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Década de Zero


O meu nome é Paulo. Estou falando isso não porque eu exista (eu não existo), mas porque, já que eu sou um personagem, as pessoas cobram esse tipo de coisa.

Todo mundo lê as coisas que podem dar a noção de experiências a que não teriam acesso sem a literatura. Então, o que eu quero fazer aqui é falar um pouco das minhas experiências (minhas, no caso as do autor), porque todo mundo pode dar pitaco.

Voltando ao assunto, o que eu queria era mostrar o emparedamento de uma época. A nossa geração teve pouco tempo. Começou pelo fim, mas foi bela a nossa procura, mesmo com tanta ilusão perdida.

O que é interessante é que, na década de 1970, os punks diziam: No future. Bem, o futuro estava uns vinte ou trinta anos na frente deles - hoje. Esse é o No future. Década de zero.

Primeiro eu vou falar de uma cidade feia no subúrbio onde começa a história, pra não desperdiçar o rascunho que ele fez (o autor). Mas é o seguinte, vamos falar de um cara que vivia num mundo de 510 milhões de km2 mas que, depois de sucessivas derrotas imaginárias, não sai mais do seu quarto, até o momento em que começa a nossa ação.

Vamos lá.

Besteira isso de ter um lugar, mas se não tiver fica meio Pintura Metafísica (se tiver fica literatura demais pro meu gosto, meio romance), então vai.

Ali tem umas ruazinhas onde mora um amontoado de gente.

Esse bairro residencial, com umas casas de vinte anos atrás, com as crianças brincando de futebol na rua, um carro de vez em quando no asfalto. As pessoas conversam nas cadeiras de praia na frente do quintal. Quando tem carnaval, elas vão pro coreto a vinte minutos de distância. Elas trabalham de segunda a sexta ou segunda a sábado, alguns trabalham na feira no domingo, mas a grande maioria vai lá comprar as coisas e fica regateando o preço depois da onze da manhã.

No quintal, ficam aquelas árvores com cheiro de mofo e umas estátuas de santo em lugares mais reservados. Os quartos de quase todo mundo tão cheios de infiltrações, mas algumas casas são um primor de arrumação. Dentro das casas, os assuntos são quase sempre sobre as próprias casas. A televisão não mostra um mundo, e sim cria novelas verdadeiras pra acompanhar. Ninguém acredita que fora daquelas ruas dali tenha alguma coisa diferente. a não ser "a cidade", que é um centro de serviços onde as pessoas vão com roupas mais arrumadas que os shorts e camisas surradas que usam pra andar até a padaria.

Aqui é que as pessoas vêm e começam a se misturar, construindo um monte de belas lições e de bobagens.

Dentro desse pedaço de quarteirão, e não com astronautas do futuro, estetas decadentes, seres quase somente feitos de espírito, caricaturas desconstruídas ou retratos da opressão. Aí é que começa a historinha de quem mora nessa rua.

É assim que se cria uma cidade, pelo menos na imaginação. E pra que se cria esse tipo de cidade, que nem existir existe, pra que ela serve então? Ué, pra expandir o mundo do autor, e servir de laboratório de ser outra pessoa. Pessoa.

Então, veio a acontecer que um cara botou um uniforme de carteiro. Mas não foi pegar aquele mesmo 296 de sempre nem parar na porta do Correio esperando ele chegar, com o sol esmagando a cabeça e algumas boas ideias que nunca viraram mais que isso.

Então, naturalmente a gente se pergunta: por que essa roupa de carteiro, o que isso tem a ver se esse cara tá de licença médica, e não sai de casa há tanto tempo?

Bem ele saiu de casa porque foi quase obrigado pelo seu terapeuta, que não segue muito à risca as suas orientações clínicas e até fala com ele, mesmo que seja recebido com a maior reticência, que mascara a maior má-vontade. Porque no final das contas o cara não quer delatar questões de segurança, mesmo que as pessoas envolvidas não estejam mais envolvidas com nada. Tem muito Lobo em pele de cordeiro trabalhando como psicólogo, ele até poderia citar um que trabalhava como torturador na ditadura, esses eram os pensamentos de Pedro.

Afinal das contas, o doutor mandou ele voltar a ver as pessoas, que isso não é vida de gente, acordar às 11h depois de dormir às 3h, ficar vendo desenho animado e lendo as mesmas revistas já lidas e relidas milhões de vezes (ele não poderia dizer ao doutor que eram revistas teóricas e políticas onde ele procurava como se fosse um garimpeiro por alguma citação lateral, ou alguma frase que pudesse abrir a porta para entender como o mundo tinha ficado tão incompreensível, e que os próprios autores tivessem subestimado ou deixado passar).

Enquanto isso, o mundo se encolhia ao redor dele, até ficar bem menor do que o que ele via pela janela, que já tava parecendo um tipo de novela, de tão irreal. Chamam de síndrome do pânico, mas na verdade era síndrome do pânico provocada pelo mundo que ele imaginava estar nas mãos cair nas costas dele.

