E esse negócio de APAFUNK?


Esse é o site da APAFUNK, que foi criada (entre outros) pelo Mc Leonardo:

http://www.apafunk.org.br/a_apafunk.html


Algumas coisas muito erradas que eu acho nessa tentativa de defender o "funk antigo".


Olha só o que tem no manifesto dos caras, no mesmo site:

O mais grave é que, sob o comando monopolizado de poucos empresários, a indústria funkeira tem uma dinâmica que suprime a diversidade das composições, estabelecendo uma espécie de censura no que diz respeito aos temas das músicas. Assim, no lugar da crítica social, a mesmice da chamada "putaria", letras que têm como temática quase exclusiva a pornografia. Essa espécie de censura velada também vem de fora do movimento, com leis que criminalizam os bailes e impedimentos de realização de shows por ordens judiciais ou por vontade dos donos das casas de espetáculos. 

Você já imaginou se o Cartola montasse uma associação de sambistas, que excluísse direto no manifesto de fundação o Bezerra da Silva?

É pura demagogia falar de diversidade no exato momento em que você critica um subgênero. Na verdade, eles são contra a putaria.

E a APAFUNK, junto com a luta mais do que certa pelo reconhecimento do funk como cultura e contra a sua criminalização, divide o funk entre o "funk antigo", com temática social, e os novos estilos, como o proibidão e a putaria (pra não falar da montagem, que pra mim é o melhor de todos, e que é mais antiga que os "funks antigos" que eles querem promover).

Do ponto de vista político, isso é uma idiotice. Por acaso o samba pediu pro Estado pra ser reconhecido como cultura ou isso aconteceu depois do fato consumado? Pelo contrário, o que destruiu a criatividade das escolas de samba foi a estatização, o sambódromo e a transformação em evento oficial e turístico.

O rock brasileiro nunca precisou disso. Os seus subgêneros, como o metal e o punk, muito menos. Ao contrário, são vivos porque são cultivados por fora da indústrial musical.

Então, é uma idiotice o funk (ou quem diz que fala em nome dele) querer se suicidar como o hip hop está fazendo, sendo comprado pelas ONGs e por projetos do governo, na quase totalidade dos seus artistas (com exceções, como o povo do Lutarmada).


Isso a política. Mas a estética é pior ainda!

Não vou dizer que não tenha músicas legais desse "funk antigo" com "temática social". Tem sim, como o Rap do Surfista. Mas vamos ser realistas, a maioria dessas músicas são a maior xaropada. O melhor exemplo é o Rap da Felicidade, que desperdiça uma bela melodia com aquela letra totalmente reacionária, que fica implorando pra "minha cara autoridade" que o "pobre tem o seu lugar"! Estilo Opinião ("Se não tem carne/
Eu compro um osso/ E ponho na sopa/ E deixa andar!")... Ou o Rap do Silva, que quase pede desculpa pelo cara ser funkeiro ("mas era pai de família").

Aliás, esse negócio de "temática social", se vingasse, ia transformar o funk numa coisa quase tão ruim quanto o hip hop paulista (não tem como ser pior porque hip hop não é música, é um cara falando em cima de uma base!). Um "realismo" que não é de forma nenhuma realista, não chega perto nem do romantismo (segundo a definição do Mário Pedrosa) que é o "realismo socialista" porque nem mesmo propõe nenhuma transformação na sociedade, só fica descrevendo a pobreza sem entender nem explicar as relações sociais que a criam. Ou seja, uma apologia indireta da pobreza, porque a descreve como insuperável e, ao mesmo tempo, fonte da identidade do cara.


Pior ainda, o que tem de mais criativo no funk é jogado totalmente de lado.

Não falo do proibidão, que é um estilo de música pobre e reacionário. Os únicos bons momentos do proibidão são quando eles "destroem" uma música romântica, colocando uma letra de apologia ao tráfico, mostrando que "todo monumento da cultura também é um monumento da barbárie" (Walter Benjamin), como acontece nos versos imortais "mangueira verde e rosa/ comando vermelhô/ ôôôô". 

No mais, o proibidão é uma música antirrealista, tema oficial, quase hino nacional do tráfico. Mas que não devia ser censurada, como não deveria ser diminuído o valor de Bezerra da Silva, que também fazia apologia ao crime.  

Mas a putaria é uma grande coisa, um estilo realmente interessante, uma vertente punk faça você mesmo do funk que, se tem muita merda machista, também tém grandes compositoras que ridicularizam o machismo ao imitá-lo. Caso da Gaiola das Popuzudas e da Tati Quebra Barraco (que infelizmente não está produzindo mais).

Mas sobre isso eu já falei aqui no blog.

E o melhor de tudo são as montagens, a verdadeira música de vanguarda feita na favela, puro neoconcretismo na música. Infinitamente mais criativo e superior ao "funk antigo" da APAFUNK. Sobre isso eu também já falei por aqui, e não custa me repetir e dizer que é uma das tendências da música do futuro.

E tem muito mais coisa no funk além só desses estilos. Tem as músicas de humor do Gorila e Preto, tem o Mc Marcinho com o seu romantismo que se aproxima do Wando (Vem minha gostosa/ Que hoje eu vou te barulhar/ Jogue o tambor pro alto/ Que eu quero bater/ Que eu quero fuca na futuca com você), tem uma porrada de coisa.

Ou seja, uma coisa em que eu fecho com a APAFUNK é a luta pela valorização do funk como cultura e contra a sua criminalização. Mas essa luta só pode chegar até a sua conclusão lógica se ultrapassar os próprios limites ideológicos da APAFUNK, que quer criar um tipo de "respeitabilidade" do funk para o público "consciente" de classe média, e que acabar fazendo propaganda contra a maioria da produção do funk. 

Comentários

rodrigodoo disse…

Leiam essa também, sobre quase o mesmo assunto:

https://www.facebook.com/ThiagoTuchu/posts/358591590893135?notif_t=like
rodrigodoo disse…

Também:

http://www.facebook.com/rodrigo.silva.52643821/posts/288314791269277?ref=notif&notif_t=share_comment

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