Uma cidade feia (I)


Ali tem umas ruazinhas onde mora um amontoado de gente.

Esse bairro resindecial, com umas casas de vinte anos atrás, com as crianças brincando de futebol na rua, um carro de vez em quando no asfalto. As pessoas conversam nas cadeiras de praia na frente do quintal. Quando tem carnaval, elas vão pro coreto a vinte minutos de distância. Elas trabalham de segunda a sexta ou segunda a sábado, alguns trabalham na feira no domingo, mas a grande maioria vai lá comprar as coisas e fica regateando o preço depois da onze da manhã.

No quintal, ficam aquelas árvores com cheiro de mofo e umas estátuas de santo em lugares mais reservados. Os quartos de quase todo mundo tão cheios de inflitrações, mas algumas casas são um primor de arrumação. Dentro das casas, os assuntos são quase sempre sobre as próprias casas. A televisão não mostra um mundo, e sim cria novelas verdadeiras pra acompanhar. Ninguém acredita que fora daquelas ruas dali tenha alguma coisa diferente. a não ser "a cidade", que é um centro de serviços onde as pessoas vão com roupas mais arrumadas que os shorts e camisas surradas que usam pra andar até a padaria.

Aqui é que as pessoas vêm e começam a se misturar, construindo um monte de belas lições e de bobagens.

Dentro desse pedaço de quarteirão, e não com astronautas do futuro, estetas decadentes, seres quase somente feitos de espírito, caricaturas desconstruídas ou retratos da opressão. Aí é que começa a historinha de quem mora nessa rua.

É assim que se cria uma cidade, pelo menos na imaginação. E pra que se cria esse tipo de cidade, que nem existir existe, pra que ela serve então? Ué, pra expandir o mundo do autor, e servir de laboratório de ser outra pessoa. Pessoa.

Então, veio a acontecer que um cara botou um uniforme azul de eletricista. Mas não foi pegar auqele mesmo 296 de sempre nem parar na porta do Correio esperando ele chegar, com o sol esmagando a cabeça e algumas boas ideias que nunca viraram mais que isso.


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