A decadência da ficção científica (parte 1)


O futuro não é mais o que era antigamente
Renato Russo


Onde se tenta provar que a ficção científica acabou porque o futuro acabou


I.

Não acredito que algum fã de ficção científica em sã consciência ache que o gênero não está em crise há quase trinta anos. Os clássicos foram morrendo, e ninguém veio depois deles. A FC hoje se resume a comentários, pastiches e paródias dos clássicos, ou se degradou em literatura infantojuvenil. Ela ainda sobrevive em alguns roteiros de cinema (Matrix ou Distrito 9, só pra falar de dois), mas a literatura está estagnada e sendo lentamente sugada pela fantasia.

Eu acredito que exista um contexto maior determinando isso, que é o fim da literatura, desde a década de 1970. O que o estilo pós-modernista expressa é justamente o esgotamento do conteúdo especificamente literário, que determinaria as novas formas. Em vez disso, o pós-modernismo é um milk shake de formas antigas, quando não é uma "radicalização" experimental que fica bem aquém das experiências do dadaísmo e futurismo, no alto modernismo. Ou, pior ainda, se resume a parodiar e fazer pastiches da história da literatura, por pura falta de capacidade de escrever algo novo.

Como lukácsiano que eu sou, acho que o esgotamento do conteúdo da literatura é a expressão do esgotamento das possibilidades das relações sociais. Ou seja, uma expressão do esgotamento do desenvolvimento do capitalismo, que só pode ser resolvido com a passagem para uma nova sociedade.

  
E aí entra a verdadeira questão da decadência da FC, porque o gênero sempre serviu justamente para explorar as possibilidades trazidas pela ciência e pelas novas relações sociais que ela poderia determinar. Por isso é que parece estranha a decadência da FC, que teria como sua tarefa escapar do esgotamento. Para entender isso, precisamos entender o que é e como se desenvolveu a ficção científica. 


II.

Em primeiro lugar, é pura idiotice tratar a ficção científica como subliteratura. Isso é uma simples expressão da ideologia da burguesia decadente, desde o alto modernismo, que defendeu que o papel da literatura é falar sobre a "psicologia" dos personagens. 

Dessa forma, a literatura perdeu o seu papel de reflexão sobre o mundo pra virar um divã para autores e leitores. Sem querer entrar em polêmica aqui, é só isso que explica como abobrinhas do tipo da Clarice Lispector podem ser consideradas alta literatura.

Além disso, existem dois pesos e duas medidas para avaliar os clássicos da literatura antes do século XIX. Até onde eu sei, ninguém nunca leu As Viagens de Gulliver ou Gargantua, ou a Utopia, ou Robinson Crusoé, ou as obras do Marquês de Sade por causa do lindo retrato da subjetividade dos personagens. Eram obras que questionavam a sociedade e a natureza, eram romances satíricos e/ou filosóficos, e foram os verdadeiros precursores de FC, e eram considerados importantes pela reflexão que traziam.

FC é isso, menos quando ela degenera na simples descrição de grandes invenções.


III.

E como surge uma ficção especificamente científica?

Bem, isso só poderia acontecer depois do Iluminismo, com a sua crença no avanço ilimitado da razão. Por isso, não seria correto considerar como FC as obras de Luciano, Kepler ou todos os precursores, que sempre acabavam fundamentando as suas histórias, mais cedo ou mais tarde, em algum elemento sobrenatural ou deixavam as coisas sem explicação (como as viagens à Lua de Luciano).

Por isso, é justo dizer que o gênero começou com Frankenstein, ou o Moderno Prometeu (1818), de Mary Shelley, uma jovem de 19 anos na época, e baseado nas experiências de Luigi Galvani, que estimulava animais dissecados com eletricidade, conseguindo que alguns músculos se movessem.  

