Bob Esponja, um proletário precarizado homossexual


Eu sou viciado em desenho animado.

Os meus preferidos são os das décadas de 1950-1950 (Pica-Pau, que é pura maldade, Tom & Jerry, onde eu aprendi a ouvir Chopin - depois esqueci de novo rsrsrs - , Os Jetsons - que é como eu achava que ia ser o futuro, antes de descobrir que ele saiu quase igual o Mad Max, Corrida Maluca, Pateta, Pato Donald etc), da minha época eu gostava mesmo é de Thundercats e, acima de tudo, do Muppets Babies.

Depois do fim da história (1991), pouco se fez de interessante em desenho animado, como em tudo mais. Lógico que existem honrosas exceções, como os Backyardigans, Flapjack, Pocoyo, Frango Robô, Harvey, o advogado. Mas, entre eles, o melhor de todos é o Bob Esponja.

Os primeiros motivos pra eu me identificar com o Bob Esponja são a personalidade dele (eu também sou um idiota que acha que todo mundo é bonzinho), o humor totalmente nonsense (tipo a Sandy, uma esquilo, morando no mar, ou eles indo surfar em ondas no fundo da Fenda do Bikini) e as caricaturas expressionistas feitas com outras técnicas de animação quando ele se assusta.

O Bob Esponja é tão marcante na minha vida, que o primeiro filme que eu fui assistir com a Mari foi Bob Esponja, o Filme, sendo o segundo pior programa romântico de todos os tempos (só perdeu pra quando a gente foi assistir A Encarnação do Demônio, do meu amado Zé do Caixão).

Mas vamos ao que interessa: além de tudo, o Bob Esponja ainda tem uns elementos muito engraçados de crítica social.

Não é incomum que os desenhos animados e outras formas de cultura de massas tenham críticas sociais, geralmente de um ponto de vista liberal. Isso é o encanto de alguns desenhos, como Os Simpsons, South Park, entre outros. O que é mais legal é que o Bob Esponja reflete a realidade da classe trabalhadora no período em que vivemos, de destruição dos direitos trabalhistas, crise do movimento dos trabalhadores e da perspectiva socialista.

Ele é um trabalhador precarizado do setor de serviços (Uma mistura de cozinheiro, auxiliar de serviços gerais e atendente na lanchonete O Siri Cascudo), justamente fração da classe trabalhadora que mais cresce, e que menos tem tradição de luta sindical, em parte por causa da alta rotatividade e baixa qualificação da mão de obra.

Nisso, ele segue a honrosa tradição dos personagens proletários dos desenhos (como o Homer Simpson, que é um pouco anterior e, talvez por isso, faz parte do proletariado fabril, o Fred Flinstone ou o George Jetson, até mesmo o Popeye, que é um marinheiro de baixa patente). É interessante que os desenhos mais recentes costumam ter personagens mais ligado aos setores "pós-industriais", como diz a sociologia burguesa, por exemplo o Cleveland (instalador de TV a cabo), o Pateta novo (vendedor de carros) etc.

Mais do que isso, ele comprou totalmente o discurso neoliberal de que o trabalhador que se esforçar pode subir na empresa, de que as promoções acontecem com quem é mais competente e todas essas ladainhas. O longa justamente começa com a desilusão do Bob Esponja, achando que vai ser promovido, e vendo que quem leva a vaga é justamente o imprestável do Lula Molusco (a partir de 5:00). Deveria ser exibido por sindicalistas em determinadas empresas, em que a nova geração entra cheia de merda na cabeça, vestindo a camisa e puxando o saco!

Mesmo assim, ele percebe (de vez em quando) a exploração que sofre, e chega a fazer uma greve (no episódio 2:20, Lula em Greve)! Mas, no geral, ele é otário demais pra isso, e sempre é enrolado pelo seu patrão, o Sr. Siriguejo, e pelo concorrente da sua empresa, o Plâncton.

Mas o concreto é a síntese de muitas determinações, e muitos rumores dizem que o Bob Esponja, além de ser explorado, também sofre com a opressão da sua orientação sexual. O Patrick Estrela, melhor amigo do Bob, dizem que mantém uma relação homossexual com ele, apesar do autor do desenho ter desmentido e dito que eles são quase assexuados.

Mas os personagens têm uma vida independente das intenções de seus autores, principalmente quando se tornam símbolos de sua geração. Só vou dar o exemplo do episódio Nana Neném, Conchinha (3:09), em que o Bob e o Patrick se casam, e o Bob vira a mulher e dona de casa negligenciada pelo Patrick, que sempre chega tarde em casa e não quer saber de cuidar da conchinha que eles estão criando nem fazer as tarefas domésticas.

Esse subtexto do desenho (que também existe no Toot & Puddle, que são dois porquinhos que moram juntos e, nos limites de um desenho infantil da Discovery Kids, agem como um casal gay) também me deixa muito feliz, e me dá mais motivos pra gostar do personagem.

Eu sei que gosto muito do Bob Esponja, e que ele me lembra muito a minha geração e as porradas que ela leva.

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