delinear alguns dos passos práticos que a libertação gay vai dar para fazer essa revolução. Mas, ligada a essa luta para mudar a sociedade, está outro aspecto da libertação gay que podemos começar a construir aqui e agora - um ESTILO DE VIDA NOVO e LIBERADO, que vai antecipar o máximo possível a sociedade livre do futuro.

Os gays mostram a vocês. Em certas coisas, já somos mais avançados que os caretas. Nós já estamos fora da família e, em parte pelo menos, já rejeitamos os papeis "masculinos" e "femininos"  que a sociedade nos designou. Numa sociedade dominada pela cultura sexista é difícil, senão impossível, para os homens e mulheres heterossexuais, escapar da rígida estruturação de papeis de gênero e dos papeis de opressor e oprimida. Mas os gays não precisam oprimir as mulheres a fim de realizar as suas próprias necessidades psicossexuais, e as mulheres gays não têm que se relacionar sexualmente com o opressor masculino, então, nesse momento, relacionamentos mais livres e mais igualitários são mais prováveis entre homossexuais .

Mas, porque a cultura sexista nos oprimiu e também distorceu as nossas vidas, isso não é sempre alcançado. Nos nossos esforços equivocados para sermos aceitos e tolerados, nos submetemos frequentemente às pressões para nos conformarmos à camisa de força das regras da sociedade e enrolações com o sexo.

Alguns aspectos particularmente opressivos na sociedade gay são o culto à juventude, os papeis "masculinos" e "femininos" das lésbicas, e a monogamia compulsória.


O culto à juventude

As mulheres caretas são as mais expostas, na nossa sociedade, ao culto manipulado comercialmente (por ser muito lucrativo) à juventude e "beleza" - ou seja, a conformidade a um ideal de "sensualidade" e "feminilidade" imposto de fora, não escolhido pelas próprias mulheres. As mulheres são encorajadas a se olharem no espelho e se amarem, porque uma obsessão com as roupas e cosméticos embota a sua apreciação sobre quem elas realmente são... até que seja tarde demais. A visão de uma mulher velha, coberta de camadas e camadas de maquiagem, com o cabelo torturado em coques artificiais, provoca ridículo de todos os lados. Mas essa negação grotesca do envelhecimento físico é meramente a conclusão da vida de uma mulher que aprendeu que o seu valor está primeiramente no seu grau de atratividade sexual.

As  mulheres gays, assim como os homens caretas, são bem menos compulsivas na busca por juventude, talvez porque parte da sua rebelião foi a rejeição de si mesmas como objetos sexuais - assim como os homens, elas se veem como pessoas, como sujeitos em vez de objetos. Mas os homens gays são muito aptos a caírem no culto à juventude - as exibições sexuais nos "glamourosos" bares de pegação de Londres e Nova Iorque, as praias gays do sul da França e de Los Angeles não têm nada a ver com libertação. Estes são os laços que prendem os gays plastificados obcecados com a imagem e aparência. Amando os próprios corpos, esses homens gays têm horror do avançar da idade, porque ser velho é ser "feio" e, com a juventude, eles perdem também o direito a amar e ser amados, e são valorizados somente se pagam. Essa obsessão com a juventude é destrutiva. Todos nós devemos romper com os falsos padrões comerciais de "beleza"  impostos a nós pelos barões do cinema e empresas de propaganda, porque a armadilha da juventude/beleza nos joga uns contra os outros, numa competição frenética por atenção, e leva no fim a uma obsessão por si mesmo que é a morte da afeição  do amor sensual verdadeiros. Alguns homens gays perderam tanto tempo olhando para si mesmos no espelho que ficaram hipnotizados pela própria magnificência e terminaram se tornando incapazes de ver qualquer outra pessoa.


"Masculino" e "feminino"

Muitos homens e mulheres gays restringem desnecessariamente as suas vidas através do desempenho compulsivo de papeis.

Eles podem restringir o seu próprio comportamento sexual por sentirem que sempre devem ter um papel masculino ou feminino, ou pior, esses papeis são transpostos para virarem padrões ainda mais distorcidos nos relacionamentos sociais em geral. Nós, homens e mulheres gays, estamos, de qualquer forma, fora do sistema de papeis de gênero e, portanto, não é surpreendente que alguns de nós - de qualquer sexo - sejam mais "masculinos" e outros mais "femininos". Não há nada de errado com isso. O que é ruim é quando as pessoas gays tentam impor a si mesmas e aos outros os estereótipos masculinos e femininos da sociedade careta, o "masculino" tentando expandir o seu ego dominando a vida e a liberdade dx seu/sua parceirx, e o "feminino" buscando proteção e se submetendo ao "masculino". O "masculino" é realmente ruim - a opressão dos outros é uma parte essencial do papel de gênero masculino. Nós devemos fazer os homens e as mulheres que reivindicam os privilégios dos homens caretas entenderem o que estão fazendo; e os homens e mulheres gays que estão presos no papel "feminino" devem entender, como cada vez mais as mulheres caretas estão fazendo, que qualquer segurança que isso possa trazer é mais do que compensada pela sua perda de liberdade.


