Provai todo espírito


Carla tinha conseguido terminar de se arrumar.

No meio do calor de janeiro, ela teve que cobrir o seu corpo rechoncudo todo com aquelas roupas de grife, quando a maior vontade dela era andar de short e camiseta. Mas não podia dar mole, o que ela ia fazer era perigoso demais pra ela piorar tudo criando outros problemas com a polícia.

Então, depois de uma bem planejada desculpa esfarrapada, em coautoria com a Bruna, a garota foi pegar o ônibus velho e lotado que ia para a praia. Não exatamente para a praia, porque o que aquele monte de gente ia ver era mais uma Concentração de Fé e Milagres.

Ela tinha acabado de perceber que tinha esquecido a Bíblia, mas teve a sorte de passar por uma das banquinhas em que a prefeitura distribuía de graça. Sem a bíblia e a roupa vermelha e azul, na frente do Marriot, seria impossível encontrar o Ahmed e pegar o livro que ela ia buscar.

Só encontrar o Ahmed já foi uma miniaventura. Não que as proibições fossem tão rígidas assim, afinal das contas isso é o Brasil, e se casam até divorciados na igreja, não é porque o livro não pode ser publicado há 20 anos (por causa do conteúdo, que "estimula uma visão de mundo baseada na violência") que vai ser impossível pegar uma cópia impressa em casa. Também não era difícil baixar na Internet por proxy, mas a Carla não falava inglês ainda (tava no nono ano) e queria uma edição em português brasileiro, sem aquelas expressões portuguesas estranhas.

De qualquer jeito, o Ahmed estava envolvido em muitas outras coisas ilegais além de fazer edição caseira de livro do Darwin. Ele estava na rede de oposição, e lá na rede ele era um cara muito ocupado - a Carla não sabia disso, mas ele era um sujeito que só representava ele mesmo, e que ficava de equilibrista entre os outros setores.

Carla não entendia essas divisões na oposição democrática (que também era chamada à boca pequena nos domingos à noite de oposição demoníaca), o que ela queria mesmo era uma explicação para as coisas que sentia - que ninguém tem moral pra controlar a vida dela, que são um monte de recalcado. Mas a história que ela aprendia na escola era tão lógica e coerente que ela tinha medo de que tudo aquilo fosse tentação, que o fato de que tudo que é vivo parecer ter um projeto seja a prova de que no fim das contas Deus estava querendo que o mundo fosse do jeito que era (para ela).

Se, na verdade, ela achasse um buraco no discurso que ouvia desde que nasceu (logo depois da eleição em que a Frente chegou ao governo, "representando a maioria do povo" e tentando "usar a moral cristã para eliminar a corrupção, a maior causa da situação de crise que o nosso povo vive"), por esse buraco ela poderia respirar o ar puro, sem apanhar na cara porque arranjou namorado, sem se enrolar de pano em janeiro, sem poder ouvir música do mundo, sem poder falar com o Rafael, que teve que ir pro MOSES, sem. Nem falta da macumba ela sentia, porque disso ela nem tinha ouvido falar, de tão clandestino que era.

E foi o Rafael mesmo foi quem colocou a Carla na fita. O MOSES era quase que um pólo dos movimentos de oposição (inclusive a miniminoria dos Contemporâneos), e dali pra fugir daquela lavagem cerebral e virar militante (nesse caso, segundo a carne...) era um pulo.

Daí, ele foi parar no Jacaré, num sábado de noite, numa reunião na igreja metodista.

Qualquer um poderia ver que tinha alguma coisa errada naquele culto: tudo bem, que a grande maioria do pessoal parecia mesmo que era crente, mas não é em toda igreja que se veem meia dúzia de ciganos. A pregação sobre I João 4:1 foi marcada por várias críticas à Igreja Evangélica do Brasil e pela insistência nos valores da Reforma. Aliás, do pessoal que parecia que era da Igreja, se descobriu que uma parte importante nem mesmo acreditava em Deus, que ali alguns eram espíritas, outros do candomblé ou da umbanda, tinha muçulmanos judeus e budistas. Isso numa sala onde cabiam cem pessoas!

Depois do "culto", uma reunião longa e muito chata, na melhor tradição da esquerda brasileira, sempre perdendo o foco e irritando qualquer um. Mas serviu pra alguma coisa (também na tradição da esquerda brasileira). Com a sua longa tradição de acochambração interna e externa, o Bloco Socialista (mais fácil de unir agora, com as vitórias no México e na África do Sul) facilitou a definição das tarefas: distribuição de literatura proibida, ajuda na campanha internacional contra a destruição de terreiros (que não era oficial mas era oficiosa), trabalho clandestino nas organizações oficiais de mulheres pra convocar todo mundo para a manifestação pela liberdade de consciência.