Aí, ele marcou com um monte de gente que ele conheceu na escola, na faculdade, enfim no movimento.

Mal ele sabia que os cacos iam se reunir, terapia que nada!

Pra começar, foram tantas evasivas e tantas desculpas que qualquer pessoa com mania de perseguição começa realmente a pensar que tem alguma coisa sendo armada sem você ver. É pior que tentar reunir novamente o seu grupo de RPG de quando você tinha 14 anos, todo mundo tem vergonha de olhar pra o outro que sabe que ele jogava aquilo!

Um a um, começaram a aparecer as pessoas, cada uma com um horário diferente, não posso esse dia, até que sobraram por seleção natural os quatro daquele dia: Pedro, Tiago, Marcos e eu.

Fique bem claro que a gente não achou o Rafael, e isso é parte do final dessa história, e também que a Marina, a Mariana e a Maria não estavam lá também porque elas também foram cuspidas pra fora da história, no melhor estilo supernova, mas pra um lado quase diferente do da gente (“quase” porque é meio difícil ser tão diferente assim quando se é expulso da história, Purgatório Perdido).

No tal do dia, já começou não acontecendo nada porque o antigo buteco em que a gente se reunia não tava aberto, acabamos sabendo que foi fechado por briga entre os sócios. Tivemos que nos deslocar de um lado pro outro até a gente parar na Lapa, que também já não existe mais, admira que as placas já não sejam todas em inglês e o preço em dólar.

Afinal, o que aconteceu com ele?

A história é bem típica. Quando você tem 16 anos, dificilmente se pergunta por que 99% das pessoas fracassaram na tarefa que ele resolveu realizar. Primeiro o movimento estudantil, onde as coisas pelo menos eram divertidas. Por um bom tempo, aquilo dava vazão à paixão de destruir, deixava ele ver um mundo cada vez maior,


- Ah, Paulo, já te cortando, eu acho que não precisa de muita poesia pra isso, não! - Pedro falou com toda a grosseria. Seria interessante ver a sua aparência, mas não vou descrever não - agora que eu descobri que o melhor macete pra ficar em silêncio é falar, vou me meter nessa sua ladainha!

O caso não foi o seguinte, ele é o seguinte:o que aconteceu é que todo mundo se fudeu, tanto que a maioria nem percebeu!

A gente era um pequeno grupo de pessoas que estavam participando de um grêmio de escola pública, o que sempre seria uma ótima experiência de vida e, além do mais, enriquecedora - não tivesse acontecido na década de 1990!

Aí um dia você tava esculachando a garota com quem saía e depois começava a pensar sobre a questão da mulher. Ou vocês fugiam em bloco pra casa de alguém pra ficar todo mundo fumando um baseado, enquanto as imagens do Pink Floyd - The Wall iam se espatifando na sua cabeça.

Ou então a gente entrava de graça nos ônibus e ia passear pela cidade toda. Muito boa experiência de geração fugir da escola pra ficar ouvindo música clássica e vendo os pintores do expressionismo alemão, ou então o Hélio Oiticica, enquanto se lê o José Oiticica.

Todas as reviravoltas absurdas de eleições de grêmios, todo o tempo em passeatas - eu ficava pegando panfleto de passeata do mesmo jeito que na nossa década de zero se pega flyer de boate - tanto sangue na veia que parecia que ia acontecer alguma coisa!

E a coisa foi que não aconteceu nada. Não tô falando da sangria permanente dos pequenos grupos que se consideravam revolucionários naquela fase. Começava com dez pessoas, todos amigos, e terminavam com cinco, brigando.

É o resultado de ficar panfletando três vezes por semanas na mesma estrutura, pras mesmas pessoas que vão jogar no lixo os papeis, ou então usar de rascunho. É o fato das passeatas terem deixado de ser onipresentes, e ficar cada um disputando os militantes (cada vez menos) dos outros.

Enfim, é o que acontece quando você olha pra correlação de forças no mundo e parece um jogo de xadrez a duas jogadas do xeque-mate, quando você lê todas as coisas de todos os grupos e perde a noite no Google (na época o Yahoo!) tentando achar A resposta, aquele único texto que tu não leu que ia explicar a chave da etapa de hoje.

Mas não foi nada disso.

O que foi é que a gente corria de galho em galho, de opção em opção, até o dia em que não sobrou nenhuma alternativa mais. Eu tinha terminado com a minha namorada, e isso é outra história que eu conto outro dia, e fiquei na casa da minha mãe tomando leite maltado e lendo uns quatro anos de panfletos que eu tinha colecionado e guardava numa caixa de papelão.

Um belo dia, a gente foi tentar sair com o objetivo de conhecer mulé, o que significa falar com elas até levar um toco. Por me deu um enjoo muito grande quando eu saí de casa, parecia que os prédios das ruas tavam me esmagando.

Não conseguia respirar. Na verdade, de tanto a minha cabeça andar os quarenta mil quilômetros de circunferência do globo, quando o mundo desmoronou eu fiquei com uns quatro metros quadrados no Réveillon.