Monogamia Compulsória

Não negamos que seja possível que as pessoas gays, assim como alguns casais caretas, vivam juntos felizes e construtivamente. Contudo, questionamos o ideal de encontrar e viver eternamente com o par "certo". Isso é a cópia do mundo careta que as pessoas gays fizeram. É, inevitavelmente, uma paródia, porque eles não têm nem mesmo a justificativa dos casais caretas - a necessidade de garantir um ambiente estável para os seus filhos (mesmo que, de qualquer forma, acreditamos que a pequena unidade familiar não é de forma nenhuma a melhor atmosfera para criar as crianças).

A monogamia geralmente se baseia na propriedade - a mulher vende os seus serviços para o homem em troca de segurança para si mesma e seus filhos - e está inteiramente ligada à ideia de propriedade do homem; além disso, na nossa sociedade, o casal monogâmico, com ou sem filhos, é uma unidade isolada, fechada e presa, suspeitosa e hostil aos estranhos. E, mesmo que não façamos leis sobre como as pessoas gays devem se comportar na cama ou nos seus relacionamentos, nós, sim, queremos que elas questionem a cópia da sociedade feita pelo casal. A cópia diz "nós dois contra o mundo" e isso pode dar proteção e conforto. Mas também pode ser sufocante, levando à dependência neurótica e hostilidade velada, desonestidade emocional de estar na segurança confortável do lar, a segurança e estreiteza da vida construída para dois, com a culpa secreta de gostar de mais alguém, enquanto permanece escravo da ideia de que o verdadeiro amor dura a vida inteira - como se houvesse um racionamento de relacionamentos, e querer mais que um fosse ambição. Não que a fidelidade sexual seja necessariamente errada; o que é errado é a exclusividade emocional voltada para dentro do casal, que prende o casal de tal maneira que eles não conseguem mais agir como seres independentes na sociedade. As pessoas precisam de uma variedade de relacionamentos, para se desenvolverem e crescerem, e aprenderem sobre outros seres humanos.

É especialmente importante que as pessoas gays parem de copiar os caretas - somos nós que temos as maiores oportunidades de criar um novo tipo de vida  e, se não fizermos, ninguém mais vai fazer. Também precisamos mais do que as pessoas caretas fazem, porque somos iguais sofrendo uma opressão insidiosa da parte de uma sociedade primitiva demais para se ajudar à liberdade que representamos. Sozinhos, ou isolados em casais, somos fracos - do jeito que a sociedade quer que sejamos. A sociedade não pode nos derrotar tão facilmente se nos juntarmos. Temos que nos unir, entender uns aos outros, viver juntos.

Duas formas de fazermos isso são desenvolvendo grupos de conscientização e comunas gays. Nossos coletivos e comunas gays não devem ser meros arranjos convenientes de vida, ou pior, apenas extensões do gueto gay. Eles devem ser um foco de conscientização, gerando ou aumentando a consciência sobre a nossa real opressão, e sobre a atividade de libertação gay, um novo ponto focal para os membros da comunidade gay. Isso não será fácil, porque esta sociedade é hostil à vida comunal. E, além dos problemas práticos de encontrar dinheiro e um lugar grande o suficiente para um coletivo viver, existem os nossos problemas pessoais: temos que mudar a nossa atitude em relação à propriedade pessoal, nossos amantes, nossas prioridades do dia-a-dia no trabalho e no lazer, até mesmo a nossa necessidade de privacidade.

Mas a vitória virá. Se estivermos convencidos da importância do novo estilo de vida, podemos ser fortes e vencer.


O caminho adiante


Objetivos

O objetivo a longo prazo da libertação gay, que nos coloca inevitavelmente em conflito com o sexismo institucionalizado dessa sociedade, é que a sociedade se livre do sistema de papeis de gênero, que é a raiz da nossa opressão. Isso só pode ser conseguido eliminando as pressões sociais sobre homens e mulheres para se conformarem em papeis de gênero estreitamente definidos. É particularmente importante que as crianças e jovens sejam encorajados a desenvolver os seus próprios talentos e interesses e a expressar a sua própria individualidade, em vez de estereótipos alheios à sua natureza.