Um dos contatos pra distribuir essa literatura proibida (A Origem das Espécies, Manifesto Comunista, Deus, um delírio, livros escolares antigos de história e biologia, teologia da libertação, escritos contra a teologia do domínio, publicações das igrejas dissidentes, psicanálise ...) calhou de ser a Carla, já que o Rafael ficou com vergonha de não ter contato nenhum e fez o que todo mundo faz nessa situação: deu o nome de alguma amiga ou amigo com que conversa sobre o mundo!

O Ahmed tinha uma grafiquinha num quarto de empregada. Ele conseguiu resolver sozinho o problema das publicações, da única forma que é possível no meio de tão intenso conflito político: apoliticamente. Provou com o balanço do mês que qualquer editora clandestina que não publicasse materiais laicos, ateístas, de matriz africana e não-conformistas ao mesmo tempo não teria viabilidade. E assim, mesmo debaixo dos chiados de 90% das pessoas envolvidas, 100% delas eram representadas pela impressora incansável. Como diria a nota de um real, Deus seja louvado!

Esperando na concentração do ato, Ahmed já tinha encontrado o Rafael e o Guilherme, um secundarista particularmente chato, que andava obcecado com um panfleto chamado Globo x Igreja Universal: o fundamentalismo evangélico na luta pelo poder, escrito por um obscuro grupo trotskista há uns trinta anos atrás.

Ele alertava sobre o que era aparentemente uma provocação do governo: um pouco antes da concentração, alguns jovens do Exército de Cristo tinham localizado um terreiro, destruído tudo e, agora que os organizadores já estavam presos, estavam desfilando com as imagens quebradas na sede da Frente Brasil para Cristo de Copacabana.

Era o tipo de ação violenta calculada para motivar um protesto da oposição no meio daquela massa de gente, ou melhor, diante dela. E foi justamente o que fez um grupo de ateus, jovens como Carla, Rafael e Guilherme, que tiveram a ideia, que dificilmente poderia ser considerada boa, de usar o mesmo método literalmente iconoclasta e queimar cruzes, Bíblias e fotos dos fundadores das igrejas que compunham a Frente Brasil para Cristo. Eles acreditavam não em Deus, mas sim na legitimidade da sua ação, e na proteção oferecida por alguns organismos internacionais.   

Infelizmente, os organismos deles é que foram atingidos pelas balas de borracha e pela multidão em fúria. No meio do tumulto, com aquela massa de gente empurrando pra todos os lados, com os estalos das balas, com o calor da fogueira, com o cheiro de queimado, Carla nem sabia onde estava, até a hora em que caiu e foi levantada para uma senhora, que a puxou para um bar onde alguns fieis estavam fugindo do corre-corre.

 O Guilherme já tinha ido pro metrô, puto porque tinha se desencontrado do Ahmed (que também tinha ido circular e não era otário de ficar mais por ali pelo resto do dia). Não por egoísmo, mas sim porque se pegassem um dos dois, as coisas iam ficar bem mais sérias do que se fosse com a Carla ou com o Rafael.

O Rafael, aliás, acabou encontrando pelo chip a Carla, que agradeceu ao Senhor Jesus por ter tirado ela daquele perrengue que podia virar coisa séria, pegou o ônibus com ele e agradeceu com um abraço agarrado quando eles chegaram, depois de duas horas no ônibus bem vazio, na casa da Bruna.

A Bruna, sim, estava de shortinho e camiseta, não que o Rafael se importasse muito, mas ele também ficou feliz de estar num lugar onde era possível respirar. A mãe da Bruna não levava as coisas muito a sério, e deixou os meninos no quarto dela. Passaram uma noite maravilhosa, que só é possível nessa idade, fazendo coisas que não eram quase possíveis na geração deles: ouvir música pra dançar, falar mal dos pais e das fofocas da igreja, que tornam desnecessária qualquer polícia política, ler alternadamente difíceis trechos de um livro que é um longo argumento, no meio de risadas e assuntos de sacanagem e até mesmo bebidas alcoólicas.

Comentários

Pedro Guerra disse…
Muito legal, companheiro!
Luiz disse…
Maneiro cara... Li com a Olivia. Gostamos muito.

Achei foda, muito foda, como qualquer coisa escrita por você. E pessimista, como qualquer coisa escrita por você... = P

Futurista também, mas escrita de uma maneira que me fez tremer de pensar que isso pode ser o que está guardado pra próxima geração.
A gente quase anseia pelo acirramento da luta de classes e às vezes esquece o sofrimento que vem junto com isso. Pelo menos ainda sempre teremos o espírito jovem rebelde pra ajudar, talvez uma força genuinamente revolucionária.

Enfim... posso estar viajando já... Tinha algumas colocações um pouco confusas, quem sabe desse pra explicar mais algumas coisas.


Boa sorte com os escritos. Forte abraço!
rodrigodoo disse…

Valeu Pedro, Luiz e Olívia, pela puxação de saco!