Aliás, sair de casa pra quê, ver a miséria nas ruas (que eu já esperava), e o meu fracasso em fazer qualquer coisa mesmo que a longo prazo? E a depressão, aí vem o desespero, machucando o coração...

Por todo esse tempo, eu via o Jornal Nacional, respondendo às notícias com os meus reflexos, os comentaristas eu sempre xingava muito alto, não pra eles ouvirem, mas pra eu ouvir alguém fazendo aquele tipo de discurso.

E quando eu ia na minha casa algum sobrevivente daquela greve derrotada dos Correios, onde não sei como não fui demitido, e ele falava alguma coisa sobre a debandada do movimento, me parecia estar vendo alguém falar sobre o clima de Marte. Com a cabeça, eu sabia responder o que era o melhor pra fazer, mas não me dava vontade de nada nem parecia que nada poderia acontecer.

Até a minha mãe me pediu pra ir no 1° de maio, por me ver tão diferente do que eu era. Eu fui como se fosse um fantasma visitando os vivos.

Na verdade, me parecia do ponto de vista da minha cabeça, que eles eram os fantasmas, com panfletos que poderiam tranquilamente ter sido escritos quarenta anos antes, tipo o Cerezo e todo mundo fazendo polêmicas, brigando uns com os outros por causa de coisas que aconteceram nos anos 1930, quando a minha vó brincava de amarelinha na roça.

Quando eu voltei, percebi que tinha um pouco de ar no mundo, já que tava todo mundo fudido junto, então já começava a imaginar melhor que existia mesmo um mundo do lado de fora da janela, não era só um descanso de tela.

Mas bem que o tal do mundo me parece mesmo é um daqueles cenários do Tom & Jerry, que acabam se repetindo depois de alguns segundos. O que me leva a ver que o boteco tendo acabado, acaba uma parte da gente e a gente começa a ter que se acostumar com o que viramos.


- Sempre a poesia, sempre a merda da poesia! Poemas em prosa! - disse Tiago, parecido com o Pedro

Não é nada disso, essa é a parte boa, o acidente foi o que aconteceu depois, esse boteco mesmo aqui que fechou, antes a gente ia se esconder naquele canto aqui da frente pra ficar fumando de noite, e depois a gente corria pra VM e passava o restante da madrugada olhando os strip-teases e a clássica Foda no Salão, enquanto o brilho não acabava.

Isso foi antes do André morrer. E o problema não foi que ele morreu, mas sim que a morte dele mostrou que a gente podia comprar o bagulho por telefone, sem subir no morro - até então a gente achava que era necessário enfrentar a boca, e merecer o bagulho.

E depois a irmã dele foi internada, e não como a menina que foi pro hospício com a camisa do Led Zeppelin (já que a gente não ouvia música dos anos 1990) e acabou encontrando um namorado lá, com que conversavam trocando os delírios.

Até então, era engraçado ser maluco, o porém veio quando a garota foi internada e voltou sem condições de viver sem o irmão acompanhando. A gente sempre vai lá, mas sabendo que é obrigação, porque alguma coisa que era ela não está mais lá.

- Umas pessoas fugiram mais dignamente. Tipo, teve uns que continuaram a tocar, a fazer teatro, sempre com um tipo de conteúdo crítico nas obras.

- Foi com esses fragmentos que escorei minhas ruínas. - Paulo cortou.

Mas cada vez mais, a gente ia percebendo que o foco ia mudando, cada vez mais aquelas pessoas estavam ausentes das manifestações - por outro lado as manifestações eram cada vez menores - desconversavam sempre que o assunto ia além das amenidades políticas. Alguma coisa se perdeu, e não foi mudança de estratégia porque, se fosse, eles iam falar abertamente sobre isso pra gente, que passou tudo isso com eles.

- Mas olha só, se tanto não aconteceu nada e a gente passou a noite traumatizado com o nada que aconteceu, e que nem derrota mesmo tivemos, porque não houve batalha, a noite termina com mais uma coisa não acontecendo, Marcos, porque o Tiago e o Pedro também não viram, mas Maria, Tatiana, Marina e Mariana, elas também não vieram. Acabou que hoje nem mesmo conseguimos nos encontrar. Uma noite na taverna faltando uma história, um uivo que não assusta ninguém, um

***

Às quatro horas da manhã, tendo já acabado todos os ônibus pra periferia, todo mundo teve que ficar no ponto, esperando o 296, o 350, o 629 e o 650.

Lá longe, apareceram os ônibus quando raiava a manhã. O céu azul tão longe de anunciar qualquer coisa nova, mas que era o que estava acima da cabeça deles.

Comentários

rodrigodoo disse…

http://www.facebook.com/rodrigo.silva.52643821/posts/427205460662625?comment_id=4630609&notif_t=like
SHEYLAHIRAILDE disse…
Gostei,conflitante e profundo!
Anônimo disse…
Ah, eis aí um grande escritor...Que texto com um ar nostálgico, mas, nem é tão apavorante, sentir esse tempo que passou.

Vivemos e os reencontros são possíveis ou podem deixar um gosto de nada, mudou...