Pular para o conteúdo principal

Coisas desconexas sobre a pintura

Tô lendo um livro sobre a vida e a obra do Kandinski, me levou a pensar em muita coisa, eu acho que foi o Vermelho Azul Amarelo que me fez prestar vestibular pra Artes Plásticas, eu me lembro ainda daquele dia de carnaval em 1998 quando eu comecei a ler um livro com esse quadro na capa, esse dia tem muitas outras ramificações mas eu falo disso outro dia.



Bem, tem uma coisa interessante, é que o abstracionismo foi muito atacado pelos "realistas socialistas", mas isso não é muito sério, porque a posição deles é ridícula. Mas também foi atacado, junto com as correntes vanguardistas na literatura, pelo Lukács, que tinha muito em comum com a visão de mundo do realismo socialista (e eu não falo do marxismo, e sim daquela visão em que a história é um blocão em que uma fase inteira é reacionária e outra é revolucionária, dependendo da sua relação com aa infraestrutura), e num certo sentido, esses caras realmente têm razão.

Tanto o Kandinski como o Mondrian partiam de uma posição ideológica bem específica que os levou a entrar no caminho do abstracionismo. Os dois fizeram parte da Sociedade Teosófica, e os dois usaram a abstração como se fosse um combate platônico do espírito contra a natureza.

Não por acaso, os outros artistas de vanguarda russos acusaram o Kandinski de obscurantismo, irracionalismo e deprezo da técnica, na época em que ele participou do Comissariado para Formação Cultural depois da revolução russa.

Então, esses caras parecem dar razão ao Lukács, quando ele acusa esse método de não permitir a captação de todos os detalhes da realidade. No Introdução à Estética Marxista, ele fala alguma coisa assim: o naturalismo dissolve a narrativa na descrição. Por isso os elementos ficam "soltos", o que permite que as correntes pós-naturalistas (a partir do impressionismo e do simbolismo) vão dissolver esses elementos e trabalhar com eles formalmente, jogando o conteúdo para o segundo plano, quando muito.

Mas, por que, apesar disso tudo, as obras do Kandinski estão a um milhão de anos-luz à frente do Malevitch e dos outros formalistas russo, mesmo trocando a "racionalidade" deles por uma doutrina mística de correspondência entre pintura e música?

Não sei (por isso isso não é um artigo, e sim "coisas desconexas"). Mas eu acho que tem que ter alguma coisa dentro de um quadro abstrato para ele se sustentar, sem a qual ele vira um monte de manchas ou uma brincadeira de efeitos visuais (tipo Moholy-Nagy). E a espiritualidade do Kandinski consegue encher um quadro, mesmo sem correspondência nenhuma com a realidade.

Aí é que entra a intuição do Leandro Konder, quando ele conseguiu convencer o Lukács a valorizar a obra do Kafka, mesmo sendo ela um fruto da dissolução dos recursos e temas de Dostoiévski

(não tem como falar disso aqui, mas só o Kirilov já é mais do que o Joseph K ou o Gregor Samsa, mas com a "pequena" diferença de todo um enredo onde aparece o mundo inteiro, ainda por cima estufado com uma metafísica que é uma crítica radical do mundo como aparece).

Me parece que o Kandinski, o Mondrian, e outros caras da dissolução do sujeito na arte moderna estão refletindo a decomposição do sujeito, que não é só a burguesia, a "classe-'sujeito'" do capitalismo, mas também do eu criado através do poder disciplinar da burguesia desde o final do século XVIII (o Guilherme que não me massacre muito...).

Quando o cara pinta um quadro abstrato para rejeitar o mundo das aparências, totalmente corrompido, ele ao mesmo tempo reflete a desumanização do mundo e a própria abstração do quadro é uma crítica da rejeição espiritualista - ninguém pode acreditar que a recusa do mundo como está pode se realizar plenamente num jogo de cores. Quando um quadro do Kandisnki nos faz rir e pular de alegria, ele está mostrando que o mundo pode ser transfigurado naquelas cores puras.

Então é uma relação dialética, em que o abstrato nega o concreto, mas fica esperando pela sua negação da negação, sustentado pelo fio do conteúdo. Bem diferente do empirismo/positivismo do tachismo e da op art.

Não sei se é isso, mas me parece sim que tem alguma coisa muito funda que faz as obras ascéticas desses caras terem tanta vida. Bem, são só coisas desconexas.

Comentários