Não tem sentido a tese, defendida pelo Isaac Asimov, de que a maior parte da ficção científica do século XIX na verdade é fantasia. Mesmo que os autores alternassem entre um gênero e outro (até porque não existia um mercado e publicações específicas de FC, o que só começou em 1928, como vamos ver à frente) obras como A Aventura Sem Par de um certo Hans Pfall ou Revelação Magnética, de Allan Poe, ou O Autômato, de E. T. A. Hoffman, não podem ser classificadas de outra forma além de FC.

Isso para não falar dos dois gênios que foram os primeiros escritores que se dedicaram principalmente à FC, Jules Verne e H. G. Wells. Numa época que acreditava que o progresso das forças produtivas ia por si só resolver os problemas da humanidade, eles começaram a estender as possibilidades do progresso até ver os seus limites.


IV.

A partir do momento em que surge a forma de um romance satírico ou filosófico que se baseia nas descobertas atuais ou ainda por vir da ciência pra fundamentar as suas questões, existe uma relação dialética, em que essa forma (que surgiu da assimilação da ciência ao conteúdo da literatura) passa a exercer seus efeitos sobre o conteúdo.

Como o processo é inconsciente na maior parte dos autores, ele é preenchido da ideologia da época em que eles vivem. Só poucos autores, como Asimov, Arthur Clarke, Gene Roddenbery, Ursula K. LeGuin e Robert Heinlein (em alguns livros, como vamos ver), vão conseguir ter força artística e intelectual para criticar e apontar para a superação da sua época nas suas obras.

Na grande maioria, até mesmo grandes escritores como Frank Hebert Walter Miller Jr., opera o motor principal da FC durante a sua história, que é a causa da contradição que fez o gênero se desenvolver e entrar depois em decadência: a imaginação regressiva.

Quando eu digo imaginação regressiva, quero dizer que, apesar de toda a aparência de alta tecnologia e dos limtes distantes no espaço e no tempo, o tipo de mundo e de sociedade que os autores imaginam é sempre uma volta ao passado da Terra.

Esse mecanismo, que é fundamental para a sátira, já era perigoso nas utopias (é só lembrar da utopia prehistórica da "Era dos Costumes" de Dom Deschamps), se torna o próprio suicídio da ficção científica. Como caricatura, podemos usar o exemplo dos Jetsons, que vivem numa cidade espacial de carros voadores e mesmo assim tem que trabalhar pro patrão e ter uma vida de classe média suburbana dos EUA!


V.

Não tenho nenhum objetivo aqui de contar a histórica da ficção científica no século XX, muito menos falar das melhores obras de cada autor ou elencar quais são os melhores, só vou falar isso de passagem a seguir, e nem acho que seja preciso procurar dezenas de exemplos dessa imaginação regressiva de que eu tô falando. Então, em vez de fazer isso, vou só fazer alguns comentários sobre alguns temas clássicos da FC e como isso afeta eles.

Acho que nada mais tradicional e clichê dentro da FC que as civilizações que se espalham por uma galáxia inteira, com milhares de povos e viagens mais rápidas que a luz, que se organizam politicamente em... Impérios, com a estrutura claramente feudal! Tem maior falta de imaginação do que isso?

E não é só no Império da Guerra nas Estrelas (que não dá nem pra considerar FC, é uma historinha de aventura no espaço), mas em obras importantes, como Fundação (que o Asimov falou que era inspirada no Declínio e Queda do Imperio Romano, de Gibon, e que só consegue se salvar e virar a melhor série da FC por conta do papel dos psicohistoriadores, e da manipulação consciente das tendências históricas).

O feudalismo continua nos romances planetários, de que o maior exemplo é o Duna, do Frank Hebert (com o Paul Muad'Dib, aquela mistura de imã com jedi no meio daquele Saara cheio de beduínos), no estilo "planeta e espada" das space operas. Isso não quer dizer que o Duna (não li as sequências) seja um livro ruim, na verdade tem muitas coisas maravilhosas no livro. Ele não foi o primeiro, mas foi um dos melhores a tratar da questão ecológica na FC, o autor criou uma cultura muito rica, o tom muitas vezes é épico de verdade. Mas é um pouco frustrante ler um livro que parece, boa parte do tempo, uma obra de fantasia, pelo tema e pelos procedimentos.