Como não podemos empreender essa mudança revolucionária sozinhos, e como a abolição dos papeis de gênero também é uma condição necessária para a libertação das mulheres, nós vamos trabalhar para formar uma aliança estratégica com o movimento de libertação das mulheres, com o objetivo de desenvolver as nossas ideias e nossa prática em interrelação bem próxima. Para forjar essa aliança. os irmãos no movimento de libertação gay devem estar preparados para sacrificar o grau de chauvinismo masculino e privilégio masculino que todos ainda possuem.

Alcançar o nosso objetivo de longo prazo levará  anos, talvez década. Mas atitudes que apropriam o lugar dos homens e das mulheres na nossa sociedade estão mudando rapidamente, particularmente a crença no lugar subordinado das mulheres. As condições modernas estão criando cada vez mais tensões na pequena família nuclear contendo um homem e uma mulher adultos com papeis estreitamente definidos e juntos para sempre.

Libertemos as nossas cabeças

O ponto de partida da nossa libertação deve ser nos libertarmos da opressão que está na cabeça de cada um de nós. Isso significa libertarmos a nossa cabeça da autoopressão e do chauvinismo masculino e não organizarmos mais as nossas vidas de acordo com os padrões que em que somos doutrinados pela sociedade careta. Isso significa que devemos cortar pela raiz a ideia de que a homossexualidade é ruim, doentia ou imoral, e desenvolver o orgulho gay. Para sobrevivermos, muitos de nós nos sufocamos fingindo que a opressão não existe, e o resultado disso tem sido distorcer mais ainda as nossas mentes. Dentro do movimento de libertação gay, um grande número de grupos de conscientização já se desenvolveram, nos quais tentamos entender a nossa opressão e aprender novas formas de pensar e agir. O objetivo é sairmos da experiência permitida pela sociedade careta, e aprendermos a nos amar e confiar uns nos outros. Esta é a precondição para agirmos e lutarmos juntos.

Libertando as nossas mentes, ganhamos a confiança para sair do armário publica e orgulhosamente como pessoas gays, e ganhar nossos irmãos e irmãs gays para as ideias da libertação gay.

Campanha

Antes que possamos criar a nova sociedade do futuro, temos que defender nossos interesses como pessoas gays aqui e agora, contra todas as formas de opressão e vitimização. Por isso, nós formulamos a seguinte lista de reivindicações imediatas:

̶ que toda discriminação contra pessoas gays, homens e mulheres, pela lei, pelos patrões e pela sociedade em geral, acabe.

̶ que se ensine a todas as pessoas que se sentem atraídas por membros do seu próprio sexo que estes sentimentos são perfeitamente válidos.

̶ que a educação sexual nas escolas pare de ser exclusivamente heterossexual.

̶ que os psiquiatras parem de tratar a homossexualidade como se fosse uma doença, o que deixa as pessoas gays com complexos de culpa sem sentido.

̶ que as pessoas gays sejam legalmente livres para entrar em contato com outras pessoas gays, através de anúncios de jornal, nas ruas e por quaisquer outros meios, como os heterossexuais, e que a violência policial cesse agora.

̶ que não se permita mais aos empregadores discriminar alguém por causa de suas preferências sexuais.

̶ que a idade de consentimento para os homens gays seja reduzida para a mesma que a dos caretas.

̶ que as pessoas gays sejam livres para dar as mãos e se beijarem em público, como os heterossexuais.

Os que acreditam na libertação gay devem apoiar ativamente o seu grupo gay local.

Com a disseminação rápida das ideias da libertação gay, é inevitável que muitos membros destes grupos tenham se resolvido apenas parcialmente com a sua homossexualidade. O grau de autoopressão frequentemente é tão alto que é difícil respeitar os indivíduos do grupo, e os ativistas frequentemente se sentem tentados a perder as esperanças. Mas, se quisermos  transformar a nossa sociedade, temos que convencer os outros dos méritos das nossas ideias, e não existe nenhuma maneira de fazer isso se não convencermos até mesmo os mais afetados pela nossa opressão a entrarem conosco na luta pela justiça.

Não queremos pedir nada, Queremos nos levantar e exigir nossos direitos básicos. Se isto envolver violência, não seremos nós que iremos começar, e sim os que tentarem impedir nosso caminho para a liberdade.


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Este manifesto foi produzido coletivamente pelo Grupo do Manifesto do GLF. Reconhecemos que ele deixa muitas questões sem respostas nem conclusões, mas esperamos que ele leve ao progresso da análise científica do sexismo e de nossa opressão como pessoas gays.

Comentários

Anônimo disse…
Ainda não li, mais fica um profundo agradecimento pela tradução! Eis a importância de termos bons tradutores :-)

Abraços!!!