VI.

Por que não também lembrar os nossos queridos extraterrestres, que tanta vergonha alheia causaram aos escritores? Os povos distantes sempre foram usados nas sátiras como caricaturas ou contrastes do "nosso" povo. Eu lembro uma vez que li o pior livro de FC da minha vida, Os Homens-Monstros do Espaço, do animal e ufólogo chamado Jimmi Gieu,  em que os marcianos desciam na URSS pra colonizar a Terra "porque o sistema de governo daqui é semelhante ao nosso"!

Esse assunto de todos é o que mais me irrita, e o aspecto político é só um detalhe, o motivo mesmo da minha raiva é que os caras evoluíram num planeta totalmente diferente, com outra atmosfera e outra base bioquímica, e eles sempre têm dois braços e duas pernas, 1,80 de altura e dois olhos na cara! Nesses casos, a imaginação regressiva se junta com a ignorância científica!

Não quero dizer com isso que não existem extraterrestres interessantes, como os Pingos, do Jornada nas Estrelas, os cheela do Dragon's Egg, de Robert Forward (não li o livro, se alguém tiver me empresta!, mas li sobre os cheela), A Nuvem Negra, de Fred Hoyle, as formas de vida nas luas de Saturno em Terra Imperial, do Arthur Clarke, e outros exemplos que eu não tô lembrando agora.  

Por falar em Jornada nas Estrelas, nessa série e nos Ekumen, da Ursula K. LeGuin existe a única solução honrosa pra esse monte de gente verde e de orelha pontuda: em algum momento, a gente fica sabendo que todos eles foram evoluções de uma mesma espécie antiga, que se espalhou pela galáxia em tempos esquecidos.

A Cor que Caiu do Céu, do maior escritor de terror de todos, o H. P. Lovecraft, é uma obra de FC que trata o que é alienígena de forma bem diferente do que estamos falando aqui. A "cor" enlouquece porque ela é absolutamente outra, sem nenhum parâmetro de comparação humana. Um tratamento brilhante e filosófico do tema.

Sobre invasões alienígenas, eu acho que é difícil (e não consigo lembrar de nenhum caso) a imaginação regressiva não transformar o tema em uma celebração reacionária do militarismo e patriotismo. O Tropas Estelares, do maluco do Robert Heilein (que era fascista quando não era anarquista) é um desses, assim como A Guerra dos Mundos, do H. G. Wells (onde, não por acaso, os ETs morrem do mesmo jeito que os incas, astecas e indígenas brasileiros, de contaminação por microrganismos contra os quais não tinham anticorpos).  

E também temos que dar uma colher de chá pros autores que colocam esses ETs impossíveis como um recurso satírico, pra ridicularizar a humanidade, tão parecida com eles. Como esquecer do Estranho Num Terra Estranha, do Robert Heinlein, o meio-marciano Michael, que não conseguia entender porque os seres humanos riem, e acaba criando uma religião baseada no sexo e na vida coletiva. A vida imitou a arte, porque parte dos hippies tiveram esse livro na cabeceira na década de 1970, e foi até criada uma Igreja de Todos os Mundos, inspirada na do livro!

Comentários

Aoi Ito disse…
Cara. Sou amiga da Tatiana e estudo História. Minha monografia vai ser sobre a Ficção Científica. TU É UM GÊNIO, CARA. Muita coisa disso eu pensava já, inclusive tava conversando com o meu namorado sobre essa questão de sempre ter Impérios galácticos e coisa e tal. Sou muito fã de Asimov, mas desisti de Fundação porque pra mim aquilo tudo podia ser substituído por espadas e feudos e não mudaria muito - já tem até reis!

Estou lendo a segunda parte agora e achando MUITO FODA. E o Blogger tá me pedindo pra provar que eu não sou um robô, hahaha, acho que não vai ser possível. Sempre quis conversar com alguém sobre as coisas mais técnicas e histórias e teóricas. Pera aí que vou comentar na parte 2